Deuxieme


quarta-feira, fevereiro 11, 2009

'Alice' no País das Maravilhas.

João Lopes, nome sobejamente conhecido da nossa praça, escreveu esta semana no seu espaço Contracampo, na Notícias Sábado.

A estreia recente de alguns filmes portugueses, incluindo a forte campanha montada em torno de Second Life, relançou na praça pública alguns temas clássicos do cinema português, em particular o da sua viabilidade económica. Têm surgido algumas ideias interessantes, mesmo se os chavões mais ancestrais persistem de geração em geração (sendo o mais vulgar aquele que trata a critica como um rebanho, excluindo as suas muitas diferenças internas e atribuindo-lhe todos os males deste mundo e do outro). Curiosamente, aliás tristemente, a questão que se discute menos, ou se evita mesmo discutir, é a do possível envolvimento estrutural das televisões em todas as instâncias do cinema, criando sistemas que possam ajudar a aumentar a quantidade e a diversidade da produção (afinal, um padrão adoptado por alguns países europeus). É mais fácil tudo reduzir a uma guerra entre “cinema comercial” e “filmes de autor”. Há 30 anos, essa era uma forma simplista de pensar. Agora, tornou-se apenas uma fórmula para não pensar”.

Isto dá que pensar. Até porque, dois dias depois, o Público publicou – não resistimos – a seguinte notícia.

Portugal é o país europeu em que os espectadores de cinema menos vêem filmes nacionais. Segundo o Observatório Europeu do Audiovisual, a quota de mercado das produções portuguesas atingiu em 2008 apenas 2,5 por cento do total da audiência de filmes em salas de cinema.

Este é o valor mais baixo entre 19 países da União Europeia e quatro não-membros (Suíça, Noruega, Federação Russa e Turquia) analisados pelo observatório. O país mais próximo é a Bulgária, com uma quota de 4,8 cento. A Espanha chega aos 14,2, traduzidos em 15,3 milhões de espectadores nos filmes.

(…) O estudo do Observatório divulgado ontem - elaborado com os dados dos institutos nacionais do cinema e do audiovisual - afirma que ‘2008 foi novamente um ano de forte procura de produções nacionais, com as quotas de mercado de produção local a aumentar em 13 dos 19 Estados-membros em que este tipo de informação está disponível’.

Em muitos países, acrescenta, o ‘sucesso dos filmes nacionais contribuiu significativamente para aumentar ou estabilizar a audiência nos cinemas’. Há mesmo cinco países em que a quota de produção nacional excede os 30 por cento - a Turquia (59,2 por cento) e a França (45,7 por cento) são os países onde a produção local tem mais sucesso”.

A notícia veiculada pelo Público é o tipo de peça que pede um chavão do género Contra factos não há argumentos. No entanto, é de Cinema que estamos a falar. E, se há critério em que não podemos admitir estar na cauda da Europa, é na qualidade da relação que o espectador português mantém com a sétima arte caseira. Convém não esquecer que em Julho de 2007, um Fundo de Investimento para o Cinema português foi aprovado, na ordem dos 83,2 milhões de euros. O apoio terá a duração de sete anos. Um já lá vai. Daqui a seis, esperemos cá estar para colher os frutos. O nosso receio é que até lá, como adianta João Lopes – mas, só para quem quiser enfiar a carapuça –, muitos continuem a preferir não pensar.

Bruno Ramos

13 Comments:

Anonymous JOnnhy said...

Concoedo mais com o do Publico! E se for a fazer a estatistica com as minhas idas ao cinema, então é q as contas vêm por ai abaixo!!!

11 de fevereiro de 2009 às 18:25  
Anonymous jonnhy said...

...ver filmes portugueses (faltava esta parte)..pq ao cinema vou tas as semans

11 de fevereiro de 2009 às 18:26  
Anonymous César said...

Há uma realidade que também sería plausível avaliar: o preconceito em relação ao cinema português. Certo é que as gerações mais jovens não gastam dinheiro para ir ver filmes portugueses. Porquê? Porque já lhes está incutido desde o início que o cinema português não tem valor. Realmente, não nos podemos queixar de que algumas das obras estreadas no cinema, de origem portuguesa, careçam de alguma "qualidade" quando parece que não há interesse por parte das produtoras em apostar mais na produção nacional (não me refiro à de telenovelas, porque nesse campo não param, ainda que o produto final seja sobejamente mau). Mesmo assim, não há que esquecer o fenómeno "Alice" que levou ao cinema uma grande percentagem de público (não acostumado a tal façanha).

11 de fevereiro de 2009 às 18:56  
Blogger Bruno Ramos said...

Jonnhy, apesar de os textos poderem parecer antagónicos, não foi dessa forma que os entendemos, nem era nossa intenção apresentá-los como tal. Ainda assim, talvez eles se anulem, e não tenhamos dado por isso.

César, em nosso entender, o grande feito de Alice não foi o número de pessoas que levou às salas, mas sim o estado em que a maioria saiu de lá.

11 de fevereiro de 2009 às 19:06  
Anonymous César said...

Caro Bruno Ramos, concordo plenamente com o referido... eu fui um dos tantos que saiu revirado do avesso, não só porque o filme me pareceu ser resultado de um bom e intenso trabalho, como também pelo excelente trabalho dos actores - aqui ressalto também a fenomenal Beatriz Batarda, que parece sempre esquecida pelo público em geral, quando é uma das nossas melhores actrizes (a ver "Noite Escura" de João Canijo, que sendo um produto bastante mediocre apresenta-nos uma Beatriz Batarda em excelente forma - interpretativa, diga-se)

11 de fevereiro de 2009 às 20:48  
Anonymous Paulo said...

Eu não vejo cinema Português, porque para mim, ele é indubitavelmente mau! Nem "alice" escapa...achei o filme enfadonho e repetitivo, o qual se podia resumir a 10 minutos de um documentário..mas é a minha opinião! Não gosto do cinema português, não pq me foi encutido "não gostar" mas porque vi e não gostei!

11 de fevereiro de 2009 às 21:31  
Anonymous ines said...

Eu adorei o filme Alice. Está muito bem realizado e os actores têm interpretaçoes fantásticas. Coisa Ruim também achei bom. Porém, os filmes que têm estreado recentemente têm um padrão demasiado igual: sexo e crime. É o que cá vende. Os trailers mostram todos o mesmo, o que quase toda a gente quer ver. E estou a falar, obviamente, de filmes como Contrato, Crime do Padre Amaro, Call Girl e o Second Life (embora este ultimo com um argumento mais interessante). Acho que as pessoas vão acabar por se fartar. Eu ja nem tento.

11 de fevereiro de 2009 às 23:23  
Anonymous Deltóide said...

Ai ai... os melhores filmes portugueses de sempre têm mais de 60 anos. Isso é bem ilucidativo da qualidade da produção nacional. Mesmo Alice que é um bom filme, é material para uma curta e não uma longa metragem.

Por muito que um tipo se aplique, não é fácil ser amante do cinema nacional, que se divide em duas correntes. Uma, chamar-lhe-ia a corrente Oliveira, dos takes longos e monocórdicos, que para documentário sobre a savana africana são excelentes, mas pelos quais não estou disposto a pagar 6€;a outra é a corrente Soraia, da porno-xaxada e do palavrão a martelo que os produtores devem pensar ser o único chamariz passível de funcionar com o bronco que é o espectador nacional.

Nota extra: a perda que a Premiere teve com a saída do João Lopes, é a meu ver incontornável...

12 de fevereiro de 2009 às 09:58  
Blogger Passenger said...

Lamento imenso, mas é impossível apreciar obras como Second Life, que são uma regurgitação de tudo o que há de mau no cinema popular de tal forma que até quem só vai ao cinema ver as comédias do Eddie Murphy percebe que são filmes terríveis, mas também obras como Transe, que são obras sem lógica, impenetráveis, maçudas, sem interesse nem para os Portugueses, nem para os Franceses, para ninguém mesmo. Não há padrões em Portugal e a formação é do pior. Os críticos fazem o que lhes compete, que é dar as suas opiniões. O público faz o que lhe compete, que é apoiar obras com valor. Como sempre, não é um problema de dinheiro, não é um problema de preconceitos - é um problema de qualidade e de saber como empregar os recursos de que dispomos. Metade dos realizadores portugueses que andam por ai não deviam ter um cêntimo para os seus projectos. Marco Martins é uma das poucas excepções porque percebe que um filme tem uma lógica interior que deve ser bem trabalhada e ao mesmo tempo deve servir a audiência estabelecendo perguntas perceptíveis e incentivando a pensar em respostas ao longo do filme, mesmo que estas sejam negadas no fim, que é o que Michael Haneke faz, que é o que muitos autores conseguem fazer, é pensar o cinema de uma forma tal que os filmes tenham uma história sólida, verosímil, com princípio, meio e fim, que diga algo, mostre algo que todos podemos reconhecer e ao mesmo tempo saiba fazer as perguntas certas sem oferecer soluções simplistas. Alice é tão simples e tão engenhoso por isso. Temos um pai que perdeu a filha. Bom. Ele procura a filha com esquemas possíveis mas originais, como as câmaras que espalha pela cidade. Muito bom. No fim não encontra a filha, mas comove-se ao ver outra criança parecida. Fantástico. É um caso de “menos é mais”. Em Portugal perdemo-nos com simbolismo, com pseudo-poesia visual (isto apesar dos realizadores não terem qualquer sentido estético e ninguém falar de cinematografia e composição em Portugal – o único director de fotografia bom Português, o Eduardo Serra, formou-se em França), é tão difícil fazer isso resultar, especialmente quando não se tem noção do que se está a fazer, os Tarkovskys não nascem assim.

12 de fevereiro de 2009 às 12:12  
Anonymous Ricardo Silva said...

Pois eu achei "Alice" um filme completamente falhado,entediante com um guião lamentável.
Um dos meus maiores vicios cinéfilos é ver mesmo cinema português.Vejo mesmo muito cinema português quer em sala quer em DVD e posso dizer com muita experiência que já vi de tudo.Já vi cinema de autor de grande qualidade("O Milagre Segundo Salomé","O Mistério da Estrada de Sintra","Entre os Dedos")mas já vi também excelente cinema comercial("Sorte Nula","O Crime do Padre Amaro","A Arte de Roubar").Também já vi muito mau cinema de autor("Coisa Ruim","Noite Escura","O Fantasma")como muito mau cinema comercial("Inferno",Corrupção","20-13")e vi também filmes portugueses bons e assim assim,seja de "autor" seja "comercial".Por isso há e já vi de tudo.Estou a designar assim embora não concorde com os adjectivos empregues,é uma forma simplista e errónea de classificar.

O problema em Portugal é:

1-O cinema não ter raiz popular como acontece em todos os paises da Europa.O público deve-se identificar com os actores e com as situações que está a ver.

2-A classe politica que organiza a cultura não levar a sério o cinema,isto é,não vê o cinema como uma indústria.Esse é um grande mal que afecta o cinema em Portugal e tem que ser resolvido.

3-Falta de promoção dos filmes nacionais na televisão,rádios e outros meios.Acho fundamental a promoção televisiva dos filmes.Só assim o espectador médio terá curiosidade em ver o filme.

Quando um dia estas 3 coisas mudarem podem ter a certeza que o cinema português terá um público fiel e a mentalidade mudará.

Sou daqueles que também achou "Second Life" um desastre de enormes proporções mas serviu,para mim,para confirmar que Alexandre Valente só serve para produzir filmes não para escrever nem para realizar.Foi isso que faltou a "Second Life" um argumentista e um realizador por detrás porque teve uma boa ideia.

12 de fevereiro de 2009 às 13:05  
Blogger Passenger said...

Ricardo quanto ao ponto 3 acho que há poucos nomeados para Óscares que tenham tido a quantidade de promoção que filmes como Corrupção, O Crime Do Padre Amaro ou Second Life, entre outros, tiveram, e mesmo assim fizeram muito mais dinheiro. Até reportagens pró Fama Show fizeram!

12 de fevereiro de 2009 às 14:10  
Anonymous i said...

Concordo com o Passenger relativamente ao teu ponto 3, ricardo

12 de fevereiro de 2009 às 16:15  
Anonymous Ricardo Silva said...

Nós temos que nos levar a sério,esse é que é problema.A promoção é fundamental.
Há,para mim,um défice brutal na promoção dos nossos filmes no espaço mediático e isso tem que ser alterado de uma vez por todas.Temos que nos deixar de complexos de inferioridade perante o cinema feito nos outros paises.Até os nossos trailers são um desastre.Todos os nossos filmes sejam eruditos ou não tem que ser promovidos como devem ser.O cinema português precisava de um José Eduardo Muniz,isto é,uma pessoa com uma grande ambição de tornar algo em industria sem medo de vacilar.Veja-se o caso das telenovelas.Ele em 10 anos conseguiu destronar de uma forma avassaladora da tabela de audiências as novelas da Globo.Há 10 anos se dissessem uma coisa dessas diziam que seria um disparate,que era impossivel de acontecer.Pois bem ele conseguiu.
O problema é que não temos ninguém que faça o papel de "Muniz do cinema português".Talvez um dia.

12 de fevereiro de 2009 às 20:12  

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