Deuxieme


quarta-feira, fevereiro 04, 2009

No ringue de Mickey Rourke.

Antes de lançarmo-nos numa espiral de considerações sobre a probabilidade de, daqui por um mês, estarmos a iniciar um texto com a frase, O vencedor de um Oscar, Mickey Rourke, convirá dizer que, à altura a que estas linhas são escritas, infelizmente, ainda não assistimos ao mais recente filme de Darren Aronofsky. No entanto, para a comparação que pretendemos levar a cabo, também não será assim tão importante. Isto porque o texto terá por base a ideia de que Rourke arrancou, em The Wrestler, a melhor interpretação do ano. Perdão, da História. Assim, jamais falharemos por defeito. E, ao mesmo tempo, também não deixaremos margem para dúvidas quanto às razões que, a três semanas da cerimónia, encontramos, para achar que Rourke não levará o Oscar para casa. Sim, porque acreditamos que Rourke ficará de mãos vazias. Assim como Penn. Embora, em relação a este último, a hipótese formulada não tenha qualquer fundamento empírico. É, apenas, um instinto do caraças. Quanto a quem levará o Oscar, para já, a nossa aposta é Frank Langella. Mas, falemos de Rourke.

Desde 1994, ano em que os Screen Actors Guild (SAG) começaram a entrar para as contas dos Oscar, os prémios do sindicato dos actores têm acertado mais no vencedor do Oscar de Melhor Actor, do que os Globos de Ouro. Os SAG falharam por quarto vezes, contra cinco dos Globos. Em 2000 (Benicio del Toro, Traffic), 2001 (Russell Crowe, A Beautiful Mind), 2002 (Daniel Day-Lewis, Gangs of New York), e 2003 (Johnny Depp, Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl). Os Globos de Ouro, por sua vez, erraram em 1998 (Jim Carrey, The Truman Show), 1999 (Denzel Washington, The Hurricane), 2000 (Tom Hanks, Cast Away), 2001 (Russell Crowe), e 2002 (Jack Nicholson, About Schmidt). A diferença, em abono da verdade, não é muita. No entanto, não deixa de favorecer os SAG. E, das três vezes que os cinco nomeados dos SAG coincidiram com os cinco nomeados da Academia de Hollywood – 1996, 1997 e 2006 –, como acontece este ano, o vencedor dos dois prémios foi o mesmo. Logo aí, começa a estatística a jogar contra Rourke.

O segundo ponto que não beneficia o actor de Angel Heart prende-se com as duas distinções de The Wrestler para os Oscar. Desde 1934, a Academia de Hollywood, só por sete vezes atribuiu o Oscar de Melhor Actor a desempenhos cujos filmes tiveram duas ou menos nomeações – José Ferrer (Cyrano de Bergerac, 1950), Cliff Robertson (Charly, 1968), John Wayne (True Grit, 1969), Art Carney (Harry and Tonto, 1974), Michael Douglas (Wall Street, 1987), Denzel Washington (Training Day, 2001), e Forrest Whitaker (The Last King of Scotland, 2006). O único sobre quem leva vantagem, neste critério, é Richard Jenkins. Os restantes participam em filmes que receberam cinco, oito, e treze nomeações.

No entanto, o factor que mais poderá prejudicar Rourke parece-nos ser, paradoxalmente, aquele que mais força lhe dá nesta corrida. Para além da grande interpretação no ecrã – reforçamos a ideia de escrever este texto com base no pressuposto deste ser o melhor trabalho da História –, Rourke carrega consigo, nesta temporada de prémios, o carisma de um actor que contornou adversidades, passou as passas do Algarve, e chegou finalmente à Terra Prometida. Estes subplots fazem a diferença, e transportam para a vida real aquela magia que estamos apenas habituados a ver na tela. No entanto, torna-se difícil ajuizar onde é que devemos colocar o ponto final, neste final, passe a redundância, feliz. Porque, desde que The Wrestler chegou às salas, Rourke tem-se fartado de ganhar. Ganhou uma reputação perdida, um estatuto que cheirou, mas nunca provou, uma visibilidade da qual já não devia lembrar-se, uma série de guiões para ler, e uma quantidade infindável de telefonemas para saber se o projecto X pode contar com ele ou não. Daí que a Academia de Hollywood possa achar que ouvir o seu nome, em pleno Kodak Theater, como nomeado para um Oscar, já seja triunfo o suficiente. Nos últimos anos, houve dois casos semelhantes. O primeiro, de Johnny Depp, quando foi nomeado pela primeira vez pelo seu trabalho em Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl. O segundo, de Peter O’Toole, quando foi nomeado pela oitava vez pelo seu desempenho em Venus. Em ambas as situações parecia que algo não encaixava bem. Apesar de as nomeações serem justas, mais do que justas até, e ambos terem sido considerados inclusive possíveis vencedores, sentia-se um ligeiro desconforto no ar, como se não fosse previsto estarem ali. Johnny Depp porque nunca tinha parecido um actor de Oscar. O’Toole porque nunca ganharia um.

Contudo, o caso mais paradigmático, e que, em nosso entender, aparenta ser mais similar com o de Mickey Rourke, é o de Bill Murray, em 2003. Nomeado pela sua interpretação em Lost in Translation, Murray de novo sob a luz dos holofotes, de forma inesperada, num registo que lhe desconhecíamos, e como um dos grandes favoritos à vitória final. Sean Penn haveria de levar a melhor. Alguns terão achado que a nomeação já tinha feito o suficiente pela carreira de Murray. Talvez. Alguns terão achado, simplesmente, que Sean Penn merecia mais. Não deixa de ser irónico que Penn volte a estar nomeado num ano que assinala o regresso de um actor à ribalta. A História repete-se. Mas, com que periodicidade, ninguém sabe. Até Langella tem hipóteses. E, não são assim tão poucas.

Bruno Ramos

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4 Comments:

Anonymous Marta said...

Bem, por esta ordem de ideias já percebi que Brad Pitt é mesmo o parente pobre desta família, o que tem menos possibilidades de levar uma estatueta para casa. Vai ser um dia triste numa casa com tanta criança.

5 de fevereiro de 2009 às 11:24  
Anonymous Alexandre J. said...

Se o Brad Pitt ganhar é um escândalo. Tenho dito.

5 de fevereiro de 2009 às 18:40  
Anonymous Anónimo said...

O Mickey Rourke merece ganhar o Óscar.Seria mesmo a ressureição da sua carreira.

5 de fevereiro de 2009 às 21:06  
Blogger cátia said...

n é por nada mas se o brad pitt ganhar também n é mal entregue

6 de fevereiro de 2009 às 20:32  

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