Deuxieme


sábado, março 15, 2008

25 - O Assassino (John Woo, 1989).

Cada aula de código versa sobre um tema. Mal seria se tivéssemos de nos deslocar duas vezes à escola de condução para ouvir a utilidade dos sinais luminosos. Basta uma lição sobre isso e assunto arrumado. Ora, isto que temos tentado fazer no Deuxieme partiu de uma comparação com essa situação, logo, não podemos cair no erro de falar duas vezes no mesmo tipo de filme. Gostava de pensar que esta Carta pode levar alguém desse lado a ver determinada obra. Que isto fosse o ponto de partida para algumas descobertas, e, se possível, que estas fossem marcantes. Claro que isto é tão mais provável quanto menos conhecidos forem os filmes de que falamos. Agora, isto de arranjar trinta filmes tão diferentes a esse ponto, pode tornar-se num problema. Convenhamos, o conhecimento não ocupa lugar, apenas porque o lugar onde ele cabe é sempre maior. Neste caso, estamos a falar de um autêntico armazém.

Ao sexto filme, começam a surgir alguns receios de não estar à altura do desafio. Sobretudo, porque sinto não ser o médico de clínica geral que pensava. Se isto fosse medicina, o ideal era ser especialista em clínica geral, isto é, saber um pouco de tudo, e poder falar à vontade sobre qualquer área. O pior é que nem sequer posso dizer que sou especializado em dermatologia (entenda-se, cinema asiático), ou gastrenterologia (vulgo, cinema xunga). Continuo a sentir-me um Dr. Carter naqueles anos de internato no Serviço de Urgência – anda tudo muito depressa e a câmara sempre num reboliço. Uma conclusão a que já cheguei há bastante tempo é a de que dificilmente teremos oportunidade de ver todos os filmes que queremos, no espaço de uma vida. Ou temos uma força interior do camandro, ou a sorte de nos cruzarmos com eles. Porque, isto da cinéfilia, não passa de uma pós-graduação na qual somos professores e alunos. Temos é de ver se não falhamos as aulas certas.

E, sobre este sexto filme, reconheço que haverá por aí gente muito mais qualificada para opinar, do que um apaixonado por dramas de Capra e comédias de Wilder. Por mais ecléticos que sejamos, há certos aspectos em O Assassino (John Woo, 1989) que só conseguem ser dilacerados por um verdadeiro connaisseur do cinema de Hong Kong. Daqueles que vão ao início dos tempos, e conseguem justificar de olhos fechados e de trás para a frente porque razão este filme é o pai deles todos. É claro que poderíamos chegar aqui com frases categóricas como O Assassino é o Heat do cinema asiático, mas melhor, no entanto, nada substituirá o visionamento integral desta obra. Ainda assim, para um leigo no cinema de Hong Kong, não podemos deixar de nos encantar com o drama nuclear neste filme de acção, sobre um matador a soldo, honrado e movido por uma nobre causa (Chow Yun-Fat), e o polícia impiedoso, capaz de o perseguir até aos confins do mundo (Danny Lee). Violência é coisa que abunda para estes lados – quem se deu ao trabalho de quantificar o genocídio, diz que este filme tem mais cadáveres do que Assalto Ao Arranha-Céus e Desafio Total juntos. No entanto, o espírito benévolo subjacente das personagens confere ao filme toda uma graciosidade inesperada. O humanismo de Woo, por demais evidente na comoção da cena final, terá sido o toque de Midas para transformar este filme na melhor metáfora cinematográfica do clássico de John Lennon, Imagine. De O Assassino terei sempre presente o harmonioso som das cápsulas das balas a cair no chão, como se de pássaros a chilrear pela manhã se tratassem.

Alvy Singer

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segunda-feira, março 10, 2008

26 - O Aeroplano (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, 1980).

Ainda há procura das melhores definições – isto das formatações, e de um tipo trocar Mozillas por Explorers, não traz nada de bom –, o primeiro post depois do hiato (palavra arranjada à socapa no dicionário do Windows) inoportuno, teria de ser sobre A Carta, um segmento que, apesar de ainda não ter reunindo a popularidade de outros, é aquele que mais gozo tem dado desde o inicio deste espaço. Sobretudo porque trata de memórias, daqueles primeiros títulos que nos levaram a tirar os pés do chão, e voar para outras galáxias. Sempre senti uma enorme proximidade com a sublime Cocaine de Eric Clapton, porque desde cedo me habituei a substituir o vocábulo que o génio cantava pelo nome da obra-prima referenciada neste post. Basta mudar isso, e é toda uma identificação que surge com a música. Depois de L.A. Confidential (Curtis Hanson, 1997), O Rei Leão (Roger Allers e Rob Minkoff, 1994), A Glória de Pamplinas (Buster Keaton e Clyde Bruckman, 1927) e O Mais Selvagem Entre Mil (Martin Ritt, 1963), é chegada a altura de abordarmos a primeira comédia neste rol de trinta intocáveis. Materializando o exercício com a música de Clapton, If you got bad news, you wanna kick them blues, Airplane!.

1980 foi o ano em que Gente Vulgar (Robert Reford) arrecadou o Oscar de Melhor Filme, em que O Último Metro (François Truffaut) se assumiu como o canto do cisne do mestre francês, em que o Império Contra-Ataca (Irvin Kershner) conseguiu ser ainda melhor do que o original, em que Shining (Stanley Kubrick) confirmou o valor do triunvirato Kubrick-Nicholson-King, em que O Homem Elefante (David Lynch) comoveu plateias dos quatro cantos do mundo, e em que O Touro Enraivecido (Martin Scorsese) provou o talento e profissionalismo de De Niro. No entanto, apesar de todos estes monstros sagrados da sétima arte, O Aeroplano continua a ser o predilecto.
Ainda hoje continuo a acreditar que o trio de realizadores e argumentistas, Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, ter-se-á sentado à mesa, antes da rodagem deste filme, e acordado que todos os esforços seriam feitos no sentido de realizar o título mais idiota de todos os tempos. A pergunta que deu o mote para essa reunião deve ter sido algo do género: Pessoal, como é que havemos de fazer o filme mais nonsense de todos os tempos, sem imitar os Monty Python?

É verdade que a base já tinha sido lançada, e, como numa habitação bem construída, o ponto de partida já tinha sido escolhido. A ideia passava por parodiar os filmes catástrofes dos anos setenta, como Aeroporto, A Torre do Inferno e Terramoto. Como os três já estavam escaldados da infrutífera tentativa e má experiência anterior (Kentucky Fried Movie), com Aeroplano, as coisas tinham de dar a bom porto, aero, entenda-se. Foi assim que decidiram comprar os direitos do filme catástrofe Zero Hour (Hall Bartlett, 1957), e aproximar os argumentos tanto quanto possível.

Sobre o filme em si, pouco ou nada há a dizer, ou não fosse uma palhaçada pegada. Mas, é uma palhaçada tão artística, que quase arriscamos dizer que um filme falado jamais poderia ter tanta piada. Especialmente porque, apesar de algum humor físico, a grande maioria dos gags surge através dos diálogos. Fosse o avião um estádio de futebol, e talvez pudéssemos achássemos verosímil ver tanta gente diferente, no entanto, não custa assim tanto aceitar que, no mesmo meio de transporte, viaje toda aquela mescla de passageiros, desde casais problemáticos, passando por crianças doentes, até freiras e defensores da blackexplotation. Tudo bem juntinho, para potenciar as situações mais caricatas, lá no alto, e na torre de controlo, onde o controlador Johnny (Stephen Stucker) escolheu a pior semana para deixar todos os vícios. A grande mais-valia de O Aeroplano, para além do elenco magnífico, do argumento que, sendo idiota, é do mais inteligente possível, e das referências sempre acutilantes, é o de passar a noção que estamos a viver o mais terrível dos dramas. Em nenhum momento vemos a mais pura descontracção, ou o mínimo sinal de sarcasmo. Cada instante é mais sério que o anterior, e não há lugar para sorrisos – excepto no espectador. Toda a gente sente que está à beira de uma tragédia, e é esse registo dramático que acaba por tornar o filme tão hilariante. Fora isso, não deixará de ser louvável o facto de tantos actores terem os seus quinze minutos, numa película com menos de hora e meia. Até aí se vê o brilhantismo da escrita que, com duas deixas apenas, seguramente proporcionou o ponto alto na comédia, na carreira de muito bom actor. Enunciar todas as célebres frases, cortaria qualquer possibilidade de escrever outro post esta noite. Por essa razão, deste filme que voará sempre em primeira classe, após uma estrita selecção, aqui ficam estes trinta segundos memoráveis, e a mais tola resposta alguma vez dada por um comandante de voo.
Towergy: Captain, maybe we ought to turn on the search lights now.
MCrosky: No, thats just what they'll be expecting us to do.

Alvy Singer

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segunda-feira, fevereiro 18, 2008

27 - O Mais Selvagem Entre Mil (Martin Ritt, 1963).

No primeiro esboço desta Carta vários foram os filmes sonantes presentes. Verdadeiros colossos da sétima arte que marcaram de forma indelével a História do Cinema. Quando a ideia grotesca de escolhermos apenas trinta filmes nos invade a mente, rapidamente nos apercebemos que a melhor maneira de encarar esse repto é não olhar a nomes. Não olhar a prémios. Não pensar no número de vezes que determinada obra figurou nas restritas listas do American Film Institute. É no preciso momento em que o The End surge no grande ecrã, que se definem os grandes filmes. Para os outros, e para nós. Ao elaborar este rol de trinta aulas que perfazem a carta de condução que habilita qualquer cinéfilo a assumir as rédeas de um qualquer bólide, até mesmo de um Ran F360 – fica aqui a sugestão para o próximo protótipo da Ferrari –, desde cedo ficou definido que o desempate seria sempre o maior ou menor aperto no coração quando o filme termina. Porque, convenhamos, há filmes que terminam com um emaranhado de nós nas emoções. Aquilo é tristeza, espanto, alivio, alegria, redenção, deslumbramento, pesar, medo, júbilo, por aí fora. Quanto mais forem as emoções à flor da pele, melhor. È sinal que o filme atingiu os seus propósitos. Em Cannes, as ovações no final da apresentação funcionam como barómetro para avaliar o sucesso. Se a audiência fosse constituída apenas por Alvys Singers, todos pensariam que os títulos em competição eram uma lástima. Isto porque um filme é tanto melhor quanto mais tempo demoro a reagir após o final. Um bom filme é aquele que termina e começamos a falar com a pessoa do lado. Agora, aquele que recordaremos para todo o sempre, a obra-prima, é aquele filme que retira dez minutos à nossa vida, quando saímos da sala e ficamos aquele tempo todo até conseguir articular uma palavra. Este filme talvez não seja o menos conhecido desta Carta, no entanto, não andará longe disso. Se esta alusão for suficiente para chatear alguém, e obrigá-lo a mexer-se para ver esta obra, então a sua eleição está mais do que justificada.

Porém, outras razões estiveram por detrás da escolha de O Mais Selvagem Entre Mil (Martin Ritt, 1963), o western moderno que mais não é do que um verdadeiro diamante em bruto. Se há filmes polidos de uma ponta à outra, este não é um deles. Baseado na obra de Larry McMurtry, o filme apresenta-se como uma passadeira de virtuosismos, que vai desencobrindo pequenas relíquias a cada esquina, a cada deixa, a cada plano. No final, percebemos porque é que este não é um filme adorado por muitos, mas amado por todos aqueles que já tiveram a sorte de o ver.

Este é o filme ideal para todos aqueles que apreciam um bom anti-herói, daqueles que respiram imodéstia e arrogância. Ao mesmo tempo, serve também as necessidades de todos aqueles que procuram a personagem moral e sensata, com a mais sábia das palavras para qualquer situação. Este confronto entre o filho rebelde Hud (Paul Newman) e o pai ponderado Homer (Melvyn Douglas), tem todos os condimentos de um Yin Yang. A Alma de Patrícia Neal funciona às mil maravilhas como a sensual doméstica que vai caindo, a espaços, na atracção de Hud, para logo a seguir voltar à repulsa habitual. Pelo meio ainda temos o infante Lonnie Bannon (Brandon de Wilde), o verdadeiro advogado do diabo no meio disto tudo. É difícil avaliar a importância que este filme terá tido no início dos anos 60, quando o conflito geracional estava prestes a eclodir. Mais de quarenta anos depois, este continua a ser um dos melhores exemplos da versatilidade de Hollywood. Apesar dos Óscares terem recaído para as interpretações de Melvyn Douglas, Patrícia Neal, e para a fotografia poeirenta de James Wong Howe, é no argumento da obra que encontramos toda a sua força. Não é qualquer filme que pode orgulhar-se desta pérola: “Why you separate the saints from the sinners, you're lucky to wind up with Abraham Lincoln”.

Alvy Singer

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quarta-feira, fevereiro 13, 2008

28 - A Glória de Pamplinas (Clyde Bruckman e Buster Keaton, 1927).

O fascínio por este filme começa logo nos detalhes. Pela forma como a arte imita a vida. Como a vida imita a arte. Como as duas coisas se misturam para confluir numa só. Reza a lenda que Buster Keaton terá dito um dia que se não tivesse sido um comediante, teria sido engenheiro. O actor tinha uma apetência extraordinária para a mecânica e percepção visual, maravilhando constantemente as equipas de rodagem que ficavam boquiabertas com o seu recurso à física para atingir determinados gags. A sua paixão era os comboios e, sempre que fosse possível, lá arranjava uma maneira de meter aquela que era a sua máquina predilecta. Quando um membro da sua habitual equipa de argumentistas lhe ofereceu um livro baseado no roubo de um comboio, levado a cabo por um grupo de soldados do Norte, durante a Guerra Civil Americana, Keaton rapidamente encetou esforços no sentido de transpor a obra para o grande ecrã. O desejo de ser fiel à realidade, tanto quanto possível, ficou bem patente quando solicitou a verdadeira locomotiva, O General, para as filmagens. Porém, não foi possível e tiveram de se arranjar de outra maneira. O estado do Oregon, aquele que apresentava as características que ambicionava, sobretudo para o clímax do filme (considerado o take mais caro do cinema mudo), acabou por ser o escolhido.

Posto isto, a rodagem começou, e teve inicio a construção de um dos melhores filmes de todos os tempos. A história é relativamente simples: um grupo de soldados do Norte, disfarçados de sulistas, rouba a locomotiva de Johnny Gray (Keaton), O General. Nessa locomotiva, estava na altura o outro amor da sua vida, Annabelle Lee (Marion Mack). Naquela que não terá sido a decisão mais sensata que algum dia tomou, Gray decide partir sozinho e recuperar dois coelhos com uma cajadada, em território inimigo. Isto tudo depois de ter sido recusado pelo exército sulista. Resgatadas as suas preciosidades, a segunda parte do filme trata do regresso às linhas caseiras. Ou seja, temos uma primeira metade do filme para lá, e uma segunda metade para cá. Não tem nada que saber. No final, e é isso que guardamos para todo o sempre depois de ver A Glória de Pamplinas (com muito esforço não farei qualquer comentário a esta tradução), ficamos com a sensação de ter visto o filme mais completo da História. Pode não ser a melhor comédia, o melhor filme de acção, o melhor de suspense, o melhor romance, ou o melhor no estudo das personagens. Mas, muito poucos serão os filmes que poderão orgulhar-se de ter aglutinado todos estes elementos com tamanha antologia. Pessoalmente, gosto de pensar neste filme como o Die Hard do cinema mudo. Por todas estas razões, e por ter sido o primeiro filme onde ninguém fala, que me fez rir, e ao dizer rir, leia-se gargalhadas sufocantes, A Glória de Pamplinas é um dos eleitos para esta carta.

Alvy Singer

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sexta-feira, fevereiro 08, 2008

29 - O Rei Leão (Roger Allers e Rob Minkoff, 1994).

Algo que gostaria de partilhar com todos aqueles que visitam o Deuxieme, e isto da proximidade que um tipo vai desenvolvendo com um ecrã de computador é, de facto, uma coisa curiosa, é que não me dou muito bem com criticas. Sobretudo, quando gosto do filme.

A experiência tem-me dito que gosto mais do que desgosto. Se colocasse dum lado da balança os filmes que gosto e, do outro, aqueles que não gosto, digamos que os que não gosto davam um valente salto rumo à estratosfera. E, já agora, podiam lá ficar. Para Alvy Singer, todos os filmes começam com cinco estrelas. É aquilo que eles vão demonstrando ou não, que vai retirando pontos aqui e ali. Acredito que para diversos críticos, seja o contrário. Começa tudo com zero. O que até faz um certo sentido. Agora, gostar de um filme não é o problema. A dificuldade está em verbalizá-lo. Em explicar as razões porque esta ou aquela obra nos toca especialmente. Perdoem-me a referência mas, talvez seja melhor recuperar este momento, e utilizá-lo para explicar melhor esta adversidade.

Sem o olhar esgazeado de Wes Bentley, poderei dizer que foi mais ou menos assim que me senti, após ter visto O Rei Leão. O filme foi um belo saco de plástico a dançar à minha frente. Ao contrário da sua personagem, Ricky Fitts, tive o privilégio de ter o saco a bailar durante uma hora e meia. No final, fugiam-me as palavras para descrever cada ínfimo pormenor que tinha ajudado a tornar este visionamento, numa experiência verdadeiramente inesquecível. Teria sido o brilhantismo dos desenhos? Possivelmente. Teria sido a banda-sonora de Hans Zimmer? Talvez. Teria sido a acção, aventura, comédia e drama que o filme serviu em criteriosas doses? Provavelmente. Teria sido o argumento de Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton, que capta de forma sublime os diferentes estádios de desenvolvimento de cada um? Acredito que sim.

Se um filme já é algo construído e artificial, como é que poderíamos supor que um leão animado nos abalroasse desta forma? Tantas linhas e quase que consigo esquivar-me sem dizer as verdadeiras razões por detrás da adoração deste filme, e que levaram a que este fosse um dos primeiros seleccionados para esta Carta. O maior elogio que poderei fazer aos criadores desta obra, será quando a eleger como primeira coisa a espetar à frente de um filhote (lá está a proximidade a fazer das suas), quando este tiver idade suficiente para acompanhar as legendas. Esse estatuto, ninguém tirará a O Rei Leão.

Alvy Singer

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quarta-feira, fevereiro 06, 2008

30 - L.A. Confidential (Curtis Hanson, 1997).

Apesar de ter quase onze anos, L.A. Confidential (Curtis Hanson, 1997) continua a ser a resposta na ponta da língua, sempre que alguém opina dizendo que já não se fazem filmes como antigamente. No final do século XX, o filme de Curtis Hanson transpõe as linhas de uma mera longa-metragem para tornar-se numa justa homenagem ao cinema noir, chegando mesmo a elevar o estatuto dos seus pares. Mas, o melhor disto tudo, é que o filme não se limita a venerar e prestar tributo a obras de Howard Hawks, John Huston, ou Raoul Walsh. O filme pega na desfaçatez descrente dos anos 30, junta-lhe a arrogância triunfante dos anos 50, e polvilha ambas com o romantismo dos anos 90, como nunca havíamos visto antes. Pudera, precisávamos de chegar aos nineties para a equação ficar completa.

Baseado no best-seller de James Ellroy, a história explora o lado mais negro da polícia de Los Angeles, quando Hollywood era ainda uma cidade adolescente, mas vista já como a capital do mundo sofisticado e elegante. No centro da agitação estão três polícias: Jack Vincennes (Kevin Spacey), um oficial da lei com um fraquinho pela representação, que dá a conhecer casos resolvidos à série Badge of Honor, a troco de dinheiro; Bud White (Russell Crowe), o anti-herói que não receia dobrar a lei para a fazer cumprir, e Ed Exley (Guy Pearce) um jovem tenente que tenta a todo o custo sair da sombra do seu pai, um lendário polícia da cidade. Kim Basinger (Lynn Bracken), naquele que será o melhor desempenho da sua carreira, Danny DeVito (Sid Hudgens), James Cromwell (Dudley Smith) e David Strathairn (Pierce Patchett), constituem o conjunto mais luxuoso de secundários que um título pode ter.

Um massacre no estabelecimento Night Owl, logo no início do filme, será o ponto de partida para a limpeza das ruas. Hanson nem nos dá tempo para preparar. Os pormenores são-nos atirados a cara assim que a história começa a desenrolar-se. Prostitutas que se parecem com estrelas de cinema, estrelas de cinema que se confundem com prostitutas, detectives que encontram pistas nos locais mais improváveis, uma revista que vende tudo e mais alguma, sempre no limiar do politicamente correcto, inocentes que são culpados, e culpados que não passam de fantoches nas mãos de presumíveis inocentes, L.A Confidential ainda arranja tempo para falar de sonhos, da busca do amor verdadeiro, e da ética e moral decadentes de uma sociedade apodrecida e corrupta. Até à chegada do filme, pelo qual esperamos serenamente, que mereça ser comparado com este, L.A Confidential continuará a ser o último grande fôlego do género. Chamemos-lhe neo-noir, se quisermos. Para todos os efeitos, o trabalho de Hanson será a referência para aqueles que se seguirão. Assim como o foram Chinatown (Roman Polanski, 1974) e À Beira do Abismo (Howard Hawks, 1946). Aqui fica o trailer do filme.

Alvy Singer

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quarta-feira, janeiro 30, 2008

A Carta e afins.

Dava o verão de 2007 os seus primeiros passos quando este post suscitou uma referência no Cinema Notebook. Essa referência, acompanhada de uma sugestão neste blog, deu lugar a esta ideia que originou um outro post. Pois bem, a data avançada para isto começar era 01 de Setembro e, olhando de relance para o calendário, diria que estamos à vontade para dar início àquilo que poderá ficar para a História como a Carta do Cinéfilo. Depois de esfolar metade da massa cinzenta a seleccionar as obras, durante meio ano, e outra metade à procura de justificações para cada uma – como comprova a imagem no topo deste post –, estamos em crer que poderemos finalmente apresentar esta lista com trinta filmes, que facilmente poderiam ser outros trinta. Aliás, esta será a melhor maneira de olhar para estas coisas. Será sempre mais vantajoso ver isto como um divertimento, do que como algo definitivo que nos leva a perguntar “Mas quem é que este tipo julga que é para dizer que este é o melhor filme de sempre e aquele não?”. Se há coisa que isto não é, é definitivo. Bastava a lista ser feita na próxima semana e, caso o humor variasse dez graus à direita, daríamos a conhecer outros títulos. O único que esteve sempre certo desde o início será o último a ser apresentado. Ainda esta semana será dado o pontapé de saída.

Outra lista que começará esta semana, pelo menos nas nossas previsões, também prometida há já bastante tempo, é a dos 20 Filmes de 2008. Atenção, não são Os 20 Filmes de 2008. Esses, ainda não sabemos quais são. Só quando os estúdios anunciarem aqueles que terão datas de estreia lá mais para o final do ano é que poderemos centrar atenções nos caçadores de prémios. Estes primeiros vinte serão, assim, aqueles que temos a certeza de que estrearão este ano e que estamos com uma vontade danada de ver. Encontrar um que não seja blockbuster será mais difícil do que encontrar uma agulha em casa de ferreiro. Esperem, não é este.

Ainda antes de terminar, e porque este texto tem sido exclusivo ao blog, mais duas notas apenas. Ausente durante algum tempo, regressou recentemente a coluna com a Pergunta do Dia. Nos últimos tempos tem sido somente da Semana. No entanto, e porque isto tinha mais piada se mudasse diariamente, seria melhor chegar ao blog e depararmo-nos com uma questão nova todas as manhãs. Caramba, se até o IMDB, que deve ter uma equipa maior do que a NASA, está aberto a sugestões, nós também estamos. Não é fácil lembrarmo-nos de uma pergunta todos os dia. A partir de amanhã, tentaremos. Ainda assim, se alguém quiser saber a opinião dos leitores do Deuxieme sobre qualquer assunto, basta enviar a sugestão, e nós agradecemos. E, aqui surge o segundo ponto. Estas sugestões podem ser enviadas para o mail do blog. Contamos ter aqui a referência do mesmo dentro em breve. Até lá, fica o endereço: deuxieme.blog@gmail.com.

Alvy Singer

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quinta-feira, agosto 16, 2007

A Carta.

A ideia surgiu hoje. Após a sugestão do Marco neste blog, no post sobre o beijo fictício de Casablanca, e da referência do Knoxville no seu espaço, esta foi a derivação a que cheguei. O Marco falou em lista e o Knoxville em aulas de código. Juntando estes dois pensamentos, mais os comentários registados no cinemanotebook, nasce uma ideia que nada tem de original, mas que pode vir a ser um sério objecto de estudo.

Serão 30 os filmes, tantos quantas são as aulas de código. Não serão os 30 melhores filmes de sempre. Serão apenas trinta obras que pretendem focar diferentes registos, diferentes intérpretes, diferentes autores, diferentes épocas e diferentes realizadores. Não existirá qualquer ordem. Será puramente aleatório. A existir ordem será provavelmente decrescente. É porque isto não será tarefa fácil e os mais duvidosos se calhar irão ficando para o fim.

De qualquer modo, só começamos a tirar a carta a partir de 01 de Setembro. Até sábado, o mais tardar, estará concluída a lista dos 20 Beijos Inesquecíveis do Cinema. Depois disso, então, começarei a bater com a cabeça nas paredes a pensar nisto. Interessante era fazermos um exame com trinta questões no final disto tudo…

Alguém tem sugestões para os temas a leccionar nas aulas?

Alvy Singer

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