Quando este concept art para o primeiro poster de Invictus surgiu, o nome do projecto ainda era o provisório The Human Factor. Ainda assim, se o objectivo era ficarmos com uma ideia do que podemos esperar do primeiro cartão-de-visita do próximo título de Clint Eastwood, prova superada. Ao mesmo tempo, a Variety veio dizer no final da semana passada que o filme estreará nos Estados Unidos a 11 de Dezembro. O dia em que também está previsto chegar às salas The Lovely Bones, de Peter Jackson. Possivelmente, o primeiro round de um duelo que poderá terminar apenas lá para Março do próximo ano.
Já há algum tempo que deixou de ser segredo a nossa adoração em relação aos Oscars. Este não é um espaço que se pretenda inteiramente dedicado aos prémios da Academia de Hollywood, contudo, não escondemos que é em torno deste evento que gira a maioria dos nossos posts. Seja na antecipação, na avaliação de potenciais candidatos, no descortinar dos primeiros favoritos, no seguir de perto a corrida desde o tiro de partida, no acompanhamento da propaganda feroz, até à chegada do grande dia – que para o ano será no primeiro domingo de Março. O que nos traz aqui neste fim de tarde de quinta-feira é precisamente um dos muitos pontos de interrogação para a próxima temporada de prémios. A par de Amelia, Nine, The Lovely Bones e Shutter Island, este é um dos maiores pesos pesados a ter em consideração. E, até ontem, não sabíamos muito bem como lhe chamar – contudo, já nos começávamos a afeiçoar a The Human Factor. Hoje, segundo o InContention, o filme de Clint Eastwood ganha nome. Parece que é oficial, e podemos mesmo começar a tratar a película por Invictus. Este é o título de um poema escrito em 1875 por William Earnest Henley, e que serviu de fonte de inspiração ao activista e líder politico sul-africano, Nelson Mandela. Como o próprio atestou numa entrevista em 2007 à Reader’ Digest:
“RD: When you were in prison all those long years on Robben Island and elsewhere, was there something that came back to you, something you had either in your mind, a message or passage from a book, a song, something that helped sustain you and keep up your spirits?
Mandela: There was a poem by an English poet, W.E. Henley, called “Invictus.” The last lines go: “It matters not how straight the gate, How charged with punishments the scroll, I am the master of my fate: I am the captain of my soul”.
Neste ponto, convém relembrar que a obra de Eastwood não é tanto um biopic de Mandela, mas mais um recordar do primeiro mandato do presidente, após a queda do apartheid, e durante a preparação para o Mundial de Rugby de 1995, entendido como uma oportunidade para unir o país. A título de curiosidade, aqui fica o poema de William Earnest Henley.
Out of the night that covers me, Black as the pit from pole to pole, I thank whatever gods may be For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance I have not winced nor cried aloud, Under the bludgeonings of chance My head is bloody, but unbow’d.
Beyond this place of wrath and tears Looms but the horror of the shade, And yet the menace of the years Finds, and shall find me, unafraid.
It matters not how strait the gate, How charged with punishments the scroll, I am the master of my fate: I am the captain of my soul.
Ainda não falámos aqui de A Troca, e devia-nos ser cobrado um imposto qualquer por isso. É tempo de rectificar esta falha, sobretudo, antes que o acordo ortográfico se encarregue de retirar o cê de rectificar e passemos a ter de retificar esta falha. Em qualquer dos casos, não deixa de ser uma falha que urge ser resolvida. Será hoje.
No dia da inauguração, o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez questão de ter gente com pontos de vista diferentes a discursar. Ora, acreditamos que tal decisão terá ficado a dever-se ao enriquecimento que advém de estarmos e falarmos com pessoas que não partilham a nossa opinião. E, por esta altura, poucas coisas seriam tão enriquecedoras como juntar cinco ou seis críticos aqui da redacção, e promover uma discussão sobre o mais recente filme de Clint Eastwood. Quem tiver uma Premiere em casa, poderá atestar que houve para todos os gostos. Houve quem lhe desse uma estrela – o Jorge Pinto, escriba da radiosa secção Cinema Chuga –, duas, três, quatro e cinco – distinção promovida pelo Francisco Toscano Silva. Um filme provocar reacções tão díspares é sempre motivo para alguma celeuma. Tratando-se de uma obra de Eastwood, as reflexões tornam-se ainda mais profundas.
A premissa de A Troca parece relativamente simples. Uma mãe que perde subitamente um filho, e tudo continua a fazer para recuperá-lo, mesmo depois de a polícia de Los Angeles garantir que o rapaz encontrado é seu. No entanto, Eastwood recusa a ficar-se estritamente pelo relato da tragédia que abalou a família Collins. Antes, prefere derrubar mitos que servem de alicerce a uma sociedade americana cristalina e exemplar. Este é mais um exemplo dos filmes que nos vão às entranhas, e não descansam enquanto não deixam tudo revirado. Algumas sequências de A Troca fazem lembrar o que de mais perturbador pode ter o Cinema clássico, à imagem das sombras omnipresentes em obras como Sunset Blvd. (Billy Wilder, 1950) ou Mildred Pierce (Michael Curtiz, 1945). O argumento de J. Michael Straczynski nem sempre se confina às linhas delimitadoras do género dramático, pisando inúmeras vezes terreno alheio, chegando a mergulhar num horror por vezes angustiante, que Eastwood também visitou com Sean Penn em Mystic River. Angelina Jolie oferece-nos um desempenho irrepreensível. E, neste ponto, convém dizer que não entramos nesses comboios que defendem que Jolie tem um esforço suplementar, por ter de contrariar aqueles que acham que a sua carreira se deve a atributos físicos. Não nos esqueçamos que Jolie já conta com um Oscar na carteira. Julian Moore, Kate Winslet, Laura Linney, Natalie Portman, Emily Watson, Joan Allen, não. Não acreditamos que haja aqui qualquer tarefa para além da representação. E, nesse capítulo, o que Jolie fez foi absolutamente espantoso. Bem como John Malkovich, que não se via num registo destes há alguns anos. Quando abre aqueles olhos é o silêncio na sala de Cinema. Posto isto, em que ponto ficaríamos na discussão sobre A Troca? Naquele bastante confortável, que resulta de duas horas e meia após um óptimo filme.
O filme tem recebido buzz que o coloca como forte candidato a uma nomeação ao Oscar de Melhor Actriz, e pouco mais. Agora, é um Eastwood, caramba. E, ainda ontem, um colega de redacção que percebe como ninguém destas coisas do Cinema, e em cuja palavra acredito, afirmou que este se trata de um dos melhores cinco filmes realizados por Clint Eastwood. Ora, não é preciso dizer mais nada. De amanhã não passa.
A crítica do The Huffington Post não podia ser mais elogiosa para com a interpretação de Clint Eastwood, em Gran Torino. As palavras de Michael Russnow não deixam margem para dúvidas, e colocam Eastwood como um dos mais fortes candidatos ao Oscar de Melhor Actor.
“Eastwood’s voice is not suddenly full of fire. It is equipped with an old man’s crackle and doesn’t often shift no matter the emotion of the moment. But in this story by Dave Johansson and Nick Schenk and with the spare and pointed dialogue in Nick Schenk’s screenplay, and with those ever haunting eyes that always made you believe Eastwood would kill you as Dirty Harry, it all comes together and works. Perhaps only for this film in this wonderful manner, but no matter because it’s a superb achievement (…) John Wayne found True Grit towards the end of his career and now Clint Eastwood has done the same with an unforgettable performance in Gran Torino, a film that is so simple in its telling that it almost slips by how powerful it really is”.
Aliás, Russnow não é o único. Vários têm sido os superlativos utilizados pelos mais diversos críticos norte-americanos para descrever o desempenho de Eastwood. Dave Karger e Patrick Goldstein já o fizeram – a heartfelt portrait of human redemption e couldn’t (be) a nicer swan song, são apenas algumas das gentilezas que se podem ler sobre o desempenho de Eastwood. Algumas vozes que pretendem apenas causar distúrbios, levantam a questão da Academia premiar o actor, não somente por este papel, mas como o reconhecimento de toda uma carreira de representação. Já com quatro Oscar no bolso – dois como realizador, dois como produtor –, custa aceitar que Eastwood entre na categoria dos a laurear por dividendos em atraso. Até porque, contrariamente ao que se faz passar, raramente os Oscar são um espaço de recompensa. Pelo menos, a este nível. Na categoria de Melhor Actor, apenas quatro casos podem ser colocados neste saco. E, mesmo aí, encontramos sempre justificações plausíveis para o triunfo.
Para John Wayne, valeu o ditado. Aos 63 anos, à terceira foi de vez. Depois de duas nomeações, o eterno cowboy levou o Oscar para casa pelo seu trabalho em A Velha Raposa (Henry Hathaway, 1969). Para Peter Finch, foi apenas uma nomeação antes da consagração com Network – Escândalo na Televisão (Sidney Lumet, 1976). É o único vencedor a título póstumo. Já Henry Fonda foi algo semelhante a Wayne. À terceira foi de vez. No entanto, quarenta e um anos separaram a primeira e a última nomeação. A Casa do Lago (Mark Rydell, 1982) foi o filme que valeu o Oscar – atribuído após um primeiro honorário, atribuído um ano antes. Em 1986, o mesmo aconteceu com Paul Newman. Depois de ter recebido um Oscar honorário em 1985, a recuperação do seu Fast Eddie em A Cor do Dinheiro (Martin Scorsese), traduziu-se no Oscar que lhe havia escapado anteriormente por sete vezes. Depois da vitória, ainda havia de receber mais duas nomeações.
Com duas nomeações no currículo para a categoria de Melhor Actor, quem sabe se para Eastwood não funcionará também a máxima de à terceira ser de vez? Com a temporada de prémios a aquecer, ainda estamos para ver se existe um candidato que se destaque dos demais. À partida, parece tudo muito repartido, o que deixa boas perspectivas para Eastwood. A título de curiosidade, aqui fica a canção original do filme, avançada também como potencial candidata a um Oscar, assinada por Kyle Eastwood, Clint Eastwood, Michael Stevens e Jamie Cullum.
Sobre o novo poster de Gran Torino não há muito que dizer. Uma silhueta. O rosto de Clint Eastwood. Pouco mais. Mas, verdade seja dita, não é o poster que nos move. Com o nome de Eastwood, qualquer coisa vai bem. Nos quatro últimos filmes atrás das câmaras, Eastwood recebeu três nomeações para Melhor Realizador. Este ano, se o vento estiver de feição, pode fazer a bela soma de cinco em seis.
Em 2004, numa cerimónia apresentada por Chris Rock, Million Dollar Baby arrecadou quatro Oscares da Academia, e Clint Eastwood foi a estrela da noite. No ano seguinte, Dirty Harry ficou em casa, e Jon Stewart estreava-se na apresentação do certamente, na consagração de Paul Haggis. Em 2006, a face do Daily Show foi preterida em detrimento de Ellen DeGeneres, e Eastwood lá voltava às lides do tio Oscar, com o seu belíssimo Cartas de Iwo Jima. Já este ano, enquanto Eastwood repousava, lá regressava Jon Stewart como anfitrião, na vitória dos Coen. Isto tudo para constatar o simples facto de que os dois nunca se cruzaram nos corredores do Kodak Theater. Pode ser que graças a Changeling, ou mesmo por Gran Torino – fala-se na real possibilidade de Eastwood vir a ser um dos nomeados na categoria de Melhor Actor –, e caso Stewart volte a ser o escolhido, isto se altere este ano. Daqui por uns meses, quem sabe se esta entrevista não estará na origem de um dejá vu?
Quando ainda aguardamos pela data de estreia de The Changeling, já nos perguntamos para quando estará marcada a chegada de Gran Torino. É o efeito Eastwood, na sua plenitude. Relativamente ao último título, duas notas importantes sobre o trailer. Primeiro, caso fosse habitante de Gotham City, a avaliar pela voz, Eastwood seria o primeiro a ser levado para a esquadra para lhe perguntarem se não era o homem por detrás do fato de morcego. Segundo, que existe mesmo qualquer coisa de harmonioso quando Eastwood pega numa arma de fogo. Como se tivessem sido criados um para o outro. Haverá seguramente duos mais pacíficos, mas este é do mais belo que há.
Heróis precisam-se. De carne e osso, de preferência, e que já tenham passado pelo grande ecrã, se possível. A História continua a ser marcada pelos regressos, e, a falta de originalidade para criar novos personagens – Bourne continua a ser excepção que confirma a regra –, aliada aos aplausos que se fazem ouvir sempre que aquele justiceiro adorado pelas massas é repescado, fazem com que muitas vezes esta seja a melhor solução. Ir buscar alguém ao passado jamais deve ser considerado desespero. Ou deve? Depende do caso.
Hoje, o site Screen Daily afirma que o Nu Boyana Studios, em Sófia, na Bulgária, está a construir dez plateaux para diversos filmes. Ao que parece, o primeiro projecto a utilizar os novos espaços será o próximo filme de John Rambo. Depois de ter dito que o quarto seria o último e derradeiro filme da saga, Sylvester Stallone já veio dizer que Rambo 5 é uma forte possibilidade, até porque anda com ideias de experimentar coisas novas para o veterano de guerra. Sem entrar em pormenores, este é daqueles comentários que serve mais para espicaçar os fãs, e ver como é que param as águas, do que outra coisa qualquer. A verdade é que a coisa resultou e a maioria manifestou o seu agrado perante a ideia do regresso de Rambo – algo que já não se passou quando surgiram os primeiros rumores de Cliffhanger 2: The Dam. Harvey Weinstein foi mesmo um dos primeiros a declarar o seu entusiasmo, sugerindo até que Rambo regressasse à América. Não sabemos até que ponto estas filmagens na Europa colocam esse cenário de parte, contudo, assim, parece-nos pouco provável.
Outro que também parece estar de volta é Jack Ryan, o agente da CIA criado por Tom Clancy. Depois de já termos visto Ryan ser interpretado por Alec Baldwin (Caça ao Outubro Vermelho, 1990), Harrison Ford (Jogos de Poder, 1992; Perigo Imediato, 1994) e Ben Affleck (A Soma de Todos os Medos, 2002), fala-se agora de uma série de novos filmes com a personagem, realizados por Sam Raimi. O primeiro projecto tem estreia prevista para 2010. No entanto, levantam-se aqui duas questões. A primeira, o facto de Clancy estar a ultimar o seu mais recente livro com Jack Ryan. Como a Paramount ainda não teve acesso à obra, por esta altura é impossível dizer se o primeiro filme desta nova série será baseado, ou não, no livro. O segundo problema, que não será que não resolva a bem, prende-se com as alterações que Raimi pretende introduzir, nomeadamente no ponto da carreira em que Ryan se encontra. Segundo a Variety:
“The intention is to generate several films Raimi would develop and direct, featuring Ryan at a younger, more formative point in his career than previously depicted. One invention the studio is considering is to set the film in the present, with the action triggered by a global threat”.
Ora, se para quem se habituou a ver um Jack Ryan com alguma dose de reumatismo, já foi difícil aceitar a escolha de Ben Affleck, com este aviso, ficamos à espera do pior. Compreendemos estas decisões de apelar a um público mais jovem, agora, se alguém disser Shia LaBeouf, garanto que compro uma passagem de avião para dar uma palavrinha a Sam Raimi.
Fora isto, parece que está na calha o regresso do maior badass de todos os tempos. Porque não podemos escrever muitas linhas sobre este assunto, devido a consequentes complicações de arritmia, é favor visitar o distinto espaço de seu nome Cinema Notebook.
Estes projectos é que são bons. Quando ainda nos lembramos do passado, e sabemos que certas reuniões já deram frutos. Da última vez que Clint Eastwood e Matt Damon trabalharam juntos… Esperem, eles nunca trabalharam juntos. Da última vez que Matt Damon e Morgan Freeman trabalharam juntos…. Não, também não foram estes dois. Da última vez que Clint Eastwood e Morgan Freeman trabalharam juntos (agora sim!), a coisa correu bem, muitíssimo bem. Dois Óscares para Eastwood, um outro para Freeman, e um filme para a eternidade.
Ao que tudo indica, a fórmula de sucesso repetir-se-á em The Human Factor, um drama sobre o Campeonato do Mundo de Rugby de 1995 na África do Sul, e da sua importância num mundo pós-apartheid. Se, por si só, isto já é material para nos levar a esfregar as mãos de contentamento, saber que Matt Damon poderá ser parte integrante deste projecto, torna tudo ainda mais aliciante. O argumento, esse, já foi escrito e adaptado por Anthony Peckham (Don’t Say a Word). Garantida mesmo, para já, só está a presença de Morgan Freeman, como Nelson Mandela. Eastwood e Damon são meras possibilidades. Que se concretizem, caneco, que se concretizem.