A grande vantagem de escrever uma espécie de crítica, quase dois meses depois de o filme ter estreado, é que, por maiores que sejam as barbaridades, dificilmente incorreremos no risco de espantar alguém. Por duas ordens de razões. A primeira, porque já quase tudo foi dito sobre o filme e, seja aquilo que for que tenhamos para pôr em palavras, o mais provável é não acrescentar nada de relevante. Isto é positivo na medida em que, se dissermos que gostámos do filme, a amostra da população que não gostou vai recordar aquele primeiro idiota que disse que a obra tinha algum valor. O que faz da nossa opinião, apenas mais uma. Isto também funciona para o inverso, isto é, caso não tenhamos achado o filme nada de jeito, e a amostra da população que gostou recordar o primeiro pateta a reconhecer que não percebeu a mensagem. De ambas as maneiras, a nossa discordância passa despercebida. A segunda razão é que a maioria das pessoas já não se lembra sequer do filme. Neste grupo não estão incluídos, obviamente, os cinéfilos certificados, detentores de uma memória cinematográfica com um alcance superior a dois séculos. Pena não haver maneira de o comprovar.
Tudo isto para dizer que, nem tudo foi mau naquelas duas semanas sem computador. Não que escrever para o Deuxieme seja uma obrigação, e que este agradável hobby se tenha tornado numa barreira para outros divertimentos. No entanto, a verdade é que, durante quinze dias, o tempo livre foi maior. Sem fonte de escrita, nada melhor do que arranjar matéria para escrever. Foi, assim, que decidi ver finalmente Nome de Código: Cloverfield (Matt Reeves), na última sala ainda disponível no distrito de Lisboa, em pleno Centro Comercial Colombo, com direito apenas à sessão da meia-noite. Num espaço que devia dar para cem espectadores, éramos cerca de vinte a trinta cinéfilos preguiçosos, que decidiram adiar até mais não o visionamento deste filme. Uns com pipocas, outros sem, uns mais novos, outros nem tanto, todos à espera de ver o que raio é que fez a cabeça da Estátua da Liberdade rolar pelas ruas de Nova Iorque.
Não sei se acontecerá o mesmo com os leitores deste blog, no entanto, confesso gostar de ficar sentado após o fim da obra, não só para confirmar que não existe uma cena esquecida no final dos créditos, como também para ver a reacção das pessoas, ao sair. Já tive oportunidade de dizer aqui que partilho a opinião de que cusquice, mais não é do que curiosidade cientifica. E, isto de ficar a ver se as pessoas saem com um sorriso nos lábios, com um olhar fulminante para o companheiro do lado, se ficam abraçadas a ver os créditos, se saem a rir-se de quão mau o filme foi, ou se vão andando descoordenadamente boquiabertos para a saída, é uma espécie de sondagem à boca das urnas. É o tentar saber o maior número de opiniões, no mais curto espaço de tempo possível. Em Cloverfield, não me recordo de ninguém ter ficado abraçado a ver os créditos finais. Contudo, lembro-me bem de umas quantas pessoas sairem surpresas, sem proferir uma única palavra. Acredito que tenha sido mais ou menos assim que também abandonei a sala.
Reconheço que, ao entrar, o espírito não podia ser mais aberto. Após largos meses de marketing, o fascínio em torno de Cloverfield tinha-se esfumado, resultado da promoção desgastante de J.J. Abrams e companhia. O pensamento era mais Vamos lá a ver se o que eles vendem é assim tão bom como publicitam. Ora, quem vai assim para um filme, não pode estar à espera de grande coisa. O problema é quando aquilo vai tirando coelhos da cartola, e surpreendendo a cada minuto. No final, damos por nós e estamos com um maço de notas na mão, como aqueles figurantes no televendas, a dizer Eu compro! Eu compro!. Se fosse hoje, não esperava dois meses para ver o filme.
Em Cloverfield, o primeiro sinal de que o trabalho deu frutos surge quando procuramos uma posição mais confortável na cadeira, como que a tentarmos também fugir daquele ambiente catastrófico, depois de uma noite que tinha tudo para ser de festa. Desde o inicio, parece-nos normal que a câmara nunca seja fixa. Impõe-se que haja um melhor amigo para documentar a partida, e, dados os terríveis acontecimentos, é compreensível que alguém queira deixar provas físicas. O toque de génio surge, no entanto, na subtil história de amor que percorre o filme, visível a cada rebobinar da cassete utilizada para gravar o ataque à claustrofóbica Nova Iorque. Não fosse isso, e talvez Cloverfield não passasse de um novo Projecto Blair Witch com mais orçamento para efeitos especiais. Sobre o monstro, discordo daqueles que afirmam existir pouca informação. Aliás, resta-nos saber que o bicho é capaz de destruir tudo à sua volta. Tendo conhecimento deste facto, o resto parece algo irrelevante. No final, uns poderão achar que o filme é um interessante exorcismo aos ataques terroristas, enquanto outros poderão considerar um desperdício ver tanto dinheiro gasto em pirotecnia em detrimento de cinema. Para Alvy Singer, esta foi a melhor hora e meia numa sala de cinema, sem ter de pensar muito, desde Superbad.
A iniciar esta semana repleta de boas estreias, começo pelo polémico Nome de Código: Cloverfield. Este filme é um exemplo fantástico da força do marketing do cinema (cultivado pela pouca informação que o site dispunha, o que lançou uma curiosidade insaciável no público e despertou uma procura enorme na Internet), feita, refira-se antes de mais, com uma coerência e qualidade reais (em oposição, por exemplo, ao medíocre O Projecto Blair Witch). Sobre o olhar atento de J.J. Abrams (A Vingadora, Perdidos, M:I:3) que deu a cara pelo filme e se sentou comodamente na cadeira da produção, o realizador Matt Reeves (que veio do mundo da TV, tal como Abrams) concebe uma obra distinta a vários níveis, e que nos dá que pensar sobre o cinema e o seu futuro.
A acção passa-se em Nova Iorque, mais propriamente Manhattan, e mostra-nos uma história de amor com pontas soltas, que se encadeia num grupo de pessoas que festeja alegremente uma despedida de um amigo comum, que vai partir para o Estrangeiro em trabalho. Entre as primeiras impressões dos protagonistas (onde a maioria dos actores são desconhecidos, exceptuando os casos de Jessica Lucas, Lizzy Caplan e Mike Vogel) e um início de construção narrativa coerente, o grupo é apanhado de surpresa numa tragédia que aparenta ser de causas naturais, mas que se vai revelar um verdadeiro pesadelo de natureza surreal, onde todos vão lutar pela sua sobrevivência, em busca de respostas para o que se está a suceder.
Filmado com uma câmara de vídeo (que, surpreendentemente, não cansa visualmente o espectador um único minuto), o filme é-nos mostrado pelas pessoas da festa, que gravam tudo durante o seu infernal percurso pela cidade – e é sobre esse dispositivo de documentário/filme que nos é apresentada esta obra vibrante, que nos dá conta de uma arrojada realização e montagem, bem como uma clara noção dramática e de suspense tão bem medida e perfeitamente distribuída pelos curtos 75 minutos do filme. São vários os géneros incluídos nesta obra, que fazem dela um objecto de cinema original, onde o seu misticismo (e o final), pendurados sobre a questão da problematização do “propósito de tudo ter acontecido”, recordam, inevitavelmente, a obra-prima Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock.
4/5 - Bom
THE DARJEELING LIMITED
Seguimos para outro tipo de drama, com The Darjeeling Limited, a última obra de Wes Anderson. Este fabuloso filme encerra a uma trilogia familiar, iniciada pelo realizador, em 2001, com The Royal Tenembaums – Uma Comédia Genial, seguida, em 2004, com The Life Aquatic with Steve Zissou – Um Peixe Fora d'Água. Se no primeiro caso temos um pai, cuja ausência e descuido deixara marcas irremediáveis nos seus filhos, à procura da sua redenção, no segundo caso vemos um filho tentar conquistar um pai que nunca teve, movido pela paixão comum da exploração da vida debaixo do mar; o pai acaba por encontrar na sua recente função paternal uma via para se auto-descobrir.
Para completar este mosaico, chega-nos agora a inesperada aventura dos irmãos Whitman (Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman) que iniciam uma viagem espiritual para a Índia, em busca de respostas interiores para os seus conflitos pessoais, onde a ausente cumplicidade entre irmãos, a fria independência da mãe e a morte do pai funcionam como os vectores determinantes. Mas, por entre o choque das relações entre eles, alimentadas pela mais variada colecção de comprimidos e outras substâncias que tomam sem controlo, surge um laço que os vai unir numa situação única, e que mudará o curso da viagem, bem como a sua intenção inicialmente prevista.
Com o seu estilo narrativo muito próprio, Wes Anderson cria em Darjeeling um momento de grande cinema, enquanto fiel retrato das emoções humanas inerentes ao conceito familiar e ao contacto com outras culturas, neste caso específico. Uma vez mais, Wes reafirma o fantástico realizador e contador de histórias que é, sobre uma visão estética muito peculiar e específica, a que já nos habitou nos seus títulos anteriores, e dirige três grandes actores no encanto quase musical, repleto das mais absurdas e cómicas situações que se intercalam com momentos de felicidade e tristeza, tal como a própria vida. De notar o feito que a distribuidora Castello Lopes conseguiu, ao incluir antes do filme, a curta-metragem Hotel Chevalier, também de Wes Anderson, com Jason Schwartzman e Natalie Portman (a grande surpresa surge com as suas cenas de nudez, “vestidas” de uma naturalidade incrível); um pequeno doce que nos liga directamente ao início do filme, e que nos acompanha ao longo do mesmo. É imperdível.
5/5 – Magnífico
O COMBOIO DAS 3 E 10
De seguida, damos um saltinho ao Oeste. James Mangold (Copland, Walk the Line) realiza O Comboio das 3 e 10, um delicioso regresso ao género tão nobre que é o Western. Com as bases bem assentes do filme original (realizado por Delmer Davies em 1957, com Glenn Ford e Van Heflin nos principais papéis), este é um exemplo de uma boa conjugação de influências, que nos enche durante duas horas.
Em linhas gerais, O Comboio das 3 e 10 conta a história de Dan Evans, um pobre rancheiro debilitado (Christian Bale) que se vê forçado a integrar numa missão arriscada para salvar a sua família do desespero financeiro e moral: Evans tem de transportar, em segurança, o pistoleiro criminoso Ben Wade (Russel Crowe) até ao comboio das 3 e 10, que o levará para a prisão de Yuma para ser julgado. Para além das suas debilitações e de um grupo cobarde que o acompanha neste perigosa missão, Evans vê-se ainda ameaçado pelo grupo de forasteiros que perseguem o seu rasto para libertar Wade, o seu destemido líder. Durante uma noite inteira e até ao começo da tarde, desenvolve-se entre Evans e Wade uma estranha cumplicidade, que vai ditar as acções de cada um; herói e vilão vêem-se encurralados num futuro já determinado.
Do início ao fim do filme, a acção é garantida e filmada com um pulso seguro, tal como o argumento é competente. À rica visão de Mangold junta-se a sua notória direcção artística, que faz de Christian Bale e de Russel Crowe um par de interpretações de grande nível. Temos aqui um interessante exemplo de Western, ainda que não exista uma dimensão humana de valores maiores, e por isso o filme não é capaz de nos devolver algo outrora proveniente de mestres como Ford, Hawks, Leone ou até Clint Eastwood. E como tal, sente-se que se podia ter feito mais, seja com as personagens, seja com o argumento, seja até a nível visual – falta uma existência de uma visão mais vincada de estética e força da história. No entanto, estão asseguradas emoções fortes e duas horas de excelente entretenimento.
3/5 – Razoável
BANQUETE DO AMOR
De regresso à actualidade, somos brindados com um drama ímpar. Banquete do Amor é o mais recente filme do competente realizador Robert Benton (Kramer contra Kramer, Vidas Simples, Culpa Humana). Neste singular filme dedicado ao amor e às suas mais belas e tristes formas de vida criadas e vividas pelas pessoas, Benton constrói uma obra deliciosa de fantasia e, em simultâneo, com uma carga muito real à qual não se pode fugir.
Na serena comunidade de Oregon surgem inúmeras histórias entre os seus habitantes, onde o amor encarna o papel principal. Sem olhar a idades, formas ou sexos, ele funciona como matriz principal da vida. Tudo isto é testemunhado por Harry Stevenson (o sempre fabuloso Morgan Freeman), um professor que se retirou das suas funções devido a um passado doloroso, que partilha com a sua mulher (Jane Alexander). Harry funciona como uma ferramenta preciosa na vida dos seus amigos e conhecidos, onde se encontra o seu amigo Bradley Thomas (Greg Kinnear) com os seus casamentos falhados, a sua amiga Chloe (Alexa Davalos) e o seu namorado Oscar (Toby Hemingway), jovens recheados de incerteza e fragilidade, a quem se juntam mais pessoas que tomam lugares nas suas vidas e que as vão mudar para sempre.
Há muito que não se via um filme tão simples e complexo na mesma medida, onde o efeito especial é o factor humano. Benton cria um tratado sobre o amor, onde existe espaço para a celebração, a contemplação, a angústia, a tristeza e, ainda, a felicidade. Este é um caso obrigatório de se ver, para se aprender mais sobre o cinema de grande qualidade, sobre a vida e, inevitavelmente, sobre o amor.
Se alguém tiver memória de uma coisa deste género, por favor que partilhe connosco. Palavra de honra que não me recordo de tanto empenho no lançamento de um filme, como em Cloverfield (Matt Reeves). Há filmes em que a mínima informação chega para por toda a gente em alvoroço, foi disso exemplo O Projecto Blair Witch, e outros há em que é o próprio publico que se encarrega de fazer rolar a bola de neve montanha abaixo, como aconteceu com Serpentes a Bordo.
No filme de Matt Reeves, parece que estamos a presenciar um pouco destes dois fenómenos. Onde Cloverfield talvez se destaque mais é nas carradas de artigos e vídeos que vão inundando a Internet, todas as semanas. Será que já não é possível realizar um filme, marcar uma data de estreia, editar um trailer e esperar serenamente pelo dia em que o público corra em massa às salas de cinema?
Desde quanto é passámos a precisar de dez posters, cinco minutos de filmagens, três trailers, sete vídeos promocionais, três títulos provisórios e entrevistas que nunca mais acabam? É claro que isto é tudo muito giro e que aguça o apetite mas, caramba, tudo o que é demais…
A última do pessoal de J. J. Abrams é este conjunto de cinco vídeos, todos em torno da mesma coisa: a destruição da plataforma petrolífera Chuai, em pleno Oceano Atlântico. Um dos vídeos é em espanhol, outro em italiano, outro em alemão, um outro em francês, e o ultimo em inglês. Todos os vídeos são diferentes. O Slashfilm tem quatro destes vídeos (só lá falta o inglês) e a tradução do espanhol e alemão. Para ver o vídeo com as notícias de última hora na língua do Tio Sam, basta carregar na imagem seguinte.
Curioso é o artigo que a Variety publicou na passada sexta-feira sobre o legado de O Projecto Blair Witch, e estas técnicas utilizadas pelos estúdios para começar a provocar o medo junto do espectador, mesmo antes do filme chegar ao grande ecrã, fazendo tudo o que estiver ao seu alcance para tornar o enredo o mais real possível. Só esperamos é que este não seja mais um daqueles casos a estudar à posteriori, segundo aquela história que envolve uma qualquer montanha e um rato.
Tudo o que possa ser dito sobre Cloverfield, o próximo filme de J. J. Abrams, já o foi. Com efeito, não há muito a acrescentar àquilo que já todos sabemos. A tagline deste título bem poderia ser Uma Cidade, Um Monstro, O Pandemónio. Trailers com câmaras a abanar são yesterdays news. Por isso, talvez este clip de três minutos não seja uma novidade por aí além.
No entanto, quando a data de estreia deste filme se aproxima vertiginosamente, estamos em crer que estas imagens servirão, pelo menos, para dissipar as últimas duvidas que alguém possa ter quanto a ver este filme. Porque, das duas uma, ou este vídeo suscita curiosidade em saber o que raio é que anda a destruir Central Park ou, então, aquecemos um chocolate quente e ficamos em casa a ver Grey’s Anatomy. As duas opções são válidas.
Tentar descobrir o que é o monstro ou, pelo menos, o que é que provoca tanta destruição em Cloverfield, tem-se tornado numa obsessão maior do que aquela que era tentar descobrir a verdadeira identidade de Keyser Soze. A primeira coisa que ressalta à vista neste novo trailer do próximo projecto de J.J. Abrams é exactamente isso. É que há qualquer coisa que não ressalta à vista. Passado um bocado descobrimos o que é isso: O monstro. O que a gente quer é o monstro. O resto é paisagem, perdão, o resto é a paisagem que o monstro deixa à sua passagem.
O curioso disto tudo é que o filme até pode chegar primeiro do que Sweeney Todd, cuja estreia está marcada para daqui a dois meses.
(Para melhor compreensão desta última frase, é favor ler o post seguinte).