Bloody Great.
Poucos cineastas reúnem esta capacidade que Tim Burton manifesta de forma tão clara e evidente. A versatilidade de realizar, ao longo da sua carreira, filmes tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes. Daqui por cem anos, um miúdo muito franzino vai parar à frente de uma montra para apanhar a bola que chutou para o meio da rua. O pequeno, sem se aperceber, estará a dar os primeiros passos no mundo da cinefilia, e vai apanhar um filme de Tim Burton a passar num dos mais recentes aparelhos tecnológicos. Porque alguém a desesperar por regressar ao jogo grita o seu nome, o moçoilo vê apenas um minuto. No entanto, aqueles frames serão suficiente para o rapaz comprovar que o cunho do realizador de A Noiva Cadáver está por ali. Assim como quando ouvimos a guitarra de Brian May, e sabemos que aquela é uma música dos Queen, ou quando ouvimos os acordes iniciais da guitarra de Mark Knopfler, e sabemos que aquilo é Dire Straits, quando o plano sobrevoa uma cidade cinzenta, com o fumo das chaminés em pano de fundo, e o som de um órgão ecoa na sala, aquele não poderá ser um filme de mais ninguém a não ser de Tim Burton.
Sobre Sweeney Todd, não poderei dizer muito. O filme passou por mim a correr, como aquelas viagens que fazemos em petizes no Comboio Assombrado da Feira Popular. Era um susto dos diabos mas, aquilo sabia tão bem, que não demorava nada. Assim que saímos era a pergunta, Então, gostaste? Caramba, o sorriso nos lábios estava mesmo a dizer que sim. Agora, se me perguntarem porque é que gostei de Sweeney Todd, talvez tenha de encolher os ombros e dizer porque sim. Como quando acordamos após um daqueles sonhos malandros, mas não nos lembramos bem como foi. Só sabemos que soube bem.
Talvez seja por já estar formatado ao ambiente de Tim Burton, ou porque Johnny Depp tem uma interpretação de encher o olho. Talvez seja porque a direcção artística é tão cuidada que até arrepia, ou porque Alan Rickman nunca me deixou ficar mal. Talvez seja porque o banho de sangue é servido com uma delicadeza tal, que ficamos na dúvida qual o coração mais maltratado, se o de Benjamin Barker, se o dos outros pobre coitados que se sentam na cadeira para fazer a barba e, subitamente, se vêem no meio duma profícua linha de montagem em nome de uma boa empada. Talvez seja porque Johanna ganharia certamente o Oscar de Melhor Canção se tivesse sido escrita para o filme, ou por ver que Helena Bonham Carter está à altura do cortejo. Talvez seja pelo embalar do argumento de John Logan, que nos vai guiando com moderação e entusiasmo, ou pelo momento em que Johnny Depp rejubila com o facto do seu braço estar de novo completo com uma lâmina, quando nos lembramos como se fosse ontem, o dia em que vimos um filme de Tim Burton em que o que ele menos queria era ter um objecto cortante. Ou, talvez seja por aqueles dois minutos em que a mente de Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter) vagueia pela existência de uma vida à beira-mar. O delírio visual de Burton nessa sequência vale o bilhete de cinema. É a fantasia mais idílica entre os dois seres mais descoloridos da História, e daquelas coisas que leva um admirador inveterado de Tim Burton a sentir que é capaz de voar sem asas.
Perdoem-me o engrandecimento da obra mas, não tenho culpa. Eles que não fizessem filmes assim tão bons. Considerações especialistas sobre Sweeney Todd deixarei para aqueles que não gostaram do filme. Porque é que haverá sempre a tendência de resvalarmos para a racionalidade quando queremos simplesmente dizer que algo nos tocou profundamente? Das razões para gostar deste filme faço uma bola de papel, e meto-a no lixo. Se há algo que o trabalho de Tim Burton me ensinou, foi a deixar o mundo real à porta.
Alvy SingerEtiquetas: Alan Rickman, Helena Bonham Carter, Johnny Depp, Sweeney Todd, Tim Burton



