Deuxieme


quinta-feira, março 27, 2008

Estreias da Semana

NÃO ESTOU AÍ

O cinema é, como todas as artes, uma criação de risco. Por “risco” devo sublinhar todo o arrojo necessário que uma obra deve (ou devia) possuir para se elevar ou, no caso contrário, a falta do mesmo arrojo, que a condena a algo mediano ou mesmo medíocre. Estreia hoje, entre nós, um notável objecto cinematográfico, que nasce do desafio de um enorme risco artístico / pessoal / cultural. Não Estou Aí (I’m Not There no seu original) é o novíssimo filme de Todd Haynes, realizador de obras como Velvet Goldmine (fantástica incursão no mundo da perda de inocência, suspensa sobre o boom da cultura “glam-rock” dos anos 70) e Longe do Paraíso (uma revisitação surpreendente ao classicismo americano dos anos 50), e que se centra num dos maiores ícones da música e da América: o incontornável Bob Dylan.

Se o risco criativo da obra se apresenta já pela enorme complexidade da personagem e do seu peso e herança culturais, afirma-se de antemão que esta é a menor das questões. Haynes vai mais longe e dirige seis actores (Marcus Carl Franklin, Christian Bale, o recentemente falecido Heath Ledger, Cate Blanchett, Richard Gere e Ben Whishaw) no papel de Dylan, cada um representativo das múltiplas facetas deste lendário cantor e compositor, sejam elas de domínio público, privado e/ou fantasiado. Num espantoso mise en scène, Haynes desdobra Dylan no retrato único, onde realidade e fantasia se entrecruzam de forma brilhante, e confere-lhe um cunho biográfico alimentado tanto pela vida real de Dylan como pela sua imagem e histórias a si subjacentes, onde o mito popular e a iconografia se misturam com a veracidade de um homem de capacidades e maneiras tão exuberantes quanto extraordinárias.

Bob Dylan, poeta de intervenção que marcou gerações desde o início dos anos 60 até a actualidade, surge-nos através dos seus amigos (Joan Baez – famosa cantora - discretamente interpretada por Julianne Moore), dos seus fãs (equilibrados entre os que o contestam e os que o veneram), das mulheres da sua vida (onde Charlotte Gainsbourg brilha na pela de Claire) e sobretudo, pelo olhar de um país em plena (e constante) transformação: a América do Vietname, pós Geração Beat, adepta dos Blues, Jazz, do Rock e do Folk (onde Dylan se notabilizou primeiramente), onde o descrédito do poder político se aliava a problemas sociais como o racismo, a droga e a guerra.

Com um enorme poder e sensibilidade artística, Haynes leva-nos para uma viagem inesquecível às mais variadas facetas de um homem único, que travou lutas com a sua própria criação intelectual e o seu compromisso pessoal nas relações humanas que estabeleceu, minadas por um desejo de reclusão constante, de receios e de incompreensão. Oscilando entre um preto e branco magistral e uma cor tão resplandecente como a sua música, Haynes desdobra Dylan em seis corpos diferentes, numa realização estupenda possuidora de uma energia inventiva mas bem contida e devidamente medida para cada cena, em oposição ao formato videoclip que a sua anterior incursão musical (o já citado Velvet Goldmine, que este ano comemora já o seu décimo aniversário) adoptara.

Para além da visão de Haynes, a escolha deste improvável (mas grandioso) elenco é uma peça chave neste enorme labirinto humano, onde para além do destaque das prestações soberbas de Christian Bale (que simboliza Dylan no início da carreira e o mundo do folk, e mais tarde o “abraçar” a causa religiosa) e Heath Ledger (o seu lugar no cinema e a questão familiar centrada na sua mulher e filhas), existe uma “personagem” que vive por si só: Cate Blanchett revisita Dylan em ruptura com o folk e a guitarra acústica, ao aderir à sonoridade eléctrica e ao folk rock, enquanto é confrontado pelos seus fãs que se sentem traídos e ainda pela imprensa e as suas histórias. Blanchett reúne nesta interpretação algo de majestoso, de inigualável, de contornos formidáveis, que não se prendem somente com a questão de representar o sexo oposto, mas a juntar a isso se incluir um “acting” tão vivo e real do papel “do momento” em que ele vive, que faz desta sua interpretação, possivelmente, a melhor da sua carreira.

Contra todos os possíveis factores de criação versus realidade, a vida de Dylan está aqui, bem equilibrada entre verdades absolutas e um hipnótico mundo onírico. Importa ainda relembrar que, neste jogo de máscaras, a juntar a estes seis corpos, Haynes termina o filme com uma imagem do sétimo: o próprio Bob Dylan, que na verdade se chama Robert Allen Zimmerman. Pelos vistos, afinal, os disfarces começaram muito antes do filme, que é absolutamente obrigatório.

5 / 5


Outras Estreias:


NEVOEIRO MISTERIOSO

Frank Darabont (À Espera de Um Milagre) mergulha no cinema de terror, com um fabuloso filme impróprio para cardíacos, que conta a história de David Drayton (Thomas Jane) e o seu pequeno filho que se encontram, entre o largo grupo de habitantes da mesma vila (destaque para a brilhante Marcia Gay Harden), fechados na mercearia local cercada por uma neblina estranha, que esconde uma ameaça terrível. Contra todos os esforços, as resistências acabam por ceder – quer a nível “mutante” como humano, e a luta pela sobrevivência torna-se ainda mais difícil. Cruzando influências de filmes série B, com a lição de John Carpenter bem estudada, e fortemente apoiado no romance de Stephen King em que o argumento se baseia, Darabont fornece-nos duas horas de grande cinema, onde a condição humana e os fantasmas da América se debatem com estranhas criaturas mortíferas que tomam de assalto, sem razão aparente, o mais comum dos mortais. Hitchcock ficaria orgulhoso.

4 / 5


NUNCA É TARDE DEMAIS

Edward Cole (Jack Nicholson) é um executivo milionário que se cruza com Carter Chambers (Morgan Freeman), um mecânico de classe baixa, numa improvável slada de hospital. Unidos pelo fatal destino de uma doença terminal, decidem juntos passar o que lhes resta da vida a concretizar tudo aquilo que sempre desejaram mas não conseguiram. Nesta viagem de combate à tristeza, a realidade dos problemas pessoais de cada um cruza-se com própria celebração da vida e da aceitação do que cada pessoa é por si mesma. Num registo muito simpático, Nicholson e Freeman fazem uma dupla inteligente e apelativa, mas apesar da bondade da mensagem, a força do drama não consegue imperar sobre a moral já explorada e evidente com que o filme se alimenta, para além de sobreviver com uma realização mediana, desprovida de registos de interpretação que deixem marca, algo que dois gigantes como Nicholson e Freeman o sabem fazer sem qualquer tipo de esforço. Ainda assim é um objecto bem articulado, que cumpre aquilo que promete, de forma muito eficaz.

3 / 5


ENTREVISTA

O auto-destrutivo jornalista Pierre Peders (Steve Buscemi), experiente em política e situações de guerra, vê-se a braços com uma despromoção no seu serviço, que o leva, contra a sua vontade, a entrevistar a famosa estrela de séries de televisão Katya (Sienna Miller), e sob um aparente desinteresse entre ambos, estabelece-se uma curiosa relação de cumplicidade que se revela demasiadamente pessoal e… fatal. Baseado no filme de 2003 com o mesmo título, realizado por Theo Van Gogh - um jornalista assassinado em 2004 por um fundamentalista furioso com o visão do Islão que o cineasta mostrou num dos seus filmes – Buscemi, amigo e admirador de Van Gogh, revitaliza a obra anterior, com o mesmo argumento, e fornece-nos um verdadeiro tour de force, contado em 90 minutos e tendo como base o apartamento da actriz, onde cinema e teatro se encontram de forma graciosa, seja pela técnica artística ou pelo fantástico uso de máscaras entre os personagens. Um grande filme a ver, onde Sienna Miller revela porque é uma das grandes actrizes da actualidade.

4 / 5

Francisco Toscano Silva

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quarta-feira, janeiro 23, 2008

Heath Ledger (1979-2008)

I


CORAÇÃO DE CAVALEIRO

Sem querer estar a chover no molhado, como se costuma dizer, sinto que vale a pena, ainda que neste espaço curto, relembrar uma vez mais o actor Heath Ledger, que foi ontem encontrado morto no seu apartamento de Nova Iorque, possivelmente vítima de uma overdose, como revelou a polícia norte-americana, mas não se exclui a possibilidade de suicídio.

Teorias de fora, é importante relembrar Heath Ledger. É importante e faz todo o sentido, na medida que falamos de um actor com grandes capacidades, e que brilhou no cinema através de variados papéis; seja na comédia romântica, com 10 Coisas que Odeio em Ti (1999), ou em épicos históricos como O Patriota (2000), Coração de Cavaleiro (2001) e As Quatro Penas Brancas (2002), ou em dramas familiares e sociais de grande força como Monster's Ball - Depois do Ódio (2001), O Segredo de Brokeback Mountain (2005) - que lhe valeu uma nomeação para Óscar pelo seu extraordinário papel - ou Candy (2006), seja também na aventura e fantasia com Os Irmãos Grimm (2005), ou para a acção (quase documental) de The Lords of Dogtown (2005), e entretenimento com o seu Casanova (2005), deixando ainda lugar para o drama biográfico I'm Not There (2007) e o novo registo como o famoso assassino Joker em The Dark Knight (2008) - sendo que estes dois últimos filmes ainda por estrear entre nós. Por concluir ficará The Imaginarium of Doctor Parnassus (agendado para 2009), onde se encontrava em filmagens, dirigido pelo seu amigo Terry Gilliam.

O que mais me transtorna é a percepção do final abrupto de uma carreira destas num actor de 28 anos de idade, e que estava no seu melhor momento artístico, uma jovem carreira que é um feito de notória dimensão, que certamente abriria mais e maiores portas para um futuro glorioso.

Da minha parte, a espera de The Dark Knight aborda consigo uma "importância" pequena, que o nosso caro Alvy tão bem soube ter em conta com esta triste notícia, mas por outro também carrega ironicamente um peso gigante, pois é precisamente o último filme de Heath Ledger e ao que parece, pelas primeiras impressões que retive e opiniões de toda a indústria, vai deixar uma marca única. Certo é que este seu Joker já me garantiu, através do trailer que circula na Internet há mais de um mês, que vai conquistar o protagonismo total do filme, sem dúvida alguma. É ver para crer.

Para trás ficam obras a redescobrir, de um actor "que é um milagre da representação", como Ang Lee lhe chamou. Para sempre, entre outros momentos, fica na minha memória a sua especial e soberba personagem Ennis Del Mar, no fascinante O Segredo de Brokeback Mountain, e do inesquecível final "Jack, I swear...".

Lançando a questão, qual a personagem que Heath Ledger vestiu e vos marcou mais?

Francisco Silva

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sexta-feira, outubro 26, 2007

Novo teaser de 'I'm Not There'.

Há músicas que são um autêntico filme. Seja pela história que contam, pela profundidade que apresentam, pelo envolvimento ao qual não conseguimos escapar, ou pelas imagens que se criam na nossa mente enquanto a melodia avança. Bohemian Rapsody dos Queen é, por exemplo, uma delas. Mother, dos Pink Floyd, outra. Ainda existem umas quantas, se nos pusermos a contar.

No entanto, ao ter de eleger o melhor filme sob a forma de música, sem pensar duas vezes entregaria o prémio a esse hino intemporal de Bob Dylan que é Like a Rolling Stone. Quando, nos filmes, alguém coloca aquela questão metafísica de porque é vale a pena viver e estarmos aqui, não seria de todo despropositado atirar lá para o meio das razões esta música, que só pode ter nascido num momento em que Bob Dylan foi atingido por um raio divino. Perfeição, como todos sabemos, é coisa que não existe. Mas, verdade seja dita, também não há nada como Like a Rolling Stone. Bolas, começa-se um post para falar do mais recente teaser de I’m Not There, e acaba-se a divagar sobre tudo, menos isso.

Alvy Singer

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