A psicologia é uma coisa engraçada. Se tirarmos uma caneta do bolso, a apontarmos à pessoa que está à nossa frente, e dissermos, Tenta chegar a esta caneta, invariavelmente, todo e qualquer individuo pegará na caneta. Sem excepção. Note-se, no entanto, que o repto não é chegar à caneta. Mas sim, tentar. Ou seja, não fazer o caminho todo, mas parte. Contudo, porque as profundezas da mente vão para além de uma mera caverna – pese embora a alegoria seja um insight notável –, a directriz verbal promovida pelo verbo tentar entra em conflito directo com algo mais primordial. Aquilo de que somos ou não capazes. E, a representação que fazemos antes de partir para a dita caneta é a de pegá-la com a nossa mão. Há quem vá ainda mais longe, e a arranque das mãos do outro – forte indicador de comportamento obsessivo.
Ora, neste poster de Management, não sabemos o que passa pela cabeça de Steve Zahn. Porém, de uma coisa temos a certeza. Zahn quer fazer o caminho todo. Do lado oposto ao da mão estão os glúteos de Jennifer Aniston. E, neste caso, por mais que se sublinhasse o verbo tentar, o pobre Zahn, aqui na pele do eterno romântico Mike Cranshaw, não concebe outra hipótese que não seja cruzar a linha de chegada, e aterrar a manápula onde não deve. Contudo, o trailer dissipa qualquer dúvida. Sue Claussen (Jennifer Aniston) não fala em tentativas. You can touch my butt, diz ela. Podem existir, mas não estamos a ver palavras mais doces que estas.
O filme de Stephen Belber relata as peripécias de Mike Cranshaw (Zahn) e Sue Claussen (Aniston), que se conhecem por acaso quando esta pára no motel de estrada gerido pelos pais de Mike. Os cumprimentos da gerência com uma garrafa de vinho são o ponto de partida para uma viagem que atravessa os Estados Unidos. Mike encontra em Sue o brilho especial que o inspira, e o motiva a percorrer qualquer distância necessária para estar com ela. Contudo, quando chega a Maryland, Mike descobre que a realidade é bem mais dura que a fantasia, ao conhecer Jango (Woody Harrelson), namorado de Sue que lhe prometeu uma série de trabalhos de caridade. Mas, Mark não é dos que desiste facilmente.
Joe Leydon da Variety já viu o filme, e isto foi o que teve a dizer.
“Neatly mixing whimsical quirkiness, straight-faced absurdity and affecting melancholy, "Management" is a slight but likable dramedy that signals a promising directorial debut for playwright-screenwriter Stephen Belber (“Tape”, "The Laramie Project"). Pic benefits greatly from appealing perfs by Jennifer Aniston and Steve Zahn, who deftly apply darker emotional shadings to their characters when necessary, and equally fine work from a small ensemble of solid supporting players. It may be difficult for an indie so unassumingly low-key to gain traction in the ever-more-brutally competitive theatrical marketplace. But appreciative reviews and favorable word of mouth could generate interest among homevid viewers”.
Nada mau. O filme tem estreia marcada, nos Estados Unidos, para 15 de Maio.
Sem ter visto o documentário Little Dieter Needs to Fly, também de Herzog, que serve de base a este filme, a análise deste Rescue Dawn poderá coxear um pouco. É porque, nestes casos, dá sempre jeito ver aquilo que ficou melhor, as diferentes perspectivas e abordagens, comparar técnicas de filmagens, enfim, encontrar diferenças. Não tendo visto esse documentário, está será então uma interpretação que tem apenas em linha de conta o filme, e nada mais do que isso.
E, que filme. Nos dias que correm, cada vez vai sendo mais difícil encontrarmos nas salas de cinema uma obra sobre esses seres estranhos chamados pessoas. Por vezes, ficamos com a ideia de que a industria cinematográfica recorre excessivamente a meios extravagantes, com o objectivo de fazer chegar ao grande publico, mil e uma histórias sobre tudo e mais alguma coisa, menos seres humanos. Esse animal com desejos, receios, ambições, limitações, sonhos, motivações, imperfeições, imaginação, tudo coisas que dão cor a toda uma existência. E, cor é coisa que não falta à história de Dieter Dengler.
Deveremos reconhecer, que o filme sofre de algumas falhas. E ambas ocorrem em momentos cruciais. Tanto o principio como o fim da obra, por razões diferentes, demarcam-se negativamente, em comparação com tudo o resto. O início, pela excelente oportunidade desperdiçada por Herzog de entrar pelo personagem de Dengler adentro, e dar-nos um pouco uma outra imagem, com maior profundidade, do real estofo deste homem. Se existe algum momento em que a história parece avançar aos repelões, esse é o começo.
Por seu lado, o fim do filme destoa de tudo aquilo que o antecedeu. É quase como se tivéssemos entrado num outro título para o qual não estávamos preparados e, por alguns instantes, temos direito a ver o que seria Rescue Dawn versão Hollywoodesca. Sem entrar em spoilers, direi apenas que o nome Michael Bay surgiu a certa altura na minha mente.
De resto, ou seja, durante os outros 110 minutos que constituem o desenvolvimento do filme, Herzog oferece-nos uma história vibrante, num crescendo de tensão e agitação. A improvisação de falas a que o realizador recorreu, terá ajudado em muito a complementar um argumento que, se tivesse sido mais rigoroso, teria talvez roubado a expressividade de alguns diálogos. A passagem de Dengler enquanto recluso, no Laos, é uma visita guiada à destruição da mente humana pela mão do cativeiro. Basta aquela apresentação do prisioneiro Eugene from Eugene, Oregon, para percebermos que estamos na presença de alguém que há muito abandonou o mundo real. Contudo, são os momentos passados na selva, onde o homem se confronta com a natureza, que a obra de Herzog demonstra todo o seu esplendor. O olhar de Bale é a porta para as suas indecisões e, refastelados como quem não quer a coisa, na cadeira do cinema, somos capazes de presenciar o turbilhão de pensamentos que deviam percorrer a mente daquele homem. A fotografia de Peter Zeitlinger do Vietnam e Laos é qualquer coisa do outro mundo, e a banda-sonora de Klaus Bedelt é, no mínimo, tocante.
Uma ultima palavra para os dois actores em destaque. Ponhamos as coisas nestes termos: Bale é o primeiro nome que colocaria na lista dos candidatos ao Oscar de melhor actor principal, embora ainda falte muito campeonato. Zahn é o primeiro nome que colocaria na lista dos candidatos ao Oscar de melhor actor secundário, e dificilmente sairá de lá. Duas interpretações de se lhe tirar o chapéu, num filme que encheu por completo as medidas.
Olhando para o mapa de estreias previstas até ao final do ano, não há nenhum fim-de-semana que não dê vontade de ir ao cinema ver um filme. Até às estreias, sublinhe-se, esperadas, de My Blueberry Nights e I Am Legend (do qual, já agora, deixamos aqui o mais recente trailer), no último fim-de-semana do ano – 27 de Dezembro –, todas as quintas-feiras trazem uma boa razão para nos dirigirmos ao grande ecrã mais próximo de nossa casa. Quer dizer, bem vistas as coisas, há ali uma semana, a de 08 de Novembro, mais para o fraca, mas, mesmo assim, entre a parvoíce desvairada de Blind Dating e a escuridão luminosa de 30 Days of Night, alguma coisa será suficiente para nos arrastar até à sala de cinema.
Nas restantes semanas, o difícil é escolher o filme. Mas, com este tipo de problemas podemos nós bem. Já amanhã temos um busílis nas mãos. Evening e Land of The Blind são dois títulos por demais apetitosos, no entanto, numa semana em que estreia Rescue Dawn, entre nós Espírito Indomável, santa paciência.
Quando em Março iniciámos neste blog, de forma decrescente, a lista dos 25 Filmes Para 2007, este projecto foi o número vinte-e-cinco, portanto, o primeiro a ser apresentado. E não o foi, por ser a vigésima quinta escolha. Foi o número 25 porque, por essa altura, ainda era necessário confirmarmos o tal buzz que marca a diferença, entre os outros projectos que estavam por estrear. Este era o primeiro em que nada havia para certificar. Já queríamos ver este filme em Março, desse por onde desse, ponto final. Agora, isto até pode vir a ser uma barraca de todo o tamanho. Com Herzog aos comandos e Bale a liderar as operações é pouco provável – embora seja Steve Zahn o mais elogiado. E, este fim-de-semana, lá estaremos para corroborar esta afirmação ou, então, temos o caldo entornado.