Deuxieme


segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Bloody Great.

Poucos cineastas reúnem esta capacidade que Tim Burton manifesta de forma tão clara e evidente. A versatilidade de realizar, ao longo da sua carreira, filmes tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes. Daqui por cem anos, um miúdo muito franzino vai parar à frente de uma montra para apanhar a bola que chutou para o meio da rua. O pequeno, sem se aperceber, estará a dar os primeiros passos no mundo da cinefilia, e vai apanhar um filme de Tim Burton a passar num dos mais recentes aparelhos tecnológicos. Porque alguém a desesperar por regressar ao jogo grita o seu nome, o moçoilo vê apenas um minuto. No entanto, aqueles frames serão suficiente para o rapaz comprovar que o cunho do realizador de A Noiva Cadáver está por ali. Assim como quando ouvimos a guitarra de Brian May, e sabemos que aquela é uma música dos Queen, ou quando ouvimos os acordes iniciais da guitarra de Mark Knopfler, e sabemos que aquilo é Dire Straits, quando o plano sobrevoa uma cidade cinzenta, com o fumo das chaminés em pano de fundo, e o som de um órgão ecoa na sala, aquele não poderá ser um filme de mais ninguém a não ser de Tim Burton.

Sobre Sweeney Todd, não poderei dizer muito. O filme passou por mim a correr, como aquelas viagens que fazemos em petizes no Comboio Assombrado da Feira Popular. Era um susto dos diabos mas, aquilo sabia tão bem, que não demorava nada. Assim que saímos era a pergunta, Então, gostaste? Caramba, o sorriso nos lábios estava mesmo a dizer que sim. Agora, se me perguntarem porque é que gostei de Sweeney Todd, talvez tenha de encolher os ombros e dizer porque sim. Como quando acordamos após um daqueles sonhos malandros, mas não nos lembramos bem como foi. Só sabemos que soube bem.

Talvez seja por já estar formatado ao ambiente de Tim Burton, ou porque Johnny Depp tem uma interpretação de encher o olho. Talvez seja porque a direcção artística é tão cuidada que até arrepia, ou porque Alan Rickman nunca me deixou ficar mal. Talvez seja porque o banho de sangue é servido com uma delicadeza tal, que ficamos na dúvida qual o coração mais maltratado, se o de Benjamin Barker, se o dos outros pobre coitados que se sentam na cadeira para fazer a barba e, subitamente, se vêem no meio duma profícua linha de montagem em nome de uma boa empada. Talvez seja porque Johanna ganharia certamente o Oscar de Melhor Canção se tivesse sido escrita para o filme, ou por ver que Helena Bonham Carter está à altura do cortejo. Talvez seja pelo embalar do argumento de John Logan, que nos vai guiando com moderação e entusiasmo, ou pelo momento em que Johnny Depp rejubila com o facto do seu braço estar de novo completo com uma lâmina, quando nos lembramos como se fosse ontem, o dia em que vimos um filme de Tim Burton em que o que ele menos queria era ter um objecto cortante. Ou, talvez seja por aqueles dois minutos em que a mente de Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter) vagueia pela existência de uma vida à beira-mar. O delírio visual de Burton nessa sequência vale o bilhete de cinema. É a fantasia mais idílica entre os dois seres mais descoloridos da História, e daquelas coisas que leva um admirador inveterado de Tim Burton a sentir que é capaz de voar sem asas.

Perdoem-me o engrandecimento da obra mas, não tenho culpa. Eles que não fizessem filmes assim tão bons. Considerações especialistas sobre Sweeney Todd deixarei para aqueles que não gostaram do filme. Porque é que haverá sempre a tendência de resvalarmos para a racionalidade quando queremos simplesmente dizer que algo nos tocou profundamente? Das razões para gostar deste filme faço uma bola de papel, e meto-a no lixo. Se há algo que o trabalho de Tim Burton me ensinou, foi a deixar o mundo real à porta.

Alvy Singer

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sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Estreias da Semana (3 filmes a ver)

Eis que chegamos a mais uma semana de estreias…

O LADO SELVAGEM

Into The Wild (o título original tem uma força única, que infelizmente a nossa tradução não conseguiu com O Lado Selvagem) é o último filme realizado por Sean Penn (ausente da realização desde The Pledge/A Promessa em 2001). Penn agarrou-se ao livro de Jon Krakauer (com o mesmo título), sobre a premissa verídica, passada nos anos 90, do invulgar percurso do jovem americano Christopher McCandless (soberbamente interpretado por Emile Hirsch), um notável estudante que abandona a sua família e se desfaz das suas posses para se entregar a uma viagem pela natureza, alimentado por sonhos e ideais muito vincados, em busca da felicidade. Pelo seu caminho cruzam-se inúmeras pessoas e com elas vários desafios, que mostram o reverso desta procura incessante do lugar do homem e da vida no seu estado mais puro.

Com estes ingredientes, Penn faz da viagem de McCandless um momento de grande cinema, filmado com uma habilidade notória e captado com uma fotografia única. Encontramos nesta obra uma profunda análise aos vários estádios humanos (onde cito J. J. Rousseau - após a sua consagração evolutiva, o homem é corrompido, e como tal, necessita de regressar ao seu lado mais primitivo e selvagem, para recomeçar tudo novamente), que repensam a evolução do homem, sobre uma ideia de fuga a uma vida vazia de sentimentos, substituídos pelo consumismo familiar. Para além de Emile Hirsch, que é um espanto, destacam-se ainda os secundários William Hurt, Marcia Gay Harden, Catherine Keener e Hal Holbrook, que está nomeado para Óscar de Melhor Actor Secundário, que juntamente com Jay Cassidy (responsável pela montagem) completam as 2 escassas nomeações desta obra, injustamente esquecida pela Academia. Só nos resta ouvir vezes sem conta o tema “Guaranteed” de Eddie Vedder, que ganhou o Golden Globe para Melhor Canção, ainda que a banda sonora inteira (a cabo de Vedder também, refira-se) o merecesse por igual. Um filme obrigatório na sua condição filosófica/humana/artística.

5 / 5 – Magnífico


SWEENEY TODD, O TERRÍVEL BARBEIRO DE FLEET STREET

Sweeney Todd, O Terrível Barbeiro de Fleet Street é o regresso, em boa forma, do mestre Tim Burton, que uma vez mais, filma a grandiosidade de Johnny Depp como ninguém. Burton pegou no conhecido musical de Stephen Sondheim (curiosamente em exibição entre nós) e recriou uma nova versão da história de uma família feliz que é condenada pela cobiça do poderoso juiz Turpin (Alan Rickman), que prende Benjamin Parker (Johnny Depp), afastando-o da sua mulher e filha, para um exílio forçado. Face a este momento nada será como dantes. Desfigurado pela tragédia, Parker regressa anos depois a Fleet Street, pelo nome de Sweeney Todd, e retoma a sua anterior barbearia com a ajuda de Mrs. Lovett (a singular Helena Bonham Carter), usando o seu ofício para perpetrar a sua tão desejada vingança. Mas ao atravessar este pantanoso caminho, Sweeney perde o seu norte e é consumido pelo seu próprio feitiço, arrastando consigo o que mais defendia e quem o apoiou.

Num cenário gótico (a que Burton já nos habitou) e munido de poderoso argumento, Sweeney Todd é um objecto bem conseguido e polido, onde além das fabulosas interpretações dos actores, que aqui se destacam também pela sua representação musical (de salientar ainda os deliciosos minutos com Sacha Baron Cohen), revela-nos sobre uma enorme violência uma realização tremendamente forte, precisamente necessária ao nível do tema que o filme nos pede; essa premissa narrativa, completamente "Shakesperiana", sobre a fatalidade dos caminhos da vingança, que cegam por completo os homens que os percorrem. Tudo funciona num enorme banho de sangue, que é um triunfo visual e narrativo, mas onde também moram alguns pecados, cometidos na pouca força dos secundários Alan Rickman e Laura Michelle Kelly (a mendiga doente), personagens de grande peso, que surgem num registo muito enevoado e disperso. Tirando isso, não sendo uma obra-prima como Burton já nos presenteou, é um filme de grande qualidade, que foi um dos vencedores dos Golden Globes (Melhor Musical e Actor) e que deixa Johnny Depp caminhar com segurança para os Óscares.

4 / 5 – Bom



SEDUÇÃO, CONSPIRAÇÃO

Para terminar, temos mais um regresso – desta vez, o de Ang Lee. O realizador chinês estreia entre nós Lust, Caution, ou no seu original Se, Jie (em português Sedução, Conspiração), um filme polémico (pelas suas ousadas cenas de sexo), que foi o Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza do ano passado. Centrada numa relação amor/ódio, a acção decorre na China, ocupada em 1942 pelo Japão, em plena Segunda Guerra Mundial. Dentro de um grupo de estudantes fervorosos com o seu nacionalismo, a jovem Wong Chia Chi (Way Tang) vai ocupar um lugar privilegiado, ao penetrar no seio da família de um alto funcionário japonês Sr. Yee (Tony Leung), que se encontra no governo chinês, tornando-se uma amiga inseparável da sua mulher Sra. Yee (Joan Chen). Com o propósito de eliminar o inimigo, a jovem torna-se amante de Yee, mas depressa se perdem as linhas entre os sentimentos e a razão da missão, que arrastam a jovem, sob o disfarce de “Sra Mak”, e o Sr. Yee pelos mais inesperados caminhos dentro de si próprios, lugares que desconheciam por completo, minados pelo destrutivo ambiente da Guerra.

Perante um vencedor de um dos mais famosos e aclamados Festivais de Cinema do mundo, é difícil não se reconhecer ou não se apreciar uma obra com um dobro de atenção, previamente injectada pelo peso que comporta. E que Ang Lee monta um arrojado esquema narrativo sobre forma de thriller erótico (quase pornográfico, somente na sua componente sexual) entre duas personagens diferentes, dois lados de uma história, num cenário de luta humana de facção política, é um facto consumado. O que falha o alvo são precisamente as tão badaladas cenas sexuais, mais explícitas porventura como forma expressiva de maior força e ligação entre as personagens; cenas essas que não se integram nem na narrativa nem na personagem principal (a jovem), cujos aspectos problemáticos que a dominam, confessados a terceiros e a si mesma, se demonstram desconectados das imagens transmitidas, que supostamente os deveriam produzir e acentuar – há espaços por celebrar/abominar durante o decorrer da narrativa, que não se encaixam no clímax final, onde o que se pede ao espectador não se concretiza no plano emocional. A juntar a isso temos um ritmo narrativo bastante lento que nem sempre agarra o espectador, o que não facilita num filme desta dimensão temática e psicológica. Em suma, Sedução, Conspiração é uma obra com pontas soltas e outras por aparar, que ainda assim nos abala quer a nível visual como emocional, carregada de uma sublime banda sonora (a cargo do compositor francês Alexandre Desplat), mas que se encontra a vários níveis longe de obras anteriores de Lee, como o genial O Tigre e o Dragão ou o fabuloso O Segredo de Brokeback Mountain.

3 / 5 – Razoável, Interessante

Francisco Silva

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quarta-feira, janeiro 09, 2008

St. Burton's Day.

Nos dias de hoje, dificilmente encontraremos outro realizador que, como Tim Burton, aceda ao convite de sentar-se frente a frente com o seu actor fetiche, para uma troca salutar de opiniões relativamente às carreiras de ambos, ao lerem perguntas enviadas por admiradores dos seus trabalhos. Um actor aceitar participar numa brincadeira destas é normal, já um realizador, é um prazer que raramente temos a possibilidade de assistir. Aqui fica a Parte 1 e a Parte 2 – bem como os Clips Extra 1 e Clips Extra 2 –, da entrevista à Unscripted, que mais parece uma converseta de esplanada entre estes dois colossos da sétima arte. Curiosa é, sobretudo, a questão colocada a Johnny relativamente a que personagem desempenhada no grande ecrã é que gostaria de conhecer. A primeira resposta é… aquela com que não gostaria definitivamente de se cruzar.

Agora, Tim Burton não só entra neste tipo de coisas, como ainda se senta com David Poland para falar sobre Sweeney Todd durante uns bons quarenta minutos. Posto isto, ao fim de hora e meia a ouvir o mestre, dá para perceber porque é que o primeiro post da noite chega a esta hora.



Alvy Singer

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terça-feira, dezembro 18, 2007

Como ocupar a próxima meia hora?

Para todos aqueles que não sabem bem o que fazer com os próximos trinta minutos, aqui fica uma solução bastante agradável. Algo que tem tudo o que é preciso para fazer parte dos conteúdos especiais quando sair o Dvd. Falamos deste oportuno documentário sobre Sweeney Todd, disponível desde ontem no site da Apple. O único senão é a versão do Quicktime que é necessária. Caso, ao seleccionarem a opção, no rectângulo de visionamento surgir um Q com um ponto de interrogação, então será preciso fazer o download do programa aqui. Uma vez feito o download, mergulhemos então no mundo de Sweeney Todd visto pela mente de Tim Burton e toda uma equipa de profissionais aqui posta a descoberto.

Alvy Singer

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quarta-feira, dezembro 12, 2007

A Tim Burton Film.


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sexta-feira, dezembro 07, 2007

Um precioso minuto.

As primeiras notas, as primeiras imagens de Sweeney Todd. Helena Bonham Carter e Johnny Depp em plena cantoria, no filme que valeu a Tim Burton o reconhecimento da National Board of Review. Caramba, só por causa deste filme, já não sei o que é mais importante, se o 31 de Dezembro, se o 31 de Janeiro.



Alvy Singer

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terça-feira, novembro 20, 2007

Gargantas afinadas?

A este ponto, quando ainda faltam mais de dois meses para a sua estreia, importa reter duas coisas sobre Sweeney Todd. A primeira é que os 17 minutos do filme que alguns felizardos tiveram a sorte de ver, provocaram algumas reacções inesperadas, que vêm resfriar um pouco as expectativas astronómicas. Por um lado, temos David Polland que escreveu algo como “In the case of “Epiphany,” the musical number, sung mostly by Johnny Depp as Sweeney Todd, it is one of the numbers where the power of an actor with Depp’s power truly overwhelms the value of the big voices that have played the role on stage”.

Quanto a Nathaniel R., este foi um pouco mais severo na sua apreciação, sobretudo nos dotes musicais de Helena Bonham Carter. Their voices? Helena sounds good but we didn't get to hear much so I could be wrong. Depp sings on key and he's a strong enough actor that the performance looks to be compensating for the vocal troubles but it'll be frustrating to musical aficionados”.

Começa a ganhar força a ideia de que o próximo título de Tim Burton pode não ser assim tão consensual quanto isso. De facto, a abordagem musical pode ser vista como um pau de dois bicos. Ou os actores correspondem a toda a linha, e o filme é um verdadeiro triunfo, ou então percebemos que o talento não dá para tudo, e que nem todos conseguem fazer de Liza Minelli em Cabaret. Para já, a única coisa que podemos dizer é que preferimos que David Polland esteja certo, e que Nathaniel R. não perceba patavina de uma clave sol, nem consiga ver a diferença entre o fá bemol e um lá sustenido.

A segunda coisa que devemos reter é esta entrevista em podcast ao génio dos génios, o mestre Tim Burton. Quanto mais não seja, para nos deprimir ainda mais por faltar quase dois meses para a estreia. Não sei se já tinha dito isto. É que faltam mesmo dois meses para a estreia. Dois.

Alvy Singer

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domingo, outubro 21, 2007

Mais Sweeney, logo, mais expectativa.

Com este segundo trailer de Sweeney Todd esclarecemos uma dúvida, que já era cada vez mais uma certeza. Hoje, ficámos a saber que as duas cores dominantes neste filme são mesmo o preto e o vermelho, presentes em abundância. Agora, a única questão que se coloca é se, da junção destas duas tonalidades, pode surgir alguma coisa dourada.

Alvy Singer

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sexta-feira, outubro 05, 2007

Afinal, sempre há boas notícias.

O trailer de Sweeney Todd, online. Esta era a melhor maneira de terminar um dia como este… Absolutamente delicioso. Não se esqueçam de lamber os dedos no final.

Alvy Singer

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