
É provavelmente a grande questão introdutória e paradigmática de todo o cinema de David Lynch: “Do you want to see?” E quem a diz é mais uma das enigmáticas personagens do cineasta norte-americano no início do
trailer francês de “Inland Empire”, obra que consuma a recente paixão do criador da série de culto “Twin Peaks” pelo formato digital. “Inland Empire” foi inteiramente captado por uma câmara DV (Digital Video) e promete cerca de três horas de experimentalismo cinematográfico, o que à primeira vista até pode assustar (embora o susto seja uma das mais reconhecíveis qualidades de Lynch), em redor de uma personagem feminina interpretada por Laura Dern. De facto, o exercício parece que tem estado longe de criar simpatia junto da crítica no outro lado do Atlântico, acusado de se apresentar como uma peça demasiado subjectiva, entediante e críptica.
Brian Murray, crítico de cinema, acusa mesmo “Inland Empire” de ser “uma história abstracta vista através de um olhar abstracto”. Diz mais: “É um conjunto de imagens sem ligação. De gritos e sombras e ‘close-ups’ gravados em DV que nada fazem para progredir a história.” Até que ao fim “de duas horas e vinte minutos, desisti e fui embora, não zangado, apenas desiludido.” Poucos dias antes da estreia comercial em Portugal, a 5 de Abril, a questão começa a colocar-se: será que queremos ver? Claro que sim. A Lynch perdoamos tudo, principalmente os seus excessos, os seus desvios, as suas manigâncias visuais, os seus perversos exercícios de suspense, a curiosidade sádica pelos labirintos obscuros da mente humana. Nunca esperámos outra coisa dele. Porque é um dos grandes realizadores a quem apenas e sempre soubemos permitir o inesperado.
David Mariano
3 Comments:
Eu diria que qualquer filme do Lynch é de visionamento obrigatório.
Não é o meu realizador preferido, mas nunca desilude. É isso que o torna grande.
E os filmes dele, ou se adora ou se detesta. E podemos detestar o filme, mas a qualidade é inegável. Precisamos de mais mestres desses para ver o cinema evoluir de forma mais positiva.
Ainda está para vir o filme de David Lynch que deixará o espectador indiferente. A questão não deixa de ser pertinente, pois como disse, e bem, o Luís Oliveira, Lynch é um realizador que facilmente desperta emoções ambíguas. E a critica, subjugada à inerente condição humana a que este cineasta tanto apela, jamais conseguirá ser excepção à regra. Como comprova a opinião abaixo indicada, totalmente inversa à de Brian Murray.
http://www.empireonline.com/reviews/review.asp?FID=132947
É sempre tudo uma questão de ponto de vista. Não vejo nada de errado n' “uma história abstracta vista através de um olhar abstracto”. Talvez o problema desse crítico norte-americano seja estar à espera em Lynch de uma coisa que Lynch não faz: um filme linear, blockbuster, acessível e para todos.
Os filmes de Lynch não são assim, mas têm sempre a qualidade de surpreender, mesmo dentro do próprio universo Lynchiano e de serem os filmes mais de autor e mais coerentes com um universo particular vindos dos EUA.
Eu QUERO ver!
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