Estreias da Semana
Aqui estão as estreias desta semana, com um inevitável dia de atraso…

MICHAEL CLAYTON
Tony Gilroy, entre nós mais conhecido pelos argumentos de Prova de Vida (2000) e da trilogia Bourne, estreia-se atrás das câmaras, com uma história também da sua autoria: Michael Clayton, o seu grande filme, revisita os cânones clássicos dos thrillers da década de 70 (onde imperam nomes maiores como Alan J. Pakula e Sydney Pollack) num brilhante exercício narrativo.
Michael Clayton (George Clooney) é um “canivete multi-funções” que trabalha para uma famosa firma de advogados - Kenner, Bach & Ledeen – e que se vê em mãos com um enorme problema, quando o seu chefe Marty Bach (Sydney Pollack) o encarrega de tratar de uma delicada questão: em vésperas de um acordo final num caso com uma empresa agro-química, de nome U/North, um dos advogados de maior relevo da respectiva empresa, Arthur Edens (Tom Wilkinson) muda a sua postura e revela o que parece ser um possível esgotamento ou depressão. Enquanto tenta corrigir esta situação, Michael vai-se aperceber das reais causas do comportamento de Edens, e parte, contra tudo e todos, em busca de uma terrível verdade escondida, onde é posta em causa a saúde pública a nível mundial.
Com um argumento de ferro, atento e equilibrado, Gilroy constrói um inteligente thriller, que mergulha nos aspectos do poder económico, político e familiar, onde a vida profissional se mistura com a privada. George Clooney consegue, uma vez mais, deixar o mundo de boca aberta com a sua extraordinária interpretação, e a sua constante composição do personagem é notória desde as cenas na sua firma, ao encontro com os seus adversários, como também é nítida na vida familiar com os irmãos e o seu filho. À sua volta giram dois fabulosos momentos secundários – Tom Wilkinson e Tilda Swinton (representante da U/North) arrancam das suas maiores capacidades representações de alto nível, que oscilam sobre os mais variados sentimentos. A harmonia entre os vários elementos narrativos é muito bem conseguida, e sobre uma realização segura vivemos duas horas de conspiração, de suspense, de comoção e redenção. Contra os gigantes na categoria de Melhor Filme, Michael Clayton figura como um objecto de enorme qualidade, mas que não conseguirá fazer frente à força dos Irmãos Coen ou ao épico de Paul Thomas Anderson. Ainda assim, noutras categorias de Secundários é uma forte aposta. Em suma, um fantástico filme, com todos os ingredientes necessários que qualquer grande obra possui.
4/5 – Bom

JUNO
De seguida, a semana é marcada pela estreia de um título absolutamente delicioso. Juno é o mais recente trabalho de Jason Reitman (que anteriormente nos mostrou Obrigado por Fumar em 2005) e que é um verdadeiro fascínio de cinema, que já foi enormemente premiado em festivais e círculos da indústria. Não é caso para menos.
Juno (Ellen Page) é uma adolescente possuidora de uma personalidade e atitude muito bem definidas. Num inexperiente envolvimento sexual com o seu colega Paul Bleeker (Michael Cera), Juno é confrontada com a maior surpresa da sua vida, ao descobrir que está grávida. Contra todas as expectativas, Juno decide ter a criança, com o apoio da sua melhor amiga e da sua família, com a condição de encontrar, para o seu futuro rebento, um casal que o queira adoptar. Durante o processo da gestação, Juno vai reavaliar a sua condição, enquanto se redescobre a si mesma, à sua própria vida familiar, aos seus amigos e se depara com a inevitabilidade do seu amor por Paul.
Carregado de uma mensagem importante e de um brilho narrativo e visual, Juno mostra-nos o amor e a descoberta, a coragem e a fragilidade do que é ser-se jovem (e adulto, de certa forma), em constante oposição refira-se, à uma enorme força que guia a personagem, que surge mascarada de uma segurança moral. É na aparente viagem “destemida” da gestação de Juno (magistralmente interpretada por Ellen Page, que é, a meu ver, um puro milagre do cinema actual – relembro-a gloriosamente numa força bruta em Hard Candy em 2006 – e que veste esta personagem numa perfeição assustadora) que se vive hora e meia de cinema de notória qualidade temática e artística. Bem apoiado num argumento mordaz, real, e sobretudo cheio de humor corrosivo (os diálogos de Juno são uma verdadeira preciosidade), Reitman filma a história com um rigor estético muito patente na pop culture, nas cores e na música - que é uma parte integrante e fundamental do filme. Com um excelente leque de secundários, onde se encontram Michael Cera (Superbaldas) e ainda J.K. Simmons, Allison Janney e Jennifer Garner, Juno é um triunfo a todos os níveis, que merece ser visto e revisto pelas variadas camadas de público – aqui encaixa o mais puro filme alternativo, ou um filme de família, ou um elogio ao amor e à vida. Ou todos juntos. Daí a sua perfeição. Para Domingo era bonito ver Ellen Page discursar de (merecidíssimo) Óscar de Melhor Actriz na mão.
5/5 – Magnífico

PERSÉPOLIS
Para terminar em beleza temos um objecto de animação extremamente curioso e vibrante. Persépolis, o mais forte opositor a Ratatui na categoria de Melhor Filme de Animação, é realizado por Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, e foi o vencedor do Prémio do Júri em Cannes.
Baseado na autobiografia da realizadora, Persépolis conta a história de Marjane, no tom da graphic novel, uma inocente menina que cresce no Irão e cuja revolução islâmica lhe é apresentada como uma realidade diária, onde todos (da sua família a amigos) travam um papel especial. Dominada por um feitio curioso e activo, Marjane cedo descobre, entre os furos da pesada opressão política, novas formas de cultura, que vai abraçar e manter, quando se vê obrigada a viajar para a Austria para sua segurança. Entre as várias etapas da vida e em confronto com o mundo ocidental, Marjane vai viver uma luta constante pela sua posição social, cultural, política e amorosa nos novos horizontes que descobre, quando abandona o seu país.
Filmado num sublime preto e branco (as cenas a cor somente existem no presente onde Marjane se lança nas memórias do passado), Persépolis é uma obra ousada e importante (que recebeu duras críticas por parte do Irão), ao remeter, sobre uma sóbria narração da vida de uma menina até a sua fase adulta, várias questões do nosso mundo actual, sem assim se restringir à realidade islâmica. Erigida exactamente com a autora desenhou, as imagens sobrepoêm-se entre si em raccords fabulosos, num ritmo que não conhece tempos mortos, e com as vozes vivas de personalidades como Chiara Mastroianni (a própria Marjane) ou Catherine Deneuve (que surge no papel da cautelosa mãe). É uma obra de grande poder visual e temático, mas que a meu ver não possui o encanto e a força suficientes para derrotar o rato Rémy no próximo Domingo. Ainda assim trata-se de uma obra a ver e discutir.
4/5 - Bom
Francisco Toscano Silva
Etiquetas: Estreias da Semana, Juno, Michael Clayton, Persepolis
2 Comments:
Vi apenas o Persepolis destes três e também gostei muito.
Cumprimentos
Confesso que não fui apanhado pela euforia em volta de Juno. Achei um bom filme mas se pudesse escolher substituia-o por O Lado Selvagem num piscar de olhos. Já quanto a Ellen Page concordo plenamente.
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