Um dia e meio.

Ao contrário de anos anteriores, a categoria de Melhor Filme Estrangeiro não parece trazer grandes emoções. Se Persépolis (França) e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (Roménia) não tivessem sido postos de parte, hoje estaríamos na presença de um mano-a-mano como em nenhuma outra categoria. Assim, todos os nomeados acabam por ter mais ou menos hipóteses, embora dois deles levem ligeiro avanço. O primeiro, Beaufort (John Cedar, Israel), vencedor do Urso de Prata para Melhor Realizador na Berlinale de 2007, e The Counterfeiters (Stefan Ruzowitzky, Áustria), quanto mais não seja porque fala do Holocausto, um tema sempre bem recebido pela Academia. Mongol (Sergei Bodrov, Kazaquistão) aparenta algumas semelhanças com os blockbusters épicos saídos de Hollywood. Diz, quem já viu a obra centrada na vida de Genghis Khan, que os apreciadores de Gladiador (Ridley Scott, 2000) optarão por este. É o filme mais pipoca dos cinco, e aquele com mais probabilidades de facturar na bilheteira. Com o Oscar, é mais um ou dois milhões que se ganham. Temos ainda o russo 12 (Nikita Mikhalkov), remake do clássico 12 Homens em Fúria (Sidney Lumet, 1957). Depois do Oscar do ano passado atribuído a The Departed – Entre Inimigos, comprovou-se que os remakes têm uma palavra a dizer. Dar o Oscar a este filme pode ser entendido como o prémio que ficou a faltar à obra-prima de Sidney Lumet. Por último, Katyn, do polaco Andrzej Wajda, vencedor de um Oscar Honorário em 2000. O filme trata sobre os massacres de Katyn Forest durante a II Guerra Mundial, nos quais milhares de oficiais polacos foram chacinados pelo exército soviético que, por sua vez, culpabilizou os alemães. Apesar de Beaufort e The Counterfeiters, e Wajda já ter um Oscar, Katyn tem algumas hipóteses. Sem um peso pesado, esta categoria está up for grabs.

Na categoria de Melhor Documentário, o nome de Michael Moore não tem o significado de outros tempos. Há uns anos, a sua vitória era mais que certa. Mesmo quando não foi nomeado por Fahrenheit 9/11, todos acreditavam que o filme teria ganho se fosse elegível. Hoje, apesar do enorme sucesso de Sicko, o ovo não está tão dentro do dito cujo da galinha como seria de esperar. Isto por culpa de dois documentários: No End In Sight (Charles Ferguson), sobre os erros que estiveram por detrás da decisão da ocupação do Iraque, vencedor em Sundance e no National Society of Film Critics, e Taxi To The Dark Side (Alex Gibney), uma poderosa investigação sobre a tortura levada a cabo pelos oficiais norte-americanos no Iraque e Afeganistão, vencedor nos Writers Guild, para Melhor Documentário. Operation Homecoming: Writing the Wartime Experience (Richard Robbins), apesar de versar sobre o Iraque, será o menos favorito dos três sobre este tema. War/Dance (Sean Fine e Andrea Nix), sobre um grupo de crianças refugiadas no Uganda, órfãs da guerra civil, que concorrem numa competição nacional de dança, tem todas as características de um outsider. No entanto, no ano em que Bush abandona a Casa Branca, o Oscar deve ir parar às mãos de quem o critique. Como Moore já tem um, talvez No End In Sight veja aqui o início de um final feliz.

Antes de falarmos do Melhor Filme, olhemos a categoria de Melhor Realizador. Amanhã de manhã, as considerações sobre os nomeados à principal estatueta não serão muito rebuscadas. Por esta altura, já todos saberão os trunfos e as vicissitudes de cada um. A última cartada pode estar nesta categoria de Melhor Realizador. Por isso mesmo, convém analisar as potencialidades destes cinco que se distinguiram na direcção de um filme.
Desta feita, comecemos por aquele que tem menos hipóteses. Jason Reitman. Reitman não tem culpa do épico de Paul Thomas Anderson nem da visão grandiosa dos Coen. Apesar de Juno carregar a beleza de um filme indie como mais nenhum, a formiga ainda não tem catarro para fazer frente a outros que cuja experiência dá voltas de avanço. Por muito bom que Juno seja, e considerando mesmo que ganha o Oscar de Melhor Filme (amanhã direi porque acredito na vitória desta pequena obra), se Reitman ganhar, teremos um motim nas ruas de Los Angeles. Este ainda não é o seu momento. Depois temos Julian Schnabel (O Escafandro e A Borboleta). Vencedor do prémio de melhor realizador em Cannes e tendo arrebatado também o Globo de Ouro, porque carga de água é que Schnabel não é um dos principais favoritos? Acima de tudo, porque é o único cujo filme não está nomeado para a principal estatueta. Só por duas vezes é que o vencedor não realizou um título nomeado para o Oscar de Melhor Filme: Lewis Milestone (Two Arabian Knights, 1927/1928) e Frank Lloyd (The Divine Lady, 1928/1929). Algo a fazer praticamente 80 anos. Apesar das nomeações para Melhor Fotografia, Montagem e Argumento Adaptado, falta aquela que faria toda a diferença. Tony Gilroy dificilmente ganhará por Michael Clayton. As vezes que se atribuiu esta estatueta no primeiro filme de um cineasta, atrás das câmaras, contam-se pelos dedos de uma mão: Delbert Mann (Marty, 1955), Jeromme Robbins (Amor Sem Barreiras, 1961), Robert Redford (Ordinary People, 1980), James L. Brooks (Laços de Ternura, 1983), Kevin Costner (Danças Com Lobos, 1990) e Sam Mendes (Beleza Americana, 1999). Bom, não será bem pelos dedos de uma mão, visto terem sido seis. Contudo, colocar Gilroy neste grupo de notáveis, premiados no seu ano de estreia, parece-nos irreal. Para além do mais, ao vermos os ilustres a quem isto aconteceu, não podemos deixar de constatar que a obra leva para casa o Oscar de Melhor Filme. Neste momento, Uma Questão de Consciência não reúne tanto favoritismo. E, eis que a corrida fica reduzida a dois. De um lado, os triunfantes irmãos Coen, vencedores do Directors Guild, BAFTA, Satellite Awards e inúmeros círculos de críticos. Diz-se que, ao pé do arrepiante Haverá Sangue, Este País Não É Para Velhos parece um clássico da Era Dourada. No entanto, aquele que é o principal trunfo de Ethan e Joel Coen, pode também ser a principal contrariedade. Não dar-lhes o Oscar poria certamente toda a gente a falar da roubalheira que foi, e que Paul Thomas Anderson não merecia. Se há coisa que a Academia gosta, é de criar este tipo de enredos. Veja-se o que aconteceu com Martin Scorsese. Se Hollywood estiver à procura do próximo Marty, apesar de Tim Burton já estar na poule position, que comece por premiar amanhã outro que não os irmãos. Ficamos com tema de conversa para as próximas décadas. Por último, Paul Thomas Anderson. Se PTA não ganhar por Haverá Sangue muitos perguntar-se-ão que raio é que o homem precisa fazer para ganhar a estatueta. Um épico desta natureza justifica o reconhecimento. Melhor, justificaria, se do outro lado não estivesse alguém com o apelido Coen. A recepção mista junto da crítica, pode fazer a diferença. Apesar do público ter caído aos pés deste magnifico trabalho, Hollywood é uma cidade velha. Trocadilho básico que serve, no entanto, para ilustrar a nossa aposta.
Grande ano, meus senhores. Grande ano.
Alvy Singer
Etiquetas: Oscares
2 Comments:
Grande ano, grandes filmes.
Não me arrisco em apostas!!!
Bem, sem dúvida nenhuma, este ano foi um grande ano para o cinema.
Grandes filmes, grandes interpretações...
Se diziam que o cinema de Hollywood estava em crise(e quem fala do cinama norte-amoericano também fala do europeu), este ano serviu para calar muitas bocas despropositadas.
As minhas apostas são:
Melhor filme:
Atonement
Melhor actor:
Daniel Day-Lewis
Melhor actor secundário:
Javier Bardem
Melhor actriz:
Marion Cotillard
Melhor actriz secundária:
Saoirse Ronan
Melhor realizador(s):
Irmãos Coen
Melhor argunmento adaptado:
Atonement
Melhor argumento:
Juno
Melhor banda sonoroa:
Atonement
Melhor fotografia:
The assassination os Jesse James(...)
Melhores efeitos especiais:
Transformers
Melhor filme de animação:
Ratatoille
Melhor filme estrangeiro:
12
Melhor documentário:
Sicko
Estão lançados os dados e seja feita a minha vontade! LOL
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