Deuxieme


sábado, janeiro 31, 2009

Revolutionary Road.

Certos filmes dão para dois dedos de conversa. Outros, para uma tarde inteira que se prolonga pela noite dentro. No entanto, só alguns têm a capacidade de alimentar um diálogo para toda a vida. Revolutionary Road é um desses títulos. Duas semanas depois, os danos colaterais do filme de Sam Mendes continuam por averiguar. Os relatórios preliminares falam em devastação completa. Não devem estar longe da verdade. A adaptação do romance de Richard Yates atropela-nos sem piedade, qual Boeing 747 prestes a descolar – a alegoria, carecida de qualquer perspectiva idílica, pretende apenas atestar a crueldade da narrativa. Este é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior filme para ver num first date. O melhor, porque podemos provar logo ali, in loco, que aquilo que vemos no grande ecrã não passa de um relato de tempos idos. Em pleno século XXI, já não existem dramas como este nos subúrbios. O pior, porque deve ser o mais próximo que existirá de olhar para uma bola de cristal. Tal como a obra de Yates, o filme de Mendes toca num ponto sensível. Demasiado sensível. E, no plano da relação que conduz o filme, Mendes tem o cuidado de preservar sempre uma via de identificação com as personagens. No inicio da obra, recorde-se, Frank e April são apenas dois jovens numa festa. A mais comum das condições, numa grande cidade norte-americana do pós-guerra. A partir daí, o sonho torna-se real, e começa o descalabro. A crítica ideal deveria ser um mero diagnóstico, desprovido de qualquer ensaio ou razão resultante da experiência. Uma análise fria e distante, de todos os elementos que compõem a mise en scène, da adequabilidade da banda sonora, e da precisão das interpretações. Um texto onde não entram concepções particulares sobre o rumo dos acontecimentos. Com Revolutionary Road levantam-se obstáculos a essa tarefa. Seja no trabalho intocável de Sam Mendes, no desempenho soberbo do leque principal de actores, na fotografia cuidada de Deakins, na banda sonora extraordinária de Thomas Newman, ou na direcção artística perfeccionista de Debra Schutt, Revolutionary Road entra pela porta grande nos anais da História da Sétima Arte. A Academia de Hollywood esqueceu-se dele, e de muitos que nele intervêm. Uma observação mais pormenorizada ao filme poderá ser encontrada no próximo número da revista. Neste texto, este que se assina gostaria apenas de sublinhar que, até ao momento, este é o filme do ano. E, tem o melhor final de qualquer película, desde Uma História de Violência (David Cronenberg, 2005).

Bruno Ramos

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11 Comments:

Blogger Fernando Ribeiro said...

Acho que de tudo o que tenho vindo a ler neste blog, que acompanho sempre mas que só agora comento, este é, sem dúvida, dos melhores posts que já escreveste Bruno. Porque o filme merecia mesmo estas palavras. Concordo em plenamente tudo. O facto da Academia se ter esquecido este filme, é algo que realmente não compreendo. Mas enfim... Continuação do excelente trabalho, tanto no blog como na Premiere.

Abraço.

http://ante-cinema.blogspot.com/

1 de fevereiro de 2009 às 02:25  
Anonymous ana said...

incompreensivel, o esquecimento da academia para com este filme. o melhor do ano, so far. desconfortavel, mas o melhor, sem duvida.

1 de fevereiro de 2009 às 15:27  
Anonymous César said...

Esta é também a realidade que eu extraio deste filme. A dureza das palavras e das imagens entra-nos peito adrento qual bala lançada por um atirador furtivo e muito certeiro (desta feita, Sam Mendes). A chaga continua aberta e ele com a ajuda de um elenco que atingiu um nível extraordinário, metem-lhe o dedo até ao fundo, desprovidos de qualquer piedade. O resultado é um produto refinado e extremamente bem conseguido. Nao reitero agora a minha opiniao sobre a excelencia de Kate Winslet e do sofrimento que transmite sem apenas falar. É sim, o grande do ano e também o escandalosamente esquecido... ainda que eu prefira pensar que foi evitado, porque demonstra um impacto que a sociedade made in USA nao aguantou. O esquecimento representaría outra coisa. E este nao é um filme para esquecer. Nao quero entrar agora em comparaçoes, mas, será mesmo que Revolutionary Road nao merecia um lugar mais soleado no reconhecimento que determinadas entidades lhe (nao) prestaram (Academia incluida)?

1 de fevereiro de 2009 às 16:03  
Anonymous Paulo said...

Inteiramente subscrito!!
O melhor filme que vi este ano!

1 de fevereiro de 2009 às 16:33  
Anonymous Ines said...

Quero mesmo ver esse filme. Como não o vi, posso dizer apenas que tambem acho incompreensivel o facto de Changeling nao ficar nomeado para Oscar. http://sinkingbelle1.blogspot.com/

1 de fevereiro de 2009 às 21:29  
Blogger Miguel Ferreira said...

Quando o vi não me deu o soco esperado. Porém, passado um dia, a coisa começou a crescer e a roer-me por dentro, entranhando-se nos lugares mais esquecidos do pesamento. E dou por mim a pensar nisso.

O casal está bem, mas o filme é de Winslet. Di Caprio continua a não me convencer, é um bom actor com óptimas obras mas continuo-o a ver muito colado ao registo de sempre.

1 de fevereiro de 2009 às 21:51  
Anonymous Paulo said...

Por isto no sitio certo:

Fui ver ontem (29 janeiro) Revolutionary Road. Apesar do peso desconfortável com que saí do cinema (é mesmo isto que eu gosto num filme, causar emoção) achei o filme arrebatador! E confirma-se que DiCaprio está no seu melhor. Depois de ver The Curious Case of Benjamin Button, posso assegurar com toda a certeza que entre a interpretação de Pitt e DiCaprio vai uma distância de "parsecs". Enquanto a interpretação do 1º é assegurada (e bem) pela caracterização, a do 2º revela-se duma naturalidade espontânea e duma emoção e uma força arrebatadora! Nunca tendo sido grande fã de DiCaprio, rendo-me a este desempenho. Só não percebo como ficou de fora nas nomeações para os Oscares! Quanto a Winselt, o "subb" por Revolutionary Road só pode traduzir uma representação acima da perfeição em The Reader! Do melhor que alguma vez vi!

1 de fevereiro de 2009 às 23:40  
Blogger João Bizarro said...

É um bocado estranho não estar nomeado aos principais Oscars!

2 de fevereiro de 2009 às 00:00  
Blogger l00ker said...

concordo plenamente com o que disse o Miguel Ferreira, excepto no que respeita a Leonardo di Caprio. O filme é de Kate winslet E de di Caprio, que mais uma vez mostra a fibra de que é feito (penso que o Óscar é uma questão de mais ano menos ano)

2 de fevereiro de 2009 às 09:35  
Anonymous Ricardo Silva said...

Acabei agora de o ver.É muito,muito bom mas está longe de ser perfeito.O problema está a meu ver no final do filme,abrupto,de rompante e previsivel e no conservadorismo narrativo que Mendes deu ao filme.O filme não tem a criatividade formal que precisava para atingir o patamar máximo.O curioso é achar que apesar de estarem ambos os actores notáveis(é o melhor do filme)penso que assisti(a par de "Apanha-se Se Puderes")ao melhor desempenho da carreira de Leonardo DiCaprio.Acho DiCaprio dos melhores actores jovens e neste filme está mesmo perfeito.A cada filme que faz melhora de uma forma impressionante e neste atingiu o seu auge interpretativo.
Acho Winslet intensa mas não é nem de perto das melhores e mais notáveis personagens que ela já fez até agora.A meu ver,aqui esteve dentro do registo "normal" o que é sempre muito bom,eu que sou grande fã dela,é das três actrizes minha predilectas.O guião de facto é bastante bom mas é excessivamente melodramático e falta-lhe criatividade.Mesmo assim,é um filme muito bom sobretudo com uma magnifica direcção de actores.Acho que faltou outro realizador para dar a dimensão total ao filme.

2 de fevereiro de 2009 às 21:18  
Anonymous Ana S. said...

Concordo plenamente! o filme é mesmo muito bom, não percebo como não foi nomeado para os oscares. Já no ano passado fiquei desiludida por não ver o reconhecimento de "Into the Wild", e este ano senti o mesmo para "Revolutionary Road". Não entendo...

11 de fevereiro de 2009 às 15:10  

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