CALL GIRL, de António-Pedro Vasconcelos
O MELHOR DIÁLOGO DO ANO DO CINEMA PORTUGUÊS
Vasco: Pensava que as putas não beijavam na boca.
Maria: Há sempre uns cabrões que nos obrigam a fugir à regra.
Aparentemente Call Girl é mais uma forte jogada, futebolisticamente falando, de António-Pedro Vasconcelos, para reconciliar o público como cinema português, embora a estreia do filme esteja prevista para o último fim de semana de Dezembro, uma data talvez pouco apropriada para grandes enchentes de público. Envolvente, sensual, como a sua protagonista Soraia Chaves — que brilha principalmente pela fotogenia, e por uma surpreendente capacidade de interpretação, digam o que disserem não é facil mesmos com seus os atributos físicos — Call Girl é um belo filme e talvez o melhor que estreou este ano, já que aproxima dos géneros americanos, mas que nos conduz ao mesmo tempo, para uma história que tem algo a ver com a nossa realidade nacional: a corrupção política, a especulação imobiliária e a prostituição de luxo.
Nicolau Breyner afirma-se mais uma vez como o maior (e mais solicitado) actor português do momento, ao lado do jovem Ivo Canelas, num papel brilhante, bem tarantinesco de um ‘judite’ rebelde, que quase cai nas teias da ‘mulher aranha’. Tal como a maioria dos filmes de APV, Call Girl peca talvez, por uma meia-hora a mais de duração, com algumas sequências que pouco interessam à história e fazem perder um pouco o ritmo à narrativa.
Call Girl é ainda uma subtil homenagem (ou quase uma sequela) de De Uma Vez Por Todas de Joaquim Leitão, ( realizador que faz uma pequena aparição aqui como actor), um filme que marcou também uma época de tentativa de reconciliação do público com os filmes portugueses, aliás como O Lugar do Morto de António-Pedro Vasconcelos. Ou seja uma história envolvente, com contornos policiais e eróticos, cuja a protagonista era uma sedutora call girl, que enfeitiçava Pedro Aires de Magalhães, e que na vida real se chamava Vicky, uma jovem modelo, então em ascensão que acabou por morrer pouco depois da estreia do filme, em circunstâncias pouco esclarecidas. Também uma tendência clara, a evitar é o excesso de palavrões, que já começa a ser um lugar comum nos diálogos dos filmes portugueses, parecendo querer dar mais realismo às personagens, apenas pelo facto de elas insistirem na linguagem fácil.
JVM
Etiquetas: António-Pedro Vasconcelos, Call Girl


