Inqualificável.
Volta e meia gosto de recordar o discurso de agradecimento de George Clooney, aquando do seu triunfo nos Óscares pelo desempenho em Syriana. Clooney aproveitou esses dois minutos, como é habitual, para enaltecer o trabalho daqueles que o acompanharam nesse projecto, reconhecendo que aquele foi o resultado do esforço de toda uma equipa. Até aqui, tudo seguiu os padrões normais. Contudo, já perto do fim do discurso, Clooney aproveitou para vincar o seu orgulho por pertencer a uma indústria que, muitas vezes, toma a dianteira em relação ao mundo. Clooney deu mesmo exemplos de quando o cinema foi o primeiro a falar de uma realidade por descobrir, quando foi o primeiro a denunciar um comportamento, a incentivar um movimento, a premiar quem nunca havia sido premiado, a dar voz àqueles que nunca se tinham feito ouvir. Gosto de recordar este discurso, pela maneira simples com que ele nos demonstra como esta pode ser uma arte nobre, assente em valores que deviam ser os de todos. Um bom filme, uma boa história, é aquela que faz isto tudo pular e avançar, como a bola do outro. Com o dom da palavra, Clooney certamente terá relembrado alguns dos executivos desta indústria, por que razão se apaixonaram por ela quando eram crianças.
Quem não deve ter ouvido este discurso foi Jeff Robinov, Presidente da produção da Warner Brothers. Isto porque Robinov veio, recentemente, dizer ‘We are no longer doing movies with women in the lead’. Com todas as letras. A razão desta decisão passa, única e exclusivamente, pelo fraco resultado nas bilheteiras dos Estados Unidos, de The Brave One, com Jodie Foster como protagonista, e The Invasion, com Nicole Kidman num dos principais papéis. A este facto também não deverá ser alheia a critica de que foi alvo Superman Returns, pelo lado excessivamente feminino e sem acção da obra.
Já por diversas vezes falámos neste espaço dedicado ao cinema, de algumas decisões questionáveis. Creio que esta é a primeira vez que falamos numa decisão ignóbil. Robinov afirma, sem qualquer reserva, nem sequer se dignar a abrir um argumento que tenha uma mulher num papel principal.
De facto, Orson Welles tinha razão em fazer aquele filme. Em muitos casos, o dinheiro acaba por ser, infelizmente, a principal motivação. Estamos em crer que não terá sido a pensar apenas nas bilheteiras que, este ano, Sarah Poley decidiu fazer Away From Her, ou que Adrienne Shelly decidiu fazer Waitress, ou que John Carney decidiu fazer Once, ou que Kevin Lima decidiu fazer Enchanted, ou que Jason Reitman decidiu fazer Juno, ou que Robin Swicord decidiu fazer The Jane Austen Book Club, ou que David Auburn decidiu fazer The Girl in The Park. Talvez tenha sido também pela história. E ainda bem.
Alvy SingerEtiquetas: George Clooney Jeff Robinov, Superman Returns, The Brave One, The Invasion



4 Comments:
Grande decisão, sim senhor. Era marcar um encontro com 'The Bride', para ver se ele mudava de ideias.
Há que compreender aqui algo: criar um filme que tenha uma personagem feminina mas que seja tão ou mais forte que uma personagem masculina é de extrema dificuldade. Quer dizer, extrema não digo, mas que é muito complicado lá isso é.
Sabemos que a personagem feminina por norma é mais frágil e que corre sempre mais riscos mas que há sempre alguém que a salve, e não é uma outra mulher que o faz, mas sim um homem. Quando se vai ver um filme em que temos um homem musculado que rebenta com tudo é mais fácil de nos identificarmos ou levarmos o filme de maneira mais descontraída e mesmo pensar que é totalmente correcto que tal situação venha a acontecer, porque vendo bem, estamos perante um homem que é forte e tem coragem e valentia suficiente para fazer o que faz.
Agora, imaginem colocar uma mulher a rebentar com tudo só porque sim (tal como em muitos filmes de acção com personagens masculinas) e no fim sai ilesa sem um arranhão e ainda salva o amor da sua vida. Sim, é estranho. Parece que os papéis foram invertidos.
Passo a explicar: quando se cria um filme de acção ou que seja, onde uma personagem feminina é a heroína do dia e salva todos não pode ser uma perfeita estranha que chegou ali e salvou tudo e todos. Tem de se criar um bom argumento que mostre o quanto forte ela é. Não basta músculos, porque aliás, não há muitas actrizes por ai que sejam tão musculadas que se perceba que elas são fortes. Também tem de haver uma explicação lógica para ela ter tanto conhecimento nas coisas que faz. Com os homens, tudo se resolve com um "Já fui policia/bombeiro/marinheiro/militar/assassino/pau para todo o trabalho" e o espectador pensa "Ah ok... ele foi X". Uma mulher policia mata tudo e todos? Pff! Uma militar? Isso existe? Nós bem vimos como era a Demi Moore e os seus belos atributos... isso bastou para ser completamente lógico que ela conseguia fazer tudo, porque hipnotizava os adversários... (*ironia*).
Penso que a desculpa de não irem fazer mais filmes (ou fazerem menos filmes) com personagens femininas deve-se ao facto que ninguém está para queimar as pestanas a criar um bom argumento mas sim criar um filme que seja rentável. "Ah e tal não vamos fazer filmes com mulheres nos principais papéis porque elas não foram feitas para isto". Isto = Filmes rentáveis.
O presidente de produção da WB o que disse com todas as letras foi mesmo que não estava era a fazer filmes que não rendam o suficiente. O resto é como que usar maquilhagem em homens para disfarçar uma verdade que não lhes interessa...
Kill Bill e Domino são exemplos recentes de que isto é uma idiotice.
Há muitos outros, George Cukor, Pedro Almodovar...
Enfim... Como se viu com a "descontinuação" da revista, para mim cinema não são só cifrões.
Não defendendo aqui o Homem, a verdade é que ele disse a bom dizer o que todos aqueles que gerem esta indústria pensam!!
Esta deve ser uma das razões pelas quais Halle Berry não fez um Spin-Off com Jinx, vinda do filme Die Another Day, e também porque Michelle Rodriguez não foi a agente Triple X, num possivel XXX3...
Anjos de Charlie é um exemplo a acrescentar a Kill Bill e Domino, como foi dito.
Mas no entanto, penso que isto só se aplica a filmes de acção, porque filmes de outros géneros, esta situação não será tão gritante!!
Penso é que isto acontece não por culpa das produtoras, mas por culpa dos visionadores: nós! Tal como o Marco disse, e com razão, somos nós que comentamos ao amigo do lado se esta ou aquela situação é ou não credivel...
As produtoras só vão ao encontro disso! É mais seguro fazê-lo, do que arriscar! Isto é como o nosso orçamento caseiro! Quem só tem dinheiro para um Renault Clio (sem desprimor, obviamente), não vai comprar um Mercedes! É arriscado...
Fazer filmes, de acção com mulheres na presonagem principal, é uma situação de ter para um Clio e comprar um Mercedes!
E como são os blockbusters que pagam todos os outros filmes, não se pode arriscar muito.
Agora, nem 8 nem 80. Quando um filme é bem feito, de certeza que terá as suas compensações. E se o filme de Jodie Foster é tão bom como parece se, não será um fracasso certamente!
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