Estreia da semana: The Brave One
 Quando menos se espera, uma surpresa surge no nosso caminho, e no cinema sucede-se exactamente o mesmo – somos confrontados diariamente com novidades sobre esta indústria e arte e, perante novos dados que ficamos a saber, as opiniões começam a formar-se.
Quando soube que Neil Jordan (um realizador que aprecio sinceramente pelo trabalho multifacetado) iria fazer um novo filme com Jodie Foster fiquei curioso. Com a chegada do trailer fiquei com a sensação que teríamos um bom filme para ver.
E ainda que esperasse já uma boa sessão, fiquei ainda assim mais satisfeito do que julgava. Porque Neil Jordan é um realizador com noção do que a arte onde trabalha lhe exige, e como tal, sabe munir-se das ferramentas certas para fazer o seu trabalho – neste caso falo especificamente de Jodie Foster. Em poucas linhas, o filme conta-nos a história de Erica Bain (Foster), uma jornalista de rádio bem sucedida, que sofre um terrível ataque da parte de um grupo de vândalos, que a surpreendem a si e ao seu namorado David (Naveen Andrews), numa noite em que passeavam com o seu cão num jardim público em Nova Iorque. Sem qualquer tipo de razão, os dois são brutalmente espancados e como resultado, Erica acorda de um coma passadas 3 semanas no hospital, para saber que o seu namorado não resistiu aos ferimentos e faleceu. Perante esta revoltante realidade, Erica irá tentar refazer a sua vida, mas cedo descobre que jamais poderá ser a mesma pessoa e, sem se aperceber, viaja pela imensidão da condição humana e descobre em si a necessidade de fazer justiça face ao impasse das autoridades, e num ápice, torna-se uma vigilante. Pelo meio da sua recuperação física e psicológica, Erica vai-se cruzar com o detective Mercer (Terrence Howard), que se encontra de mãos atadas e a pretende ajudar, ao mesmo tempo que luta para que a justiça impere nas ruas.
Com esta premissa, Neil Jordan mergulha o espectador num rio de problematização sempre actual – a que nível funciona o conceito de justiça? De que forma pode este ser singular ou plural na mente das sociedades? Nos olhos de Erica Bain reflecte-se o medo contemporâneo, a face do mundo de hoje, que se alimenta do constante desentendimento entre os homens e as civilizações, que nos faz entender a questão de acção/reacção que é inerente à história, e que tão bem funciona como espelho da identidade humana. Quer nas personagens de Erica ou de Mercer, é visível em ambos que necessitam de manter viva a ideia de justiça, a questão prende-se com o facto do limite que esta impõe, que a separa de bem e mal, e que nos remete a nós para uma procura interior em simultâneo.
Jodie Foster brilha no ecrã durante duas horas, e mostra uma vez mais porque é uma das maiores actrizes de sempre. O seu olhar tem uma força espontânea e que nos transmite um mar de sensações contraditórias onde a carência e a incompreensão reinam sem precedentes. Falamos de uma alma perdida que se tenta encontrar, e quanto mais mergulha na escuridão nos remete para um point of no turning back. Mas Neil Jordan, como sábio contador de histórias, dá-lhe um toque final fiel aos mundo das emoções, da esperança e da redenção, espaços que afinal conseguem caber dentro da alma humana do homem, duma sociedade, de um mundo.
Esta é uma das estreias desta semana, uma óptima surpresa que entra sem dúvida para a lista dos 10 melhores que este ano já estrearam entre nós. E espero bem que o Óscar de Melhor Actriz não fuja a quem realmente pertence. É ver para crer.
Francisco Silva Etiquetas: Jodie Foster, Neil Jordan, The Brave One
Inqualificável.
Volta e meia gosto de recordar o discurso de agradecimento de George Clooney, aquando do seu triunfo nos Óscares pelo desempenho em Syriana. Clooney aproveitou esses dois minutos, como é habitual, para enaltecer o trabalho daqueles que o acompanharam nesse projecto, reconhecendo que aquele foi o resultado do esforço de toda uma equipa. Até aqui, tudo seguiu os padrões normais. Contudo, já perto do fim do discurso, Clooney aproveitou para vincar o seu orgulho por pertencer a uma indústria que, muitas vezes, toma a dianteira em relação ao mundo. Clooney deu mesmo exemplos de quando o cinema foi o primeiro a falar de uma realidade por descobrir, quando foi o primeiro a denunciar um comportamento, a incentivar um movimento, a premiar quem nunca havia sido premiado, a dar voz àqueles que nunca se tinham feito ouvir. Gosto de recordar este discurso, pela maneira simples com que ele nos demonstra como esta pode ser uma arte nobre, assente em valores que deviam ser os de todos. Um bom filme, uma boa história, é aquela que faz isto tudo pular e avançar, como a bola do outro. Com o dom da palavra, Clooney certamente terá relembrado alguns dos executivos desta indústria, por que razão se apaixonaram por ela quando eram crianças. Quem não deve ter ouvido este discurso foi Jeff Robinov, Presidente da produção da Warner Brothers. Isto porque Robinov veio, recentemente, dizer ‘We are no longer doing movies with women in the lead’. Com todas as letras. A razão desta decisão passa, única e exclusivamente, pelo fraco resultado nas bilheteiras dos Estados Unidos, de The Brave One, com Jodie Foster como protagonista, e The Invasion, com Nicole Kidman num dos principais papéis. A este facto também não deverá ser alheia a critica de que foi alvo Superman Returns, pelo lado excessivamente feminino e sem acção da obra. Já por diversas vezes falámos neste espaço dedicado ao cinema, de algumas decisões questionáveis. Creio que esta é a primeira vez que falamos numa decisão ignóbil. Robinov afirma, sem qualquer reserva, nem sequer se dignar a abrir um argumento que tenha uma mulher num papel principal. De facto, Orson Welles tinha razão em fazer aquele filme. Em muitos casos, o dinheiro acaba por ser, infelizmente, a principal motivação. Estamos em crer que não terá sido a pensar apenas nas bilheteiras que, este ano, Sarah Poley decidiu fazer Away From Her, ou que Adrienne Shelly decidiu fazer Waitress, ou que John Carney decidiu fazer Once, ou que Kevin Lima decidiu fazer Enchanted, ou que Jason Reitman decidiu fazer Juno, ou que Robin Swicord decidiu fazer The Jane Austen Book Club, ou que David Auburn decidiu fazer The Girl in The Park. Talvez tenha sido também pela história. E ainda bem. Alvy Singer Etiquetas: George Clooney Jeff Robinov, Superman Returns, The Brave One, The Invasion
Jodie Foster, The Amazing One
 A estreia está marcada para dia 18, mas perante um visionamento prévio a que hoje assisti, obtive uma confirmação e uma surpresa: sim, confirma-se; The Brave One é um grande filme. A surpresa? É um dos melhores que vi este ano, e bem pode ser um dos melhores de qualquer ano. Mas “melhores” dentro de um top 5. Neil Jordan volta a mostrar que é um grande contador de histórias e um excelente director de actores.
Mas tudo isto se resume a uma peça-chave: Jodie Foster. Capaz das mais variadas interpretações, e de arrancar do espectador o mais encantador ou sombrio sentimento, Jodie presenteia-nos durante duas horas com um dos seus maiores momentos de sempre; sobre si se encerram as mulheres, os homens, os cidadãos do mundo, a vingança, a justiça, o desencantamento e, sobretudo, o rosto humano da actualidade.
Dia 18 (desta quinta a uma semana) deixo-vos uma análise completa e crítica, já estou a prever polémica entre o público. Para mim, o Óscar de Melhor Actriz deste ano já tem nome.
Francisco Silva Etiquetas: Jodie Foster, The Brave One
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