Deuxieme


segunda-feira, fevereiro 18, 2008

27 - O Mais Selvagem Entre Mil (Martin Ritt, 1963).

No primeiro esboço desta Carta vários foram os filmes sonantes presentes. Verdadeiros colossos da sétima arte que marcaram de forma indelével a História do Cinema. Quando a ideia grotesca de escolhermos apenas trinta filmes nos invade a mente, rapidamente nos apercebemos que a melhor maneira de encarar esse repto é não olhar a nomes. Não olhar a prémios. Não pensar no número de vezes que determinada obra figurou nas restritas listas do American Film Institute. É no preciso momento em que o The End surge no grande ecrã, que se definem os grandes filmes. Para os outros, e para nós. Ao elaborar este rol de trinta aulas que perfazem a carta de condução que habilita qualquer cinéfilo a assumir as rédeas de um qualquer bólide, até mesmo de um Ran F360 – fica aqui a sugestão para o próximo protótipo da Ferrari –, desde cedo ficou definido que o desempate seria sempre o maior ou menor aperto no coração quando o filme termina. Porque, convenhamos, há filmes que terminam com um emaranhado de nós nas emoções. Aquilo é tristeza, espanto, alivio, alegria, redenção, deslumbramento, pesar, medo, júbilo, por aí fora. Quanto mais forem as emoções à flor da pele, melhor. È sinal que o filme atingiu os seus propósitos. Em Cannes, as ovações no final da apresentação funcionam como barómetro para avaliar o sucesso. Se a audiência fosse constituída apenas por Alvys Singers, todos pensariam que os títulos em competição eram uma lástima. Isto porque um filme é tanto melhor quanto mais tempo demoro a reagir após o final. Um bom filme é aquele que termina e começamos a falar com a pessoa do lado. Agora, aquele que recordaremos para todo o sempre, a obra-prima, é aquele filme que retira dez minutos à nossa vida, quando saímos da sala e ficamos aquele tempo todo até conseguir articular uma palavra. Este filme talvez não seja o menos conhecido desta Carta, no entanto, não andará longe disso. Se esta alusão for suficiente para chatear alguém, e obrigá-lo a mexer-se para ver esta obra, então a sua eleição está mais do que justificada.

Porém, outras razões estiveram por detrás da escolha de O Mais Selvagem Entre Mil (Martin Ritt, 1963), o western moderno que mais não é do que um verdadeiro diamante em bruto. Se há filmes polidos de uma ponta à outra, este não é um deles. Baseado na obra de Larry McMurtry, o filme apresenta-se como uma passadeira de virtuosismos, que vai desencobrindo pequenas relíquias a cada esquina, a cada deixa, a cada plano. No final, percebemos porque é que este não é um filme adorado por muitos, mas amado por todos aqueles que já tiveram a sorte de o ver.

Este é o filme ideal para todos aqueles que apreciam um bom anti-herói, daqueles que respiram imodéstia e arrogância. Ao mesmo tempo, serve também as necessidades de todos aqueles que procuram a personagem moral e sensata, com a mais sábia das palavras para qualquer situação. Este confronto entre o filho rebelde Hud (Paul Newman) e o pai ponderado Homer (Melvyn Douglas), tem todos os condimentos de um Yin Yang. A Alma de Patrícia Neal funciona às mil maravilhas como a sensual doméstica que vai caindo, a espaços, na atracção de Hud, para logo a seguir voltar à repulsa habitual. Pelo meio ainda temos o infante Lonnie Bannon (Brandon de Wilde), o verdadeiro advogado do diabo no meio disto tudo. É difícil avaliar a importância que este filme terá tido no início dos anos 60, quando o conflito geracional estava prestes a eclodir. Mais de quarenta anos depois, este continua a ser um dos melhores exemplos da versatilidade de Hollywood. Apesar dos Óscares terem recaído para as interpretações de Melvyn Douglas, Patrícia Neal, e para a fotografia poeirenta de James Wong Howe, é no argumento da obra que encontramos toda a sua força. Não é qualquer filme que pode orgulhar-se desta pérola: “Why you separate the saints from the sinners, you're lucky to wind up with Abraham Lincoln”.

Alvy Singer

Etiquetas: ,

Menu Principal

Home
Visitantes
Website Hit Counters

CONTACTO

deuxieme.blog@gmail.com

Links

Descritivo

"O blogue de cinema"

  • Estreias e filmes em exibição
  • Próximas Estreias
  • Arquivos

    outubro 2006 novembro 2006 dezembro 2006 janeiro 2007 fevereiro 2007 março 2007 abril 2007 maio 2007 junho 2007 julho 2007 agosto 2007 setembro 2007 outubro 2007 novembro 2007 dezembro 2007 janeiro 2008 fevereiro 2008 março 2008 abril 2008 maio 2008 junho 2008 julho 2008 agosto 2008 setembro 2008 outubro 2008 novembro 2008 dezembro 2008 janeiro 2009 fevereiro 2009 março 2009 abril 2009 maio 2009 junho 2009 julho 2009 agosto 2009 setembro 2009 outubro 2009 novembro 2009 janeiro 2010 fevereiro 2010 março 2010 abril 2010 maio 2010 junho 2010 julho 2010 setembro 2010 outubro 2010 novembro 2010 dezembro 2010 janeiro 2011 fevereiro 2011

    Powered By





     
    CANTINHOS A VISITAR
  • Premiere.Com
  • Sound + Vision
  • Cinema2000
  • CineCartaz Público
  • CineDoc
  • IMDB
  • MovieWeb
  • EMPIRE
  • AllMovieGuide
  • /Film
  • Ain't It Cool News
  • Movies.Com
  • Variety
  • Senses of Cinema
  • Hollywood.Com
  • AFI
  • Criterion Collection