27 - O Mais Selvagem Entre Mil (Martin Ritt, 1963).
No primeiro esboço desta Carta vários foram os filmes sonantes presentes. Verdadeiros colossos da sétima arte que marcaram de forma indelével a História do Cinema. Quando a ideia grotesca de escolhermos apenas trinta filmes nos invade a mente, rapidamente nos apercebemos que a melhor maneira de encarar esse repto é não olhar a nomes. Não olhar a prémios. Não pensar no número de vezes que determinada obra figurou nas restritas listas do American Film Institute. É no preciso momento em que o The End surge no grande ecrã, que se definem os grandes filmes. Para os outros, e para nós. Ao elaborar este rol de trinta aulas que perfazem a carta de condução que habilita qualquer cinéfilo a assumir as rédeas de um qualquer bólide, até mesmo de um Ran F360 – fica aqui a sugestão para o próximo protótipo da Ferrari –, desde cedo ficou definido que o desempate seria sempre o maior ou menor aperto no coração quando o filme termina. Porque, convenhamos, há filmes que terminam com um emaranhado de nós nas emoções. Aquilo é tristeza, espanto, alivio, alegria, redenção, deslumbramento, pesar, medo, júbilo, por aí fora. Quanto mais forem as emoções à flor da pele, melhor. È sinal que o filme atingiu os seus propósitos. Em Cannes, as ovações no final da apresentação funcionam como barómetro para avaliar o sucesso. Se a audiência fosse constituída apenas por Alvys Singers, todos pensariam que os títulos em competição eram uma lástima. Isto porque um filme é tanto melhor quanto mais tempo demoro a reagir após o final. Um bom filme é aquele que termina e começamos a falar com a pessoa do lado. Agora, aquele que recordaremos para todo o sempre, a obra-prima, é aquele filme que retira dez minutos à nossa vida, quando saímos da sala e ficamos aquele tempo todo até conseguir articular uma palavra. Este filme talvez não seja o menos conhecido desta Carta, no entanto, não andará longe disso. Se esta alusão for suficiente para chatear alguém, e obrigá-lo a mexer-se para ver esta obra, então a sua eleição está mais do que justificada.
Porém, outras razões estiveram por detrás da escolha de O Mais Selvagem Entre Mil (Martin Ritt, 1963), o western moderno que mais não é do que um verdadeiro diamante em bruto. Se há filmes polidos de uma ponta à outra, este não é um deles. Baseado na obra de Larry McMurtry, o filme apresenta-se como uma passadeira de virtuosismos, que vai desencobrindo pequenas relíquias a cada esquina, a cada deixa, a cada plano. No final, percebemos porque é que este não é um filme adorado por muitos, mas amado por todos aqueles que já tiveram a sorte de o ver.
Este é o filme ideal para todos aqueles que apreciam um bom anti-herói, daqueles que respiram imodéstia e arrogância. Ao mesmo tempo, serve também as necessidades de todos aqueles que procuram a personagem moral e sensata, com a mais sábia das palavras para qualquer situação. Este confronto entre o filho rebelde Hud (Paul Newman) e o pai ponderado Homer (Melvyn Douglas), tem todos os condimentos de um Yin Yang. A Alma de Patrícia Neal funciona às mil maravilhas como a sensual doméstica que vai caindo, a espaços, na atracção de Hud, para logo a seguir voltar à repulsa habitual. Pelo meio ainda temos o infante Lonnie Bannon (Brandon de Wilde), o verdadeiro advogado do diabo no meio disto tudo. É difícil avaliar a importância que este filme terá tido no início dos anos 60, quando o conflito geracional estava prestes a eclodir. Mais de quarenta anos depois, este continua a ser um dos melhores exemplos da versatilidade de Hollywood. Apesar dos Óscares terem recaído para as interpretações de Melvyn Douglas, Patrícia Neal, e para a fotografia poeirenta de James Wong Howe, é no argumento da obra que encontramos toda a sua força. Não é qualquer filme que pode orgulhar-se desta pérola: “Why you separate the saints from the sinners, you're lucky to wind up with Abraham Lincoln”.
Alvy SingerEtiquetas: A Carta, O Mais Selvagem Entre Mil



0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home