Deuxieme


quarta-feira, fevereiro 13, 2008

28 - A Glória de Pamplinas (Clyde Bruckman e Buster Keaton, 1927).

O fascínio por este filme começa logo nos detalhes. Pela forma como a arte imita a vida. Como a vida imita a arte. Como as duas coisas se misturam para confluir numa só. Reza a lenda que Buster Keaton terá dito um dia que se não tivesse sido um comediante, teria sido engenheiro. O actor tinha uma apetência extraordinária para a mecânica e percepção visual, maravilhando constantemente as equipas de rodagem que ficavam boquiabertas com o seu recurso à física para atingir determinados gags. A sua paixão era os comboios e, sempre que fosse possível, lá arranjava uma maneira de meter aquela que era a sua máquina predilecta. Quando um membro da sua habitual equipa de argumentistas lhe ofereceu um livro baseado no roubo de um comboio, levado a cabo por um grupo de soldados do Norte, durante a Guerra Civil Americana, Keaton rapidamente encetou esforços no sentido de transpor a obra para o grande ecrã. O desejo de ser fiel à realidade, tanto quanto possível, ficou bem patente quando solicitou a verdadeira locomotiva, O General, para as filmagens. Porém, não foi possível e tiveram de se arranjar de outra maneira. O estado do Oregon, aquele que apresentava as características que ambicionava, sobretudo para o clímax do filme (considerado o take mais caro do cinema mudo), acabou por ser o escolhido.

Posto isto, a rodagem começou, e teve inicio a construção de um dos melhores filmes de todos os tempos. A história é relativamente simples: um grupo de soldados do Norte, disfarçados de sulistas, rouba a locomotiva de Johnny Gray (Keaton), O General. Nessa locomotiva, estava na altura o outro amor da sua vida, Annabelle Lee (Marion Mack). Naquela que não terá sido a decisão mais sensata que algum dia tomou, Gray decide partir sozinho e recuperar dois coelhos com uma cajadada, em território inimigo. Isto tudo depois de ter sido recusado pelo exército sulista. Resgatadas as suas preciosidades, a segunda parte do filme trata do regresso às linhas caseiras. Ou seja, temos uma primeira metade do filme para lá, e uma segunda metade para cá. Não tem nada que saber. No final, e é isso que guardamos para todo o sempre depois de ver A Glória de Pamplinas (com muito esforço não farei qualquer comentário a esta tradução), ficamos com a sensação de ter visto o filme mais completo da História. Pode não ser a melhor comédia, o melhor filme de acção, o melhor de suspense, o melhor romance, ou o melhor no estudo das personagens. Mas, muito poucos serão os filmes que poderão orgulhar-se de ter aglutinado todos estes elementos com tamanha antologia. Pessoalmente, gosto de pensar neste filme como o Die Hard do cinema mudo. Por todas estas razões, e por ter sido o primeiro filme onde ninguém fala, que me fez rir, e ao dizer rir, leia-se gargalhadas sufocantes, A Glória de Pamplinas é um dos eleitos para esta carta.

Alvy Singer

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4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Excelente filme! 10/10
Pena ser comparado ao Die Hard, que é bastante bom mas, quer dizer...

13 de fevereiro de 2008 às 22:47  
Blogger Luis Oliveira said...

Uma dúvida que eu sempre tive: por que raio há quem chame ao filme "Pamplinas Maquinista" e quem chame "A Glória de Pamplinas" ??

Tem a ver com a edição em DVD e a tradução da época? Não entendo a dualidade...

14 de fevereiro de 2008 às 00:41  
Blogger Unknown said...

A Deuxieme a escrever sobre um filme... mudo? Coisa rara, mas muito bem vinda. Isso é serviço público de cultura. Acho que só tinham a ganhar caso não escrevessem apenas sobre actualidade cinematográfica, mas também sobre a história do cinema em geral, e do período mudo em particular. E escrever sobre uma obra-prima absoluta como "The General" do genial Keaton, é de louvar.
Conitnuem nesta senda.
Saudações cinéfilas,
VA

14 de fevereiro de 2008 às 20:57  
Blogger Alvy Singer said...

Anónimo, apesar de forçada, creio não tratar-se de uma comparação que embarace muito ‘A Glória de Pamplinas’. É claro que se calhar estamos a por o ‘Die Hard’ em bicos dos pés, mas, tenho para mim que daqui a um século, a palavra Clássico cairá bem a qualquer um dos dois.
Luís, confesso que nunca tinha conhecido outro nome a este filme. Depois do comentário, andei pela net a ver umas coisas e, de facto, parece que o filme chegou cá com o título ‘Pamplinas Maquinista’. Desconheço as razões para esta dualidade. Será esta a prova física de um universo paralelo?
Obrigado, Homem Que Sabia Demasiado. Nos próximos tempos visitaremos mais o passado, isso podemos garantir.

15 de fevereiro de 2008 às 13:18  

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