Deuxieme


segunda-feira, março 10, 2008

26 - O Aeroplano (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, 1980).

Ainda há procura das melhores definições – isto das formatações, e de um tipo trocar Mozillas por Explorers, não traz nada de bom –, o primeiro post depois do hiato (palavra arranjada à socapa no dicionário do Windows) inoportuno, teria de ser sobre A Carta, um segmento que, apesar de ainda não ter reunindo a popularidade de outros, é aquele que mais gozo tem dado desde o inicio deste espaço. Sobretudo porque trata de memórias, daqueles primeiros títulos que nos levaram a tirar os pés do chão, e voar para outras galáxias. Sempre senti uma enorme proximidade com a sublime Cocaine de Eric Clapton, porque desde cedo me habituei a substituir o vocábulo que o génio cantava pelo nome da obra-prima referenciada neste post. Basta mudar isso, e é toda uma identificação que surge com a música. Depois de L.A. Confidential (Curtis Hanson, 1997), O Rei Leão (Roger Allers e Rob Minkoff, 1994), A Glória de Pamplinas (Buster Keaton e Clyde Bruckman, 1927) e O Mais Selvagem Entre Mil (Martin Ritt, 1963), é chegada a altura de abordarmos a primeira comédia neste rol de trinta intocáveis. Materializando o exercício com a música de Clapton, If you got bad news, you wanna kick them blues, Airplane!.

1980 foi o ano em que Gente Vulgar (Robert Reford) arrecadou o Oscar de Melhor Filme, em que O Último Metro (François Truffaut) se assumiu como o canto do cisne do mestre francês, em que o Império Contra-Ataca (Irvin Kershner) conseguiu ser ainda melhor do que o original, em que Shining (Stanley Kubrick) confirmou o valor do triunvirato Kubrick-Nicholson-King, em que O Homem Elefante (David Lynch) comoveu plateias dos quatro cantos do mundo, e em que O Touro Enraivecido (Martin Scorsese) provou o talento e profissionalismo de De Niro. No entanto, apesar de todos estes monstros sagrados da sétima arte, O Aeroplano continua a ser o predilecto.
Ainda hoje continuo a acreditar que o trio de realizadores e argumentistas, Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, ter-se-á sentado à mesa, antes da rodagem deste filme, e acordado que todos os esforços seriam feitos no sentido de realizar o título mais idiota de todos os tempos. A pergunta que deu o mote para essa reunião deve ter sido algo do género: Pessoal, como é que havemos de fazer o filme mais nonsense de todos os tempos, sem imitar os Monty Python?

É verdade que a base já tinha sido lançada, e, como numa habitação bem construída, o ponto de partida já tinha sido escolhido. A ideia passava por parodiar os filmes catástrofes dos anos setenta, como Aeroporto, A Torre do Inferno e Terramoto. Como os três já estavam escaldados da infrutífera tentativa e má experiência anterior (Kentucky Fried Movie), com Aeroplano, as coisas tinham de dar a bom porto, aero, entenda-se. Foi assim que decidiram comprar os direitos do filme catástrofe Zero Hour (Hall Bartlett, 1957), e aproximar os argumentos tanto quanto possível.

Sobre o filme em si, pouco ou nada há a dizer, ou não fosse uma palhaçada pegada. Mas, é uma palhaçada tão artística, que quase arriscamos dizer que um filme falado jamais poderia ter tanta piada. Especialmente porque, apesar de algum humor físico, a grande maioria dos gags surge através dos diálogos. Fosse o avião um estádio de futebol, e talvez pudéssemos achássemos verosímil ver tanta gente diferente, no entanto, não custa assim tanto aceitar que, no mesmo meio de transporte, viaje toda aquela mescla de passageiros, desde casais problemáticos, passando por crianças doentes, até freiras e defensores da blackexplotation. Tudo bem juntinho, para potenciar as situações mais caricatas, lá no alto, e na torre de controlo, onde o controlador Johnny (Stephen Stucker) escolheu a pior semana para deixar todos os vícios. A grande mais-valia de O Aeroplano, para além do elenco magnífico, do argumento que, sendo idiota, é do mais inteligente possível, e das referências sempre acutilantes, é o de passar a noção que estamos a viver o mais terrível dos dramas. Em nenhum momento vemos a mais pura descontracção, ou o mínimo sinal de sarcasmo. Cada instante é mais sério que o anterior, e não há lugar para sorrisos – excepto no espectador. Toda a gente sente que está à beira de uma tragédia, e é esse registo dramático que acaba por tornar o filme tão hilariante. Fora isso, não deixará de ser louvável o facto de tantos actores terem os seus quinze minutos, numa película com menos de hora e meia. Até aí se vê o brilhantismo da escrita que, com duas deixas apenas, seguramente proporcionou o ponto alto na comédia, na carreira de muito bom actor. Enunciar todas as célebres frases, cortaria qualquer possibilidade de escrever outro post esta noite. Por essa razão, deste filme que voará sempre em primeira classe, após uma estrita selecção, aqui ficam estes trinta segundos memoráveis, e a mais tola resposta alguma vez dada por um comandante de voo.
Towergy: Captain, maybe we ought to turn on the search lights now.
MCrosky: No, thats just what they'll be expecting us to do.

Alvy Singer

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1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Verdade Alvy. Este é também paara mim um título referência na comédia. Ao lado de Top Secret e o Police Squad/Naked Gun são certamente os títulos que mais me fizeram rir.
Mesmo que hoje já estejam um pouco cansados do tempo, ou que sejam filmes francamente sexistas, não deixam de ser obras-máximas da difícil arte de fazer rir.

«Hanging Lady: Nervous?
Ted Striker: Yes.
Hanging Lady: First time?
Ted Striker: No, I've been nervous lots of times.»

11 de março de 2008 às 12:29  

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