Deuxieme


quarta-feira, março 12, 2008

Não façam quarentena a este filme.

A grande vantagem de escrever uma espécie de crítica, quase dois meses depois de o filme ter estreado, é que, por maiores que sejam as barbaridades, dificilmente incorreremos no risco de espantar alguém. Por duas ordens de razões. A primeira, porque já quase tudo foi dito sobre o filme e, seja aquilo que for que tenhamos para pôr em palavras, o mais provável é não acrescentar nada de relevante. Isto é positivo na medida em que, se dissermos que gostámos do filme, a amostra da população que não gostou vai recordar aquele primeiro idiota que disse que a obra tinha algum valor. O que faz da nossa opinião, apenas mais uma. Isto também funciona para o inverso, isto é, caso não tenhamos achado o filme nada de jeito, e a amostra da população que gostou recordar o primeiro pateta a reconhecer que não percebeu a mensagem. De ambas as maneiras, a nossa discordância passa despercebida. A segunda razão é que a maioria das pessoas já não se lembra sequer do filme. Neste grupo não estão incluídos, obviamente, os cinéfilos certificados, detentores de uma memória cinematográfica com um alcance superior a dois séculos. Pena não haver maneira de o comprovar.

Tudo isto para dizer que, nem tudo foi mau naquelas duas semanas sem computador. Não que escrever para o Deuxieme seja uma obrigação, e que este agradável hobby se tenha tornado numa barreira para outros divertimentos. No entanto, a verdade é que, durante quinze dias, o tempo livre foi maior. Sem fonte de escrita, nada melhor do que arranjar matéria para escrever. Foi, assim, que decidi ver finalmente Nome de Código: Cloverfield (Matt Reeves), na última sala ainda disponível no distrito de Lisboa, em pleno Centro Comercial Colombo, com direito apenas à sessão da meia-noite. Num espaço que devia dar para cem espectadores, éramos cerca de vinte a trinta cinéfilos preguiçosos, que decidiram adiar até mais não o visionamento deste filme. Uns com pipocas, outros sem, uns mais novos, outros nem tanto, todos à espera de ver o que raio é que fez a cabeça da Estátua da Liberdade rolar pelas ruas de Nova Iorque.

Não sei se acontecerá o mesmo com os leitores deste blog, no entanto, confesso gostar de ficar sentado após o fim da obra, não só para confirmar que não existe uma cena esquecida no final dos créditos, como também para ver a reacção das pessoas, ao sair. Já tive oportunidade de dizer aqui que partilho a opinião de que cusquice, mais não é do que curiosidade cientifica. E, isto de ficar a ver se as pessoas saem com um sorriso nos lábios, com um olhar fulminante para o companheiro do lado, se ficam abraçadas a ver os créditos, se saem a rir-se de quão mau o filme foi, ou se vão andando descoordenadamente boquiabertos para a saída, é uma espécie de sondagem à boca das urnas. É o tentar saber o maior número de opiniões, no mais curto espaço de tempo possível. Em Cloverfield, não me recordo de ninguém ter ficado abraçado a ver os créditos finais. Contudo, lembro-me bem de umas quantas pessoas sairem surpresas, sem proferir uma única palavra. Acredito que tenha sido mais ou menos assim que também abandonei a sala.

Reconheço que, ao entrar, o espírito não podia ser mais aberto. Após largos meses de marketing, o fascínio em torno de Cloverfield tinha-se esfumado, resultado da promoção desgastante de J.J. Abrams e companhia. O pensamento era mais Vamos lá a ver se o que eles vendem é assim tão bom como publicitam. Ora, quem vai assim para um filme, não pode estar à espera de grande coisa. O problema é quando aquilo vai tirando coelhos da cartola, e surpreendendo a cada minuto. No final, damos por nós e estamos com um maço de notas na mão, como aqueles figurantes no televendas, a dizer Eu compro! Eu compro!. Se fosse hoje, não esperava dois meses para ver o filme.

Em Cloverfield, o primeiro sinal de que o trabalho deu frutos surge quando procuramos uma posição mais confortável na cadeira, como que a tentarmos também fugir daquele ambiente catastrófico, depois de uma noite que tinha tudo para ser de festa. Desde o inicio, parece-nos normal que a câmara nunca seja fixa. Impõe-se que haja um melhor amigo para documentar a partida, e, dados os terríveis acontecimentos, é compreensível que alguém queira deixar provas físicas. O toque de génio surge, no entanto, na subtil história de amor que percorre o filme, visível a cada rebobinar da cassete utilizada para gravar o ataque à claustrofóbica Nova Iorque. Não fosse isso, e talvez Cloverfield não passasse de um novo Projecto Blair Witch com mais orçamento para efeitos especiais. Sobre o monstro, discordo daqueles que afirmam existir pouca informação. Aliás, resta-nos saber que o bicho é capaz de destruir tudo à sua volta. Tendo conhecimento deste facto, o resto parece algo irrelevante. No final, uns poderão achar que o filme é um interessante exorcismo aos ataques terroristas, enquanto outros poderão considerar um desperdício ver tanto dinheiro gasto em pirotecnia em detrimento de cinema. Para Alvy Singer, esta foi a melhor hora e meia numa sala de cinema, sem ter de pensar muito, desde Superbad.

Alvy Singer

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7 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Cloverfield é um grande filme! Quando o vi, saí espantado da sala de cinema. Sentia que também eu lá tinha estado, também eu tinha fugido à criatura... E o mais espantoso é que o filme consegue ter uma história de amor, contada de forma brilhante e simples. É uma montanha russa de emoções, um projecto arriscado, mas que ganhou em toda a linha!
E aquela sequência final... Não sei quem reparou, mas eu reparei... Quando dá aquele último plano da praia, vê-se ao longe uma "coisa" enorme a cair do céu e a aterrar em pleno mar... Uma "coisa" que apesar de ser nada mais que um ponto no horizonte, se parece com a criatura... Uma explicação simples e brilhante de onde vem a criatura...? Não sei, mas que é algo que lá aparece e que é suposto uns repararem e outros não, lá isso aparece...

12 de março de 2008 às 13:25  
Anonymous Anónimo said...

Oi Alvyn...

Me permite discordar totalmente de você...rs??? Achei ‘Cloverfield’ horroroso... Muito ruim mesmo... Tão ruim quanto este lixo citado por você, ‘Projecto Blair Witch’... Como você também gosto de ficar vendo os créditos subirem, mas mais para ouvir a trilha musical do que para reparar nas reações das pessoas... Só que desta vez não tive como não prestar atenção... A indignação ao fim do filme era total... Muitos foram as reclamações(eu fiquei calado mas com uma tremenda vontade de erguer minha voz e dizer: QUE LIXO... QUERO MEU DINHEIRO DE VOLTA...RS...)... Teve um inclusive que gritou: “Quem deveria morrer era o desgraçado que fez esta porcaria”... Estou falando sério... O filme não agradou ninguém que esteve na sessão que assistir...

‘Cloverfield’ era um dos filmes mais aguardados por mim neste ano de 2008, mas infelizmente se tornou com certeza numa das maiores decepções cinematográficas que terei ao longo do ano... ’10,000 a.C.’ que estreou recentemente (e que tanto queria vê) pelo visto também será uma enorme decepção, pois a trama é muito fraquinha e os protagonistas pouco carismáticos... Mas enfim, ainda não vi o filme, portanto ainda há esperanças... Mas não mais para ‘Cloverfield’...

A tal da ousadia que foi gravar todo o filme pela lente de uma câmera digital, só conseguiu me enjoar e causar um tremendo mal estar... Sinceramente não sei como você suportou e conseguiu se divertir com esta situação... Eu mesmo fiquei muito mal... Não via à hora do filme acabar... Ainda bem que ele é bem curtinho... Sem falar na falta de carisma do elenco e do roteiro ridículo... O que você chama de toque de “gênio” (“a sutil história de amor que percorre o filme”) eu chamo de falta de talento... Toda aquela odisséia para resgatar a mulher amada me soou muito forçada e melosa demais dada às circunstâncias...

Até o presente momento, foi minha pior hora e meia dentro de uma sala de cinema neste ano...

É por isso que sou fascinado pelo cinema... Pelas várias leituras e sensações que um mesmo filme pode causar nas pessoas... Você gostou, eu detestei, mas o importante é que somos apaixonados pela magia e reflexão que o cinema nos proporciona...

Um grande abraço Alvyn...

12 de março de 2008 às 19:40  
Anonymous Anónimo said...

subscrevo inteiramente o alex... o filme é péssimo!!! nunca me arrependi tanto de comprar um bilhete para ver um filme como aquela vez do "projecto não sei das quantas"...

12 de março de 2008 às 21:59  
Anonymous Anónimo said...

Também adorei o filme. Foi uma experiência diferente cinematograficamente. Tal como Grindhouse ou Bewoulf. Porque não experimentar novas ideias no cinema? Porquê estagnar! Param mim é óbvio que "haverá sangue" é um filme muito superior, mas Cloverfield não pretende ser uma obra-prima mas sim um filme de entretenimento,e que servirá para dar ideias sobre técnicas de filmagem a novos realizadores que até poderão fazer novas obras primas baseadas nessas técnicas. Em relação aos tremeliques é uma estupidez criticarem, se tivessem a filmar naquelas condições é óbvio que também tremiam a camera. Senão tremesse criticavam a falta de realismo!Enfim critiquem mas pensem antes de o fazer!Para esses por favor evitem Bourne Ultimatum! E não é que também treme.

12 de março de 2008 às 23:14  
Anonymous Anónimo said...

"anonimo" eu vi Bourne Ultimatum e achei o filme bom..os tremeliques nada têm a ver... sendo assim também nao teria gostado por ex de 21 Grams que "não treme mas abana" já que foi feito de camara ao ombro! Eu não gostei de Cloverfield e ponto final. Não preciso de me justificar (apesar de razões não faltarem para atribuir ao um filme tão estúpido). Da mesma forma que tu podes manifestar o teu agrado pelo filme, as outras pessoas também podem manifestar descontentamento...a isto se chama um estado democrático!

13 de março de 2008 às 21:46  
Anonymous Anónimo said...

Oi Paulo... Nem me dei ao trabalho de responder o comentário ridículo do tal do 'anônimo'... Não vejo outro intuito no comentário dele senão criar mal estar e discórdia... Mas assim como vc fez com o meu comentário, assino embaixo no seu... Por isso vamos dar por encerrado este assunto, para não darmos espaço para esta pessoa que possivelmente irá se manifestar de maneira grosseira... Um grande abraço...

14 de março de 2008 às 12:18  
Anonymous Anónimo said...

As opiniões são como as vaginas...

17 de março de 2008 às 23:27  

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