Deuxieme


terça-feira, janeiro 27, 2009

Um mês depois...

No final de Dezembro, publicámos neste espaço um post sobre os mecanismos por detrás das votações da Academia de Hollywood, na corrida aos Oscar. O objectivo desse texto passava, em última análise, por deitar alguma luz sobre uma realidade que gostaríamos de ver mais transparente. Na altura, até pelos comentários deixados, ficámos com a sensação de ter sido pouco claros na explicação. E, antes de mais nada, gostaríamos de pedir desculpa pela demora na resposta. No entanto, se dúvidas ainda persistirem, desta feita, auxiliados pelos artigos de Timothy Gray, na Variety, e Brad Brevet, no Rope of Silicon, aqui estamos para procurar dissipá-las. A verdade é que, depois de algumas surpresas verificadas nas listas de nomeados deste ano, o que não tem faltado é gente interessada em saber como é que são efectuadas as contagens, e o que determina a eleição de um filme ou actor. No cerne da questão, o que terá levado a que Kate Winslett fosse nomeada por The Reader e não por Revolutionary Road. O que, no fundo, acaba por causar a nomeação de qualquer actor em detrimento de outro. Brevet salienta estes dois pontos do regulamento.

“4. The leading role and supporting role categories will be tabulated simultaneously. If any performance should receive votes in both categories, the achievement shall be only placed on the ballot in that category in which, during the tabulation process, it first receives the required number of votes to be nominated. In the event that the performance receives the numbers of votes required to be nominated in both categories simultaneously, the achievement shall be placed only on the ballot in that category in which it receives the greater percentage of the total votes.

5. In the event that two achievements by an actor or actress receive sufficient votes to be nominated in the same category, only one shall be nominated using the preferential tabulation process and such other allied procedures as may be necessary to achieve that result”.

Este ‘preferential tabulation process’, na quinta alínea, significa que Winslett pode ter sido nomeada pelo papel de Hanna Schmitz, mesmo tendo recebido menos votos por ele, do que pelo papel de April Wheeler em Revolutionary Road. Apenas porque, com The Reader, a actriz terá chegado primeiro ao número mínimo de votos exigido para ser nomeada. Neste ponto, convém dizer que os membros da Academia não se limitam a preencher um boletim com a sua lista de nomeados, ordenados aleatoriamente, e não é o número de vezes que o candidato figura nos boletins que determina o seu resultado. Na verdade, é pedido aos eleitores que enumerem os candidatos por ordem de preferência, de 1 a 5, sendo 1 a primeira opção. A partir daqui, baseamo-nos inteiramente no artigo de Brevet para formular um exemplo, e recorremos, de igual modo, à situação de Kate Winslett.

A empresa PricewaterhouseCoopers reúne os boletins e determina, num primeiro momento, quantos votos na primeira posição um actor necessita para alcançar uma nomeação. O grupo dos actores tem 1,222 membros e, de modo a calcular o número mínimo de votos, divide-se 1,222 por seis – isto é, o número de eventuais nomeados (cinco), mais um –, o que dá 203. A este número soma-se um, o que significa que 204 é o valor a atingir. Este é o número de vezes que um actor tem de estar presente nos boletins. Contudo, não de forma tão linear como a enumeração de 1 a 5 permite suspeitar.

Primeiramente, são contados apenas os actores eleitos na primeira posição de cada boletim. E, assim que alguém tiver atingido os 204 votos, a nomeação está assegurada. Todos aqueles que votaram para este actor vêem o seu boletim posto de parte, e nenhuma das suas outras escolhas é considerada, garantindo assim que todas as vozes são ouvidas, e o processo recomeça com o próximo nome. Se, no final da primeira roda, tivermos cinco nomeados com mais de 204 votos, estão encontrados os finalistas. Caso contrário, a contagem passa para as segundas escolhas, terceiras, e assim sucessivamente, até serem alcançados cinco nomeados.

No caso de Kate Winslett, isto deverá querer dizer que a actriz recebeu mais primeiros lugares – e, possivelmente, segundos – pelo seu trabalho em The Reader, do que em Revolutionary Road. No fundo, não é o número de votos brutos que estabelece os nomeados. April Wheeler até pode ter aparecido em mais boletins do que Anna Schmitz. Contudo, se tiver sido em terceiro lugar, quarto ou quinto, não se fez notar. Isto poderá também ajudar a explicar a ausência de The Dark Knight e Wall-E. The Reader poderá ter tido menos votos. É o mais certo. Contudo, ao figurar nos boletins, fê-lo numa posição superior. Este é o sistema de nomeações que a Academia de Hollywood utiliza desde 1936. Como Brevet diz, e bem, não é tarefa fácil avaliar feitos artísticos, nem chegar a um consenso. Podemos apontar defeitos a este processo de contagem. No entanto, esta é uma forma válida de assegurar que as distinções são feitas do topo para baixo. E, quando o objectivo é apontar o melhor, contrariamente ao que a experiência nos ensina, se calhar o ideal é começar mesmo por cima, pelo tecto. Esperemos que a exposição tenha ajudado a clarificar o tema.

Bruno Ramos

8 Comments:

Anonymous paulo said...

Ufaa!!!Pensei que o processo de votação fosse bem mais simples e não uma contagem tão elaborada. Vamos lá ver se eu entendi: imagine-se que um actor vota em 1º lugar em Kate Winslet por The Reader e com esse voto constituir o tal nº 204, quer dizer que esse boletim é posto de lado e não são contabilizados as posições 2, 3, 4 e 5? E os votos seguintes que têm tb Kate Winslet por The Reader são contabilizados para ela na mesma, ou por já ter o valor 204 passa-se a contabilizar a 2ª posição desse boletim? Por exemplo um actor que em 1222 boletins tenha o seu nome em 1º lugar 1000 vezes so se conta ate 204?
Desculpem a confusão, mas isto é confuso mesmo!!!

28 de janeiro de 2009 às 02:26  
Blogger Miguel Vaz said...

É curioso, porque o sistema de voto por preferência é considerada a forma matematicamente mais justa de eleição. Aconselho um texto do prof. Jorge Buescu sobre o assunto, publicado no livro "O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias - Crónicas das Fronteiras da Ciência", da Gradiva, também disponível através de seguinte ligação http://www.prof2000.pt/users/j.pinto/matematica/acompanhamento/macs/Textos_Macs/borda_buescu.pdf

28 de janeiro de 2009 às 11:08  
Anonymous Ricardo Silva said...

Realmente o método de selecção é mesmo uma grande complicação.
Mas gostava que me esclarecessem uma dúvida a quem saiba:
Seria possivel Kate Winslet ser nomeada para "Melhor Actriz Principal" quer por "The Reader" quer por "Revolutionary Road" ou só se pode ser nomeado em categorias diferentes?.
Digo isto,porque Steven Soderberg foi nomeado num ano para "Melhor Realizador" por filmes diferentes("Erin Brockovic" e "Traffic")e gostava de saber se é possivel de isso acontecer nas categorias de interpretação.

28 de janeiro de 2009 às 15:08  
Anonymous Paulo said...

Nas categorias de interpretação cada actor só pode ser nomeado uma vez por categoria! Não tem muita lógica os realizadores poderem ser e os primeiros não! Se um realizador pode ser bom (e nomeado) em 2 filmes, porque não há-de uma actor também ser!!!!!

28 de janeiro de 2009 às 15:34  
Blogger Deuxieme said...

Paulo, todos os actores têm de atingir 204 votos. Imaginemos que apenas quatro o conseguiram na primeira posição. E, temos outros dois actores com 100 votos cada um. Aquele que, na segunda posição, chegar primeiro a esse resultado é o quinto finalista.

Miguel, gratos pela contribuição. A Contagem de Borda era um método que desconhecíamos. Assim como a maravilhosa Teoria de Arrow.

Ricardo, um actor não pode ser nomeado duas vezes na mesma categoria. Não querendo induzir em erro, temos a forte convicção de que as categorias de interpretação são as únicas que não podem ter um nome repetido. Para Melhor Montagem, Melhor Direcção Artística, Melhor Banda Sonora, não existe este critério. No dicionário, o nome para isto é parvoíce.

28 de janeiro de 2009 às 15:41  
Anonymous Ricardo Silva said...

Muito obrigado,Deuxieme,pela informação!!!.
Como é óbvio também penso que isto tudo é uma absoluta parvoice.Não faz qualquer sentido.Um actor ou actriz pode ter um ano em cheio em filmes diferentes e,para mim,é ilógico só poder estar por um.
Falta pouco para ver se seria justo aquilo que disse no meu "post" anterior:
isto é,se seria justo uma dupla nomeação para Winslet para a principal categoria pelos dois filmes que fez.

28 de janeiro de 2009 às 16:38  
Anonymous Deltóide said...

Caro Miguel Vaz
"Todos aqueles que votaram para este actor vêem o seu boletim posto de parte, e nenhuma das suas outras escolhas é considerada, garantindo assim que todas as vozes são ouvidas, e o processo recomeça com o próximo nome."
Do que eu percebi do método de contagem para os nomeados, ele de Borda tem pouco, já que os boletins com actores já escolhidos, vão sendo excluídos.

Isto implica que a ordem de leitura dos boletins pode ter influência no resultado final. Para ser Borda, todos os boletins teriam o mesmo peso, e o 1-5 da ordenação, seria a pontuação atribuída a cada actor. Não o é. E não o sendo, é um misto de Borda e de papelinhos dentro de um chapéu, porque omite o valor da opinião parcial de certos votantes.

Que raio de método...

28 de janeiro de 2009 às 17:46  
Anonymous Paulo said...

"Aquele que, na segunda posição, chegar primeiro a esse resultado é o quinto finalista."

Deuxieme,
isto quer dizer que interessa a ordem de contagem? Segundo isto, o 5º nomeado pode-o ser mesmo que tenha menos votos?! E o actor da 6ª posição fica-se por aqui apenas porque o outro chegou primeiro ao numero pretendido? Não faz muito sentido!!!!

28 de janeiro de 2009 às 18:22  

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