Deuxieme


segunda-feira, fevereiro 16, 2009

O paradigma Brokeback Mountain.

Mais secreto que o Priorado do Sião e os Illuminati, só estamos a ver o lobby gay de Hollywood. Ao longo da presente temporada de prémios, temos sido confrontados com alguns argumentos a favor do filme de Gus Van Sant – que apreciaremos neste espaço na próxima sexta-feira –, que culminam numa culpabilização antecipada do presumível engodo, caso Milk e Sean Penn não venham a triunfar. Imputações que dão como exemplo do status quo, o ano de 2005, quando Brokeback Mountain se deixou ultrapassar na última curva por Crash. Aos olhos de muito cinéfilo que por aí anda, a Academia de Hollywood não resolveu ainda uma série de preconceitos que condicionam as suas escolhas. Aos olhos deste que se assina, também não. No entanto, uma diferença separa-nos nesta discussão. Diferença essa, que nos permitiu adormecer como um bebé nessa noite de 05 de Março de 2006, sem achar que uma sociedade limitada pelos seus estereótipos tinha roubado o Oscar ao filme de Ang Lee. E, esta divergência passa por achar, simplesmente, que Crash é superior.

Se há filmes que rompem com o passado, Brokeback Mountain é um deles. E, se há filmes que ao romperem, estabelecem ao mesmo tempo uma nova fronteira, e homenageiam a história do cinema, apesar de não se contarem muitos, este também é um deles. Aquilo que desde o primeiro minuto enche o filme e lhe confere contornos de unicidade, é a origem de uma amizade que, ao crescer, se transforma em amor, no mais puro termo que o vocábulo possa ter, signifique ele o que significar. Porém, neste caso, este amor une dois seres do mesmo sexo. E para tornar a singularidade mais admirável, a acção desenrola-se no cartão-de-visita de um dos maiores símbolos da masculinidade, o oeste norte-americano.

Um projecto desta envergadura, ao qual, aparentemente, tão poucas exigências se poderiam fazer a priori, mas sobre o qual os olhares do mundo cinematográfico recairiam fortemente a posteriori, como ainda hoje se verifica, requeria um conjunto de factores para atingir o sucesso, e a verdade é que todos eles confirmaram a sua presença, no momento de responder.

Apesar da riqueza do argumento de Larry McMurty e Diana Ossana, exemplo de que a comunicação não se esgota no domínio verbal, a peça chave terá sido muito provavelmente a brilhante direcção de Ang Lee, demonstrativa de um equilíbrio para filmar com sensibilidade, aquilo que era sensível – os elementos universais de um amor – e com violência (não significativa da ausência de afecto), aquilo que era violento - a psique e paixão de dois homens que aceitam uma existência mascarada, escondidos em matrimónios ilusórios. Na árdua, porém, seguramente aliciante tarefa de incarnar os personagens principais, Heath Ledger (Ennis del Mar) e Jake Gyllenhaal (Jack Twist) arrancam duas performances soberbas, baseadas sobretudo na autenticidade do primeiro, e na versatilidade do segundo. Secundados por um elenco igualmente de nível superior, especialmente a sofredora Alma (Michelle Williams), todos acabam por contribuir para a criação de um ambiente no qual somos convidados a entrar.

No fundo, a obra parecia ter tudo para levar para casa o Oscar de Melhor Filme. Será possível achar que Crash foi um justo vencedor? Com três letras apenas se escreve a palavra Sim.

Bruno Ramos

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14 Comments:

Anonymous O Cara da Locadora said...

É um filme fantástico, mas num tem como comparar... É igual no futebol quando tem um impedimento milimétrico e o bandeirinha não marca, será que sem os recuros de tv vc saberia que ele errou? Pois é, os dois filmes são tão bons que num tem como dizer que foi ou não injustiça... (entendeu a metáfora? rs)

17 de fevereiro de 2009 às 05:09  
Blogger Rafael Fernandes said...

Fui ver o Crash por acaso... não dava nada por ele nem nunca tinha ouvido falar do filme. Fiquei deslumbrado! Quando decorreu a cerimónia dos oscars em 2006 já tinha o filme em DVD, quando o normal é ainda não terem estreado por cá. Talvez apenas por isso, por ter sido premiado quase 1 ano depois de ter saído, tenha gerado surpresa. Porque para mim era o favorito. Quanto a Brokeback Mountain, foi um justo rival, um filme bastante superior a este Milk (para mim o mais fraco dos nomeados que já vi, mas ainda me falta Reader e Frost/Nixon). Saiu defraudado no Oscar de melhor actor, onde Heath Ledger está simplesmente soberbo na forma como interpreta uma personagem introspectiva e difícil de penetrar, onde as expressões faciais ganham uma grande importância, e ele dominou isso na perfeição.

17 de fevereiro de 2009 às 09:23  
Anonymous Adrenilado said...

Concordo a 100%! Brokeback Mountain é um bom filme, mas Colisão é indubitavelmente superior...para mim um dos melhores deste século e um dos mais justos vencedores da estatueta de sempre.

17 de fevereiro de 2009 às 12:48  
Anonymous César said...

Pois aqui divergimos totalmente. Crash é um bom filme, sem dúvida, um trabalho notável de Paul Haggis (que já tinha provado a sua qualidade na tremendamente boa adaptação de Million Dollar Baby). Mas é um filme onde: 1) nenhum dos elementos do elenco se destaca grandemente, excepção talvez o caso de Matt Dillon e 2) vai perdendo ritmo e as vezes parece também perder-se no guião "labiríntico" o que o faz perder também força. Se saí do cinema satisfeito? Muito. Brokeback Mountain é outra história: desempenhos brilhantes (Heath Ledger irrepreensível), argumento muito bem desenhado, uma direcção refinada e muito bem conduzida, etc etc. Aparentemente não tinha a força de Crash, mas depois de os ver no mesmo dia (isto muitos meses passados depois dessa cerimónia) percebe-se que Brokeback Mountain é claramente superior, em todos e qualquer um dos níveis que lhes podemos analisar.

Relativamente à questão "Milk", o ganhar este ano (que considero muito improvável, tendo em conta que vi ontem Slumdog Millionaire, que é uma delícia), sería uma forma de compensar essa derrota de Brokeback Mountain. Milk é um filme inferior a comparar com aquele outro. Talvez a única semelhança seja mesmo que Milk também apresenta um elenco de interpretações notáveis, que ajuda em muito a segurar a acção (se Sean Penn é muito bom, Josh Brolin não lhe tem nada a invejar).

17 de fevereiro de 2009 às 13:35  
Anonymous Anónimo said...

Crash é muito melhor que Brokeback Mountain!

17 de fevereiro de 2009 às 18:22  
Anonymous Anónimo said...

Crash e um dos piores filmes dos ultimos anos... desde realizacao, montagem, actores, guiao, historia... visto e revisto.. cliches atras de cliches!!

17 de fevereiro de 2009 às 20:33  
Anonymous ines said...

Eu não achei o Crash nada de especial. Acho que foi uma tentativa de imitação do Magnolia.

Brokeback mountain, por sua vez, é muito bom, com uma historia diferente do que se tem visto.

17 de fevereiro de 2009 às 22:43  
Blogger cátia said...

nd contra o brokeback mountain mas historias de amor ha muitas so por ter dois homens?!tanto kuanto sei o amor é universal por isso n passou de mais um filme sobre um historia de amor entre dois seres humanos.

pra mim o crash foi muito melhor pork ia mesmo a ferida do preconceito k se passa e existe em todo o mundo mas com mais incidencia nos states, sem kualker tipo de cuidado para o tornar belo mas sim o cuidado de o tornar um espelho da realidade.

17 de fevereiro de 2009 às 23:20  
Anonymous César said...

Anos passados sobre o incidente Crash/Brokeback Mountain e a coisa continua na mesma. Crash peca onde Brokeback Mountain ganha. Ok, como diz a Cátia é uma história de amor e dessas há muitas, outras tantas com personagens do mesmo sexo. Mas acho que o erro de avaliação de Brockeback Mountain vai por aí mesmo. A questão não é quem mete o dedo na ferida de quem. Ambos vão mexer em preconceitos pré-históricos da academia, no entanto, a mesma foi pelo caminho mais simples e ofereceu um prémio ao preconceito que tem melhor aceite: o do racismo. É a minha opinião. Se bem que esse ano foi o ano em que a Academia mais demonstrou um critério aleatório e dividido. Não percebi exactamente o que se passou, mas que não houvesse um único filme a ganhar mais de 3 prémios e que as categorias principais estivessem tão repartidas foi no mínimo estranho.

18 de fevereiro de 2009 às 00:30  
Anonymous Anónimo said...

Concordo com a Cátia!
Brokeback Mountain não tem mais nada de diferente a não ser a relação amorosa entre dois homens! Tem uma grande banda sonora, e representações muito boas, de resto, não vejo nada de transcendente! a nomeação para melhor filme foi mesmo uma tentativa da academia dizer que não são aliados do preconceito e queriam quebrar o tabu, mais nada!
Pessoalmente acho que o Oscar foi bem entregue a Crash, um monumental retracto da sociedade norte-americana, em que todos nos podemos reconhecer e que aborda a problemática racial pela mão de um soberbo argumento e de um grande elenco.

18 de fevereiro de 2009 às 01:11  
Anonymous Anónimo said...

Já agora, Milk vai pelo mesmo caminho. Sendo o pior dos 5 filmes nomeados!

18 de fevereiro de 2009 às 01:11  
Anonymous Anónimo said...

e mais, as pessoas querendo tornar esta sociedade tão liberal, não deveriam dar importancia a uma historia de amor homossexual. aqui se vê como se está longe de se atingir uma igualdade sexual!

18 de fevereiro de 2009 às 01:14  
Anonymous Ana said...

(Concordo com a Cátia)

Crash era bastante melhor que o Brokeback, apesar de o filme ter uma grande fotografia, estar bem feito e ter grandes interpretações. Crash é bastante melhor. E obviamente, não podemos menosprezar os canditatos desse ano; destaco Good Night and Good Luck e Capote. Que são filmes mais simples em algos termos, mas absolutamente geniais! Quanto a Milk, esparav mais. E sinceramente, não gostava que levasse o prémio, não é o mais fraco dos nomeados, mas também não é o melhor...!

18 de fevereiro de 2009 às 01:42  
Anonymous Deltóide said...

Minha nossa Senhora! Para mim, o Brockebecas é do mais pepinoso que vi em anos! Se lhe tirarmos a boa banda sonora e excelente fotografia, aquilo é um filmezinho, que sendo com um casal diferente (diferente de «diferente», neste caso) nunca teria tido o alarde que teve. Compará-lo-iam aos magotes de filmes que as quarentonas vão ver todos os anos com lencinhos de papel na mão.
Crash é de difícil digestão e obriga-nos a pensar: a sequência da boleia, e a da foto do post, perdurarão durante largos e bons anos.

18 de fevereiro de 2009 às 16:20  

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