O paradigma Brokeback Mountain.

Mais secreto que o Priorado do Sião e os Illuminati, só estamos a ver o lobby gay de Hollywood. Ao longo da presente temporada de prémios, temos sido confrontados com alguns argumentos a favor do filme de Gus Van Sant – que apreciaremos neste espaço na próxima sexta-feira –, que culminam numa culpabilização antecipada do presumível engodo, caso Milk e Sean Penn não venham a triunfar. Imputações que dão como exemplo do status quo, o ano de 2005, quando Brokeback Mountain se deixou ultrapassar na última curva por Crash. Aos olhos de muito cinéfilo que por aí anda, a Academia de Hollywood não resolveu ainda uma série de preconceitos que condicionam as suas escolhas. Aos olhos deste que se assina, também não. No entanto, uma diferença separa-nos nesta discussão. Diferença essa, que nos permitiu adormecer como um bebé nessa noite de 05 de Março de 2006, sem achar que uma sociedade limitada pelos seus estereótipos tinha roubado o Oscar ao filme de Ang Lee. E, esta divergência passa por achar, simplesmente, que Crash é superior.
Se há filmes que rompem com o passado, Brokeback Mountain é um deles. E, se há filmes que ao romperem, estabelecem ao mesmo tempo uma nova fronteira, e homenageiam a história do cinema, apesar de não se contarem muitos, este também é um deles. Aquilo que desde o primeiro minuto enche o filme e lhe confere contornos de unicidade, é a origem de uma amizade que, ao crescer, se transforma em amor, no mais puro termo que o vocábulo possa ter, signifique ele o que significar. Porém, neste caso, este amor une dois seres do mesmo sexo. E para tornar a singularidade mais admirável, a acção desenrola-se no cartão-de-visita de um dos maiores símbolos da masculinidade, o oeste norte-americano.
Um projecto desta envergadura, ao qual, aparentemente, tão poucas exigências se poderiam fazer a priori, mas sobre o qual os olhares do mundo cinematográfico recairiam fortemente a posteriori, como ainda hoje se verifica, requeria um conjunto de factores para atingir o sucesso, e a verdade é que todos eles confirmaram a sua presença, no momento de responder.
Apesar da riqueza do argumento de Larry McMurty e Diana Ossana, exemplo de que a comunicação não se esgota no domínio verbal, a peça chave terá sido muito provavelmente a brilhante direcção de Ang Lee, demonstrativa de um equilíbrio para filmar com sensibilidade, aquilo que era sensível – os elementos universais de um amor – e com violência (não significativa da ausência de afecto), aquilo que era violento - a psique e paixão de dois homens que aceitam uma existência mascarada, escondidos em matrimónios ilusórios. Na árdua, porém, seguramente aliciante tarefa de incarnar os personagens principais, Heath Ledger (Ennis del Mar) e Jake Gyllenhaal (Jack Twist) arrancam duas performances soberbas, baseadas sobretudo na autenticidade do primeiro, e na versatilidade do segundo. Secundados por um elenco igualmente de nível superior, especialmente a sofredora Alma (Michelle Williams), todos acabam por contribuir para a criação de um ambiente no qual somos convidados a entrar.
No fundo, a obra parecia ter tudo para levar para casa o Oscar de Melhor Filme. Será possível achar que Crash foi um justo vencedor? Com três letras apenas se escreve a palavra Sim.
Bruno Ramos
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