Deuxieme


quarta-feira, março 25, 2009

Dr. Manhattan.

Todos aqueles que visitam este espaço, sem excepção, olham para o Cinema com outros olhos. Para alguns, um simples apreço merecedor de atenção diária, a ver o que circunda por aí. Para muitos, um carinho especial que se traduz numa corrida às salas sempre que possível. Para outros, os cinéfilos inveterados, a segunda condição, a seguir à água, que possibilita a existência de vida no terceiro planeta deste sistema solar. E, permitam-me o desmazelo de colocar-nos a todos no mesmo saco, para nós, que fazemos parte deste último grupo, a sétima é a primeira de todas as artes. Aliás, ao defini-la como sétima, o que Ricciotto Canudo queria mesmo dizer era primeira. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Quando, em 1911, o italiano e primeiro teórico do Cinema publicou o artigo La Naissance d'un sixième art. Essai sur le cinématographe, o que por lá se podia ler era que nesta sétima se resumiriam as outras seis. Musica (1ª), Dança (2ª), Pintura (3ª), Escultura (4ª), Teatro (5ª), e Literatura (6ª). Arte total e alma da modernidade foram algumas das expressões empregues para caracterizar a invenção de Thomas Edison, popularizada pelos irmãos Lumière – os primeiros Coen. Quase um século depois, somos obrigados a concordar com Canudo. E, se por cá andarmos daqui a cem anos, o mais certo é continuarmos a concordar. Agora, uma convicção deste género jamais poderá ser fruto de uma paixão assolapada. Há muito que o ardor irresponsável pelo Cinema deu lugar a um pragmatismo tão mais característico de um matrimónio. Hoje, arriscaria dizer que este laço de união entre Alvy Singer e as imagens em movimento não é uma paixão, mas antes um casamento. Com todas as virtudes e defeitos que este acarreta. Especialmente, no que respeita às rotinas. De há dois anos a esta parte, o dia não chega ao fim sem uma passagem pelo /Film, pelo Awards Daily, pelo Worst Previews, pelo AICN, pelo I Watch Stuff, pelo IMDB, pelo First Showing, pelo InContention, pelo Trailer Addict, e outros. De há mais anos a esta parte, a semana não tem razão de ser sem, pelo menos, uma ida às salas. As noites de sexta-feira e sábado continuam a ser as predilectas. Contudo, as outras também servem. E, para além disto, lá vão existindo atenções ocasionais como a ida a uma ou outra antestreia, aquisições de Dvds, aquisições de memorabilia, e outros caprichos. Isto já não é paixão coisíssima nenhuma. Isto é dependência. Habituação. É o viver com um vigésimo quarto par de cromossomas desconhecido à luz da Medicina, mas que dá pelo nome de Cinefilus Agudus. Daí que quando nos zanguemos – que acontece raramente –, a briga seja feia. Num namoro que cheira a fraldas, uma discussão é apenas o pretexto para um beijo mais caloroso passado meio minuto. Num matrimónio, é verdade que continuamos a ter o make up sex, mas demoramos mais tempo a chegar lá. Jerry Seinfeld acredita que a importância de um favor é medida pelo intervalo que dura entre o dizermos que precisamos de pedir um favor, e dizermos qual é o favor. O mesmo pressuposto servirá para postular que uma desavença na relação é determinada pelo tempo que demoramos a fazer as pazes. Nada mais natural.

Isto tudo para dizer que o afastamento do Deuxieme se deveu a um arrufo com o Cinema. Uma espécie de amuo, confundido com incompreensão. E, até poderiamos atribuir a culpa a Zack Snyder. No entanto, não iremos por aí. Assumimos responsabilidades. No fundo, só assim a relação poderá sobreviver. Mas, para clarificar um pouco as coisas, convém dizer que, quase três semanas depois, continuo a ser incapaz de formar uma opinião com cabeça, tronco e membros, em relação a Watchmen. Há coisa de duas semanas, já alguns dias depois de ter assistido à adaptação no grande ecrã, prometi a mim mesmo que não colocaria qualquer post neste espaço sem antes falar no filme de Snyder. A verdade é que as palavras continuam a escapar-me por entre os dedos, e as emoções parecem soluto em solvente quente. Agitadas e imperceptíveis. A obra atirou este que se assina para uma reflexão sem precedentes. Que Cinema é este que se nos apresenta no inicio de 2009? Desde quando é que a sétima arte tem a lata e o desplante de enfiar quatrocentas pessoas numa sala e começar a disparar Filosofia a torto e a direito, prendendo à tela os olhos que não vêem a mão levar à bochecha as pipocas que tinham a boca como destino? Cerca de duas semanas foi o tempo que demorou este agastamento. No fundo, estamos em crer que, mais uma vez, tudo se deveu às expectativas. De Watchmen, esperávamos um flop. Antecipávamos uma coisa. Saiu-nos outra. Agora, quanto a isso, nada há a fazer. Talvez um dia desencante a arte e engenho para pôr em palavras a experiência que foi aquele visionamento. Um dia, quem sabe. Hoje, porque o exagero também enjoa, é tempo de fazer as pazes com a sétima arte. Dar continuidade, neste espaço, a esta duradoura relação que só pode ter um final feliz. Com a lista das bofetadas, noticias, baboseiras, devaneios cinéfilos, e duas ou três novidades – uma delas sonora – que estão aí na calha. Esta quarta-feira à noite regressam as emissões habituais. Duas semanas depois, o maior mérito de Watchmen foi o de ter levantado a questão: Será possível apreciar a mensagem de um filme, sem gostar do mesmo?

Alvy Singer

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10 Comments:

Blogger cátia said...

falando por mim em relação ao filme LIFE OR SOMETHING LIKE IT. SIM!!
concordo com a mensagem do filme mas n gostei do mesmo.

25 de março de 2009 às 02:39  
Anonymous jonnhy said...

hum..não sei, mas estes devaneios cheiram me a droga

25 de março de 2009 às 03:33  
Blogger Alvy Singer said...

Sem razão para alarme. A única que tomei até hoje chamava-se Sopranos.

25 de março de 2009 às 11:15  
Blogger Rafael Fernandes said...

Sim é possível apreciar a mensagem sem gostar do filme, ou da forma de como esta chega. Wathmen era uma adaptação complicada, mas julgo que no fim conseguiu aquilo a que se propunha. Nunca esperei um flop deste filme, pelo contrário. E ele não desiludiu, apesar de um ou outro reparo, o filme transmite a essência da obra, o que por si só já é uma grande vitoria. E quem achou interessante que pegue no livro. Vale a pena.

25 de março de 2009 às 12:34  
Anonymous Deltóide said...

Caro Alvy

Lamentavelmente, acho que o filme nada acrescenta em relação à BD... BD não, novela gráfica! (antes que me venham fustigar com uma chibata)

Se a primeira metade do filme fica para os anais - é cinema puro e alucinante, diferente de tudo o resto, e sem contemplações directamente na veia (sim, é verdade johnhy) - a segunda é uma ladaínha arrastada e monótona, apenas a espaços adrenalínica. Não fosse alguma violênica gratuita e seria um daqueles bons casos de «é melhor sair a meio»...

É sempre a descer e os últimos 15 minutos são tristemente entediantes.

Não é um mau filme, mas mesmo não sendo eu um Watchmen-freak, penso que há coisas em que é mesmo melhor não mexer...

25 de março de 2009 às 12:37  
Blogger Miguel Ferreira said...

Acho difícil absorver a mensagem de um filme sem gostar do mesmo. Não é fácil separar as imagens daquilo que elas nos querem dizer. Podemos simpatizar com a ideia ou premissa mas se ela não for bem executada penso que não nos atingirá.

Em relação ao Watchmen, sou daqueles com o background BD e reconheço que esse facto pode influenciar a minha opinião muito positiva acerca da obra. Encontrei nela grandes momentos de cinema (como o início ou a cena da prisão), um casting perfeito e um entretenimento global muito gratificante!Falta alguma coesão narrativa e uma realização mais pessoal por parte de Snyder, o que para mim não invalida em nada a qualidade do filme.

Mas não gostaste do filme Alvy?Já tinhas lido a BD?

25 de março de 2009 às 18:15  
Blogger Prometheus31 said...

Eu já vi o filme duas vezes e ainda não consegui fazer um post c/ a opinião sobre Watchmen. Só algumas frases no Twitter...acho que vou ter que ver outra vez...

25 de março de 2009 às 21:54  
Anonymous António Pedro Lima said...

Primeiro que tudo deixa-me dizer que tinha saudades, aliás, ansiava por palavras tuas. Sou leitor extremamente fiel deste blog. Acho que me "habituei" a lê-lo durante aquele "intervalo" da Première. Se desaparecer, avisa-me por favor. Tenho de me preparar... Quanto ao "Watchmen", não vi! Tenho algum preconceito com filmes de super heróis. Sei que este não o é (por assim dizer). Já sabia. Devo confessar que tenho péssimo gosto em cinema. Consigo gostar bastante de obras francamente más. Mas gabo-me de o reconhecer. Ainda na sombra dos Óscar, tenho tentado ver, pelo menos, os nomeados para melhor filme. Devo dizer que só vi dois: "o do" Brad Pitt e "o dos" meninos do Titanic. O primeiro é uma obra de arte. Irrita-me que não gostem do filme. Irrita-me ouvir o Jon Stewart falar mal do filme. É um dos mais belos que vi. Sou suspeito, adoro o Fincher. Mas é assim ao jeito de "O grande peixe". Um filme "esquecido" de um grande, grande realizador. Sobre "Revolutionary Road" quase não consigo escrever, a não ser que DiCaprio me fez render a seus pés e me obrigou a engolir tudo de mau que já disse dele. Quero pensar que não é o mesmo de "O Homem da Máscara de Ferro". Assim, quase de repente, se tornou um dos meus actores preferidos. A Kate finalmente levou para casa o que merecia já há muito. Antes que me perca, o filme é fabuloso. Sam Mendes tornou um livro chato num filme inquietante, tocante e ambíguo. Dias depois, eu e a minha mulher, ainda falavamos do filme. Quase que a tomar partidos...
Desculpa o desabafo. É bom estares aí outravez.
Abraço!

26 de março de 2009 às 00:04  
Anonymous Anónimo said...

Quanto ao THE WATCHMEN está tudo resumido aqui: http://uma-vez-na-vida.blogspot.com/

27 de março de 2009 às 13:42  
Blogger Deca sapeca said...

Bem,esta foi a mesma sensação que tive. Gostei da mensagem. Sem dúvida um teor inteligente, mas este teor não vem da própria história,da idealização pré filme?Ou seja se a única coisa que ficou do filme foi a mensagem o filme é ruim mesmo o que é bom é a obra.

31 de março de 2009 às 14:54  

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