Estreias da Semana
Passadas algumas semanas da qualidade de filmes que os Óscares nos presentearam, é agora tempo, apetece dizer de forma irónica, de receber uma dose de maus filmes, que nos surgem sem aviso. Mais do que maus, alguns carregam em si uma questão que se denomina de "desperdício".
Como tal, a estreia da semana recai sobre um exemplo claro: Duas Irmãs, Um Rei (no seu original, The Other Boleyn Girl) é a primeira longa-metragem de Justin Chadwick (que se notabilizou na TV) e conta com um elenco de luxo onde figuram Natalie Portman, Scarlett Johansson e Eric Bana.
A Inglaterra vive dias de dúvida em relação ao reino, quando se espalha a notícia de que Henrique VIII (Eric Bana) não partilha mais o leito com a sua mulher. Aproveitando esta situação, Sir Thomas Boleyn (Mark Rylance) lança sobre os olhares do Rei as suas duas filhas, Anne (Natalie Portman) e Mary (Scarlett Johansson), com o intuito de caírem na sua graça. Certo é que entre ambas se inicia uma disputa, que é movida pelo amor de Mary e pela ambição do poder de Anne, que irá pôr o reino e a corte em causa, e despoletar as mais graves consequências entre o Rei, a igreja e o seu povo.
Partindo de uma interessante premissa, este filme consegue deitar tudo a perder volvida a primeira meia-hora. E os seus erros denotam-se a vários níveis: o mais notório é, sem dúvida, o deficiente, desconexo e disparatado argumento, que recria uma situação amorosa / política / social da história da Inglaterra sob o formato de telefilme ridículo e anémico; tudo se resume, futilmente, às indecisões de um Rei sobre duas mulheres, com uma profundidade equiparável a uma telenovela mexicana de horário duvidoso.
Quando menos esperamos surgem os mais absurdos plots, que nos remetem para problemas no vale dos lençóis, que definitivamente, para o realizador, foram os principais pontos-chave do reinado controverso e interessante de um dos mais enigmáticos monarcas de Inglaterra, que ousou, entre outros temas a discutir, romper relações com a Igreja Católica e formar o Anglicanismo. Mas claro está, nada disso é para aqui chamado, não é relevante. A juntar a este prato enjoativo temos os descarados pontapés nos factos históricos, que se processam a um torturoso ritmo galopante pela acção do filme, e por fim a performance dos actores; o único brilho deste filme chama-se Natalie Portman, que como sempre, nos presta um trabalho fabuloso de interpretação de Anne, que abafa por completo o pateta, inútil e pueril Henrique VIII (que Eric Bana veste em piloto automático), e a sua irmã Mary (que Scarlett soube, ainda assim de forma competente, conter com descrição e ingenuidade). Os restantes actores, (onde se inclui Kristin Scott-Thomas como mãe das irmãs Bolena) nem merecem comentário, pois são meros peões idiotas, desprovidos de enquadramento, de emoção ou peso dramático.
De resto, não sobra nada, a não ser uma tremenda chatice de duas horas, sem carne nem sangue, sem amor nem sexo, sem paixão nem vida. É um registo que anda à deriva, não se assume como obra histórica ou melodrama ou outro género, nem o conseguiria fazer se assim o desejasse. Com um elenco deste nível, e uma margem de produção de considerável tamanho, é uma verdadeira desilusão verificar que o potencial desta obra se reduz a nada.
1/5
Outras estreias:
Os Falsificadores / Caramel / O Patinho Feio e Eu / Para Sempre, Talvez... / Na Sombra do Caçador.
Francisco Toscano Silva
Etiquetas: Eric Bana, Estreias da Semana, Natalie Portman, Scarlett Johansson, The Other Boleyn Girl




