A problemática dos spoilers.
Apesar de não ficarem aqui explícitos os desfechos de O Sexto Sentido, Braveheart, Titanic, Mar Adentro, Million Dollar Baby e O Lado Selvagem, se alguém não quiser fazer a mínima ideia de como estas obras terminam, talvez não deva ler as linhas que se seguem. Por outro lado, se quiserem experimentar um pouco da indignação que percorre aquele que se assina, e sentir na pele esta ira controlada, façam favor.
(Afinal, os finais ficam claros com todas as letras – este primeiro parágrafo foi escrito antes de ter-me deixado levar pela revolta lá para o meio do texto).
Desta vez, não apontaremos o dedo à publicação. Dizer que foi num jornal com o nome do dia em que foi lido será suficiente. Uma entrevista com Sean Penn, realizador de O Lado Selvagem, era anunciada em todo o seu esplendor. Por já não ter o dito jornal na minha posse não recordo com exactidão porém, creio que se tratava de uma página inteira. No topo da página, uma caixa com duas curiosidades. Uma delas, salvo erro, sobre as dificuldades da rodagem. A outra, sobre o verdadeiro Christopher McCandless e a forma como este foi encontrado no término da sua viagem. Os meus olhos não queriam acreditar no que tinham acabado de ler. Em dez segundos apenas, tinha percorrido os 160 minutos que perfazem a longa-metragem de Penn. Lembro as linhas do Francisco Silva, que transpiravam de emoção e de como ele havia demonstrado o seu afecto e debruçado sobre o filme, tendo sempre o cuidado de nunca revelar em demasia. Pelos vistos, isto é possível. Falar bem dum filme, sem ter de contar todos os pormenores. Sobretudo, os mais importantes.
Recordo, como se tivesse sido ontem, o momento em que alguém conhecido proferiu a frase que arruinou, em parte, o visionamento de Titanic e Braveheart: Não é triste quando ele morre? Outra conclusão revelada de forma interessante foi a de O Sexto Sentido quando, num transporte público, repare-se, num transporte público, inadvertidamente ouço uma conversa sobre o filme, e uma das pessoas diz que ele não existe. Este episódio é a razão pela qual hoje, assim que alguém começa a falar de cinema, mudo de carruagem. O problema é mais complicado se for num autocarro em hora de ponta, onde sou obrigado a pedir para sair. No entanto, o melhor continua a ser Million Dollar Baby, quando o filme foi utilizado por Fátima Campos Ferreira ao lado de Mar Adentro, na introdução de um Prós e Contras sobre a Eutanásia. Na semana em que o filme havia estreado!
Caramba, será que existe um cromossoma qualquer que nos impele a contar o final do filme? Já há muito tempo que tenho para mim que poucas coisas desiludirão tanto um tipo como saber o final do filme, antes de poder vê-lo. Um dos melhores truques de algibeira que existe para chatear alguém é contar o final de um filme. Hoje, a única teoria que me parece credível, para além do genoma humano com uma falha tremenda a este nível, é a de que este alguém que nos conta o final de uma longa-metragem teve um dia terrível, dos piores de toda a sua vida, e, sem meias medidas, decide vingar-se no mundo metendo a boca, como se diz, no trombone.
Enquanto existirem malucos dispostos a ver um filme, mesmo conhecendo a forma como este termina, nem tudo estará perdido. Esta semana, O Lado Selvagem será finalmente visto. De qualquer modo, talvez a verdadeira conclusão a tirar é que devemos ter bastante cuidado da próxima vez que abrirmos um jornal para ler a entrevista de um cineasta. Seja a que dia da semana for. Sexta-feira inclusive.
Alvy SingerEtiquetas: Into the Wild, O Lado Selvagem



11 Comments:
A estoria do chris mccandless é real. Ele morreu e é natural que nós o saibamos.
Como te percebo, a mim contaram-me o final do sexto sentido e o do Million Dollar baby, este último foi por pura maldade por saberem que não gosto de saber os finais, não se faz.
Mas como o António diz há casos em que o filme aborda uma história real e por isso o final é muito conhecido.
Acho que o caminho a tomar com Into the Wild era o de não revelar o final. Aliás, foi o que fiz no artigo sobre o dito cujo. A medida salvaguarda a parcela do público que não sabe que o filme se baseia numa história verídica, história que, em última instância, levou à morte do seu protagonista.
No entanto, o caso não me parece o mais flagrante. Entendo que alguém dentro do assunto, como é um caso de um crítico/jornalista de cinema, se deixe levar pela sua ominisciência e revele algo que não devia.
O jornal de que falas não foi o único a fazê-lo. Pelo menos numa publicação que, quanto a mim, é a maior referência da nossa praça, o mesmo sucedeu.
Beijinhos :)
Bem, eu já li o livro que deu origem ao filme de Sean Penn, por isso sei bem como ele acaba.
Mas sim, se há coisa que me irrite, é saber o final do filme sem o ter visto. É das piores crueldades que se podem cometer para com alguém que gosta tanto de cinema como eu.
Mesmo sabendo o fim o filme vale bem a pena. Também tive o azar de ler o final antes de poder ver o filme, mas ainda bem que também fui "maluco" ao ponto de ir ver ao cinema. Vale todos os cêntimos do bilhete e mais os do dvd quando sair. Até agora é o meu filme favorito do ano.
Cumps!
Oh, como te compreendo!! Odeio quando me contam os fins de filmes!
Quando estive na universidade, tinha uma colega de casa que adorava armar-se em sabichona e contava os finais todos! Era impossivel ver um filme com ela, principalmente na TV, porque ela sabia sempre o final,e nos primeiros 5m do filme lá dizia: "ele morre no fim", ou "eles nao ficam juntos" ou qualquer coisa assim! Era tão frustrante... Pura maldade...
Mas como disseram, e muito bem, isso nao impede um verdadeiro cinefilo de apaixonar-se pelo cinema.
bem me podem dizer o fim... ja que o filme só estreia para pessoas q vivem na capital... e o resto do país fica a ver passar os navios, para quem é do litoral..os do interior pode ser que tenham direito a vislumbre de uma vaquinha a pastar! Pois é, cultura não é para todos.. Ou entao façam como alguém já disse aqui no blog.. ponham a sacar!!!!!!
por acaso pensei exactamente o mesmo quando li a entrevista! Felizmente já tinha visto o filme.
Eu, como muita gente, li o artigo no dito jornal antes de ver o filme, mas isso não me perturbou muito, pois, pelo que percebi isto foi uma história que pôs toda a gente a falar quando aconteceu, e por isso qualquer americana mediano conhece o desfecho da história. Já sabia do desfecho, mas nada me preparou para o que viria a ver naquela sala escura, sem dúvida alguma um dos melhores do ano (e estamos em Fevereiro), não há problema de saber o final, quase que favorece, porque aqui não há intriga como no Sexto sentido, o filme é mais espiritual, sensível e humano, mesmo que já tivesse lido todo o argumento o filme seria sempre uma descoberta.
já agora, pior do que aconteceu no dito jornal foi o que ouvi no cinemax, já tinha visto o filme, em que contam uma das partes mais emocionantes do filme, como é óbvio não vou contar, mas aconselho que quem já tenha visto repare na "facadinha" que por vezes nos dão quando fazem críticas nos meios de comunicação.
Eu n sei mto bem se o filme retrata a vida de Chris McCandless (que desconheço), ou se é apenas baseado na sua vida...
São coisas diferentes.
O facto de na vida real a morte ser o fim, n implica que no filme tb o seja. A menos, claro está, q seja um retracto da sua vida...
Infelizmente não vi o filme, e já sabia que ele morria... Tb já tinha ouvido no metro! Enfim...
Mas espero 'esquecer-me' disso quando vir o filme.
Agora um Spoiler de World Trade Center. Cuidado.
Ficariamos igualmente chateados se nos idssessem quais dos bombeiros iriam sobreviver?
Concordo com o Ricardo.
Não acho que saber o desfecho da história prejudique muito o filme. Aliás foi editado na mesma altura o livro em que se baseia o filme, e o filme não vive de nenhum "whodunit" nem de nenhum twist final.
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