Esta sexta-feira foi noite de cinema. E, já há muito estava decidido que o seria. Acontecesse o que acontecesse, a sessão das 21:30 era a única opção de ver Promessas Perigosas, de Cronenberg, este fim-de-semana. Quando queremos muito ver um filme, certos acessórios, como o lugar da sala, acabam relegados para segundo plano. No momento em que me dirigi às bilheteiras, faltavam pouco mais de cinco minutos para o início do filme. Diz-me, então, a colaboradora dos cinemas Lusomundo, que já só tinham lugares para a primeira fila. Um valente suspiro, seguido de um audível ‘Tchiiii’, foi a minha reacção. Tinha de ser. Cabisbaixo, lá caminhei em direcção à sala. Só quando aí cheguei é que pude constatar o quão mau era o lugar que me estava destinado. Não só era na primeira fila, como a sala era minúscula e a cadeira ficava mesmo na ponta direita. Ou seja, o lado esquerdo do pescoço que se preparasse, que aquela iria ser uma longa noite. Foi por essa altura que pensei para com os meus botões Não te preocupes, que o filme é bom, e vai valer a pena o sacrifício.
O tempo vai passando, os trailers vão começando, e a sala enche-se. Confirmo, ao olhar para trás, que aquilo estava mesmo apinhado, e que os 97 lugares rapidamente ficam lotados. Nisto, duas senhoras sentam-se ao meu lado. Vinham sozinhas e sorridentes. Apesar do lugar que lhes tinha calhado em rifa. Uma delas comenta qualquer coisa sobre a localização da cadeira e olha para mim. Nestas coisas, rimo-nos sempre, para dar um ar mais simpático. No entanto, para além do riso, num tom fatalista digo Tem de ser. Ao que a que está mesmo ao meu lado responde Não, eu queria mesmo este filme. Quero mesmo. Tudo isto com um ar muito sorridente.
O filme começa. Ainda não tinham decorrido três minutos e já a senhora do lado dizia ‘Jesus’. Passado um bocado, acrescentou a esta ideia um ‘Minha Nossa’. Numa determinada cena, contorceu-se de todas as maneiras e mais alguma, de modo a olhar para todos os lados menos para o ecrã. As frases com que nos foi brindando, a cada momento mais violento, foram autênticas delícias. Ele era ‘O sangue frio com que se fazem as coisas’, ‘Se eu fumasse um cigarrinho agora é que era’, ‘Isto os homens…’, ‘Eu não posso, eu não posso aceitar isto’, ‘Não, isto na Rússia sempre foi assim’. No final, creio que se justificava a dúvida de se a senhora tinha apreciado ou não a obra de Cronenberg. Estive quase para perguntar. No entanto, no fim do filme gosto sempre de saborear aquele momento em que regressamos à realidade, pelo que me mantive calado.
Foi só nesse momento, que o pescoço começou a doer. Até então, a beleza da obra de Cronenberg não o tinha permitido.

É incrível a forma como o canadiano consegue relatar uma história tão perturbante e, ao mesmo tempo, tão enternecedora. Em certas alturas, sentimo-nos a viver um autêntico pesadelo, para, logo a seguir, experimentarmos o espantoso sentimento de esperança que alimenta os sonhos. Cronenberg mostra-nos as entranhas e o lado sujo do mundo que habitamos, enquanto que, à superfície, retrata como ninguém a aparência idílica do mesmo.
Se há imagens que nos ficam de Uma História de Violência e Promessas Perigosas, são aquelas passadas em família, à mesa de jantar. O confronto começa na palavra, na interpretação, e nas crenças de cada um. Stepan (Jerzy Skolimowski), o tio de Anna, é uma daquelas personagens que assenta que nem uma luva, num filme de Cronenberg. Todo ele é um turbilhão prestes a explodir. No entanto, a família no qual está inserido não podia ser mais pacata e serena.
Ao nível da interpretação, Viggo Mortensen é um nome a ter em consideração para os Óscares. Este é, sem dúvida alguma, o melhor trabalho do actor até hoje. E, convém não esquecer que a Academia tende a valorizar aqueles que pesquisam e se transfiguram, como Mortensen fez. Enquanto Anna, Naomi Watts é o cúmulo da vulnerabilidade e da entrega a uma causa. O olhar de Anna transporta a promessa de que fala o título e, a actriz faz-nos realmente crer que existe um lado intrinsecamente bom em tudo. Mesmo que não haja, como nos é dado a perceber por Kirill, num desempenho soberbo de Vicent Casell. Do argumento de Steven Knight, então, nem se fala. Irrepreensível.
Em suma, não me importava nada de voltar a ver este Promessas Perigosas na primeira fila. Tinha era de ser do lado esquerdo da sala, só para equilibrar estas dores no pescoço.
Alvy Singer
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