Duas semanas de afastamento, uma sobretudo devido a questões laborais, outra mais consequência da procrastinação necessária à recuperação, traduzem-se num perfeito alheamento das novidades cinematográficas. Nas últimas quatro semanas, apenas duas idas ao Cinema. Os níveis de frames no sangue estão no limiar da anemia cinéfila. Trailers, nem vê-los. Só a partir desta última sexta-feira, por mais absurdo que pareça, este que se assina se atirou de cabeça nos sites do costume, à procura de tudo o que fosse informação sobre a sétima arte. Como de pão para a boca, mas sem igual dramatismo, pediam-se trivialidades, discussões, novidades e debates sobre filmes. E, vá lá, a partir deste fim-de-semana, as coisas acalmaram. As previsões para os próximos meses dizem-nos que, daqui em diante, tempo não deverá faltar para pormos a conversa em dia. Nos próximo meses não vamos a lado nenhum. É verdade, aqui estaremos dia e noite, de fio a pavio, no auge da silly season. Agora, hoje, porque se faz tarde, é chegada a altura de dar o pontapé de saída neste restabelecimento das boas novas em falta. Por isso, não percamos nem mais um segundo e, sem demora, passemos ao primeiro post no Deuxieme em duas semanas. Poças, dito assim, parece que foi uma eternidade. E foi.
Iniciemos as hostilidades com o trailer de Tetro, o próximo de Francis Ford Coppola. Aquele que era para ir a Cannes até Coppola ter dito que o Festival era demasiado grande para a sua aura indie. Cannes fez a vontade do cineasta, e lá arranjou um espaço meio refundido que dá pelo nome de Directors Fortnight. No fundo, Tetro vai a Cannes, mas não façamos muito alarido à volta disso, não vá Coppola achar que está a ter demasiado tempo de antena.
Contudo, porque uma andorinha não faz a Primavera – e, se espreitarmos pela janela vemos que nem deve estar na altura dela –, a American Zoetrope lá fez o favor de nos atirar com uma segunda andorinha, e aqui ficam bem embrulhados, com direito a laço e tudo, os primeiros três minutos do próximo título de Coppola.
Primeiro, era para entrar. Saiu a lista, ninguém o viu por lá. Agora, parece que, afinal de contas, Tetro vai a Cannes. Dramático. Voltas e reviravoltas para o filme independente de Francis Ford Coppola, com Vicent Gallo e Maribel Verdú. O Hollywood Reporter desvenda o mistério.
“Although the director said last week that he turned down an invitation to walk the red carpet at the Festival de Cannes, his film is set to open the 41st annual Directors’ Fortnight, the less-glitzy sidebar to the main event, organizers said Friday.
Coppola opted for the Fortnight invite, he explained, because the sidebar is more in keeping with the film’s indie nature. ‘It is so difficult to work in a personal way in the cinema today, between the business constraints and commercial realities, that you must let your work be a cry for independence, which is why it is so appropriate that ‘Tetro’ is premiered in the Directors’ Fortnight, where young filmmakers go,’ he said”.
A velha questão da pirâmide. Na base, tronco e até bem perto do vértice superior, mais de 95% dos cineastas de todo o mundo davam este, aquele e cinco tostões para verem um título seu em competição ou na secção Un Certain Regard. Coppola faz parte dos outros 5%. Mas, caramba, fez por merecê-lo. No Hollywood Reporter podemos ver a lista completa dos filmes presentes no Directors Fortnight, onde encontramos Ne Change Rien, do português Pedro Costa.
De Francis Ford Coppola e da saga O Padrinho, voltaremos a falar neste segmento. Para já, a vigésima terceira bofetada desta lista. Da próxima vez, os intervenientes serão outros.
Filme: O Padrinho (Francis Ford Coppola, 1972).
Gladiadores: Johnny Fontaine e Marlon Brando.
A cena: Al Martino (Fontaine), sobrinho de Don Vito Corleone (Brando), é um dos convidados no casamento de Connie (Talia Shire). Ao vê-lo chegar pela janela, um surpreso Tom Hagen (Robert Duvall) assegura que Al, um cantor aspirante a actor, deve andar com problemas. Minuto e meio mais tarde temos a confirmação. Parece que um produtor de Hollywood torce o nariz à contratação de Al como protagonista, e o pobre desgraçado não sabe o que fazer à vida. O tio diz-lhe. You can act like a man! Ainda nesta cena ouvimos pela primeira vez as sábias palavras I’ll make him an offer he can’t refuse. O Cinema nunca mais foi o mesmo.
Porque já nos cruzamos neste recanto da blogosfera há algum tempo, creio que é chegada a altura de partilhar isto. Nada do outro mundo e, ao mesmo tempo, tão importante. Que todos gostamos de Cinema, não é segredo. Que olhamos para arte com um encanto especial, também não. Sinónimos de paixão são ardor, chama e amor. E, em muitos casos, é precisamente tudo isto que sentimos em relação a uma qualquer película. Agora, aquilo que devemo-nos perguntar, em caso de sanidade mental, é como podemos estar apaixonados por um género de expressão artística e um conjunto de obras cinematográficas que chega até nós apenas por um dos cinco sentidos disponíveis? Não seria muito mais lógico ser maluco, por exemplo, por tartes de maçã? A sua textura, o seu cheiro, o seu sabor. Se calhar teríamos muito mais a ganhar se gostássemos de uma boa tarte de maçã. No entanto, duvido muito que, por mais que olhasse para uma fatia de uma magnífica e apetitosa tarte de maçã, esta transmitisse tudo aquilo que uma qualquer cena poderosa da sétima arte transmite. E, neste ponto, gostava de deixar aqui a cena que, até hoje, mais coisas me disse e ensinou. No fundo, a cena mais marcante na existência de Alvy Singer – o filme, esse, será outro, como a assinatura indica. Esta cena, autêntico spoiler para quem nunca se aventurou no segundo capítulo da saga Godfather, assenta que nem uma luva, em toda a história, até àquele momento. Esta cena dá-nos exactamente aquilo que esperamos destas duas personagens. Esta cena mostra-nos como um bom argumento dispensa palavras. Esta cena prova como Al Pacino consegue ser o melhor do mundo, sem abrir a boca. Esta cena certifica o talento de Diane Keaton, só pelo olhar da actriz. Esta cena testemunha como o silêncio pode ser aliado da tensão emocional, deixando o espectador com o coração nas mãos, à espera do melhor desfecho. Esta cena, simples do inicio ao fim, revela como o óbvio, por vezes, consegue ser tão desarmante como o imprevisto. Esta é, para mim, a melhor cena de todos os tempos. Desse lado, qual é a eleita?
Apesar de continuarem a chover elogios a American Gangster e There Will Be Blood, a par de Reservation Road, este continua a ser o título mais aguardado por estes lados. Hoje, voltamos a falar dele no Deuxiéme devido ao mais recente trailer disponibilizado. Na verdade, não vale a pena escamotear, a principal razão de toda esta expectativa reside na realização de Coppola. O mesmo título, o mesmo elenco, nas mãos de outro cineasta, e a história seria bem diferente.
No entanto, como das mãos deste senhor, têm por hábito sair momentos únicos que para sempre ficarão gravados na nossa memória, não parece que seja totalmente descabido este alarido em torno de Youth Without Youth. Ainda por cima, quando isto parece ser uma fusão de duas míticas séries. Será que teremos aqui um X-Files meets The Fugitive?