O novo trailer de Funny People eleva a fasquia. Continuam a ser imagens que não nos arrancam gargalhadas estridentes, é certo. Mas, caraças, deixam-nos bem dispostos. Judd Apatow já afirmou não tratar-se de um filme que aspira apenas a ser mais uma comédia. Pelo tom dos trailers confirmamos que o registo não pode ser semelhante ao de um Knocked Up. Apatow parece arriscar, e nós gostamos disso. Assim como nos agrada a ideia de ver um Adam Sandler a mostrar mais do que as habituais caretas acompanhadas de distorções vocais. Ou o agente de Sandler anda a dormir, ou é o próprio Sandler que não sabe ler guiões. O talento nunca esteve em causa, mas sim os filmes que costuma protagonizar.
Naquela que será uma das maiores demonstrações de sempre da especulação gritante que circunda o lançamento de uma determinada película, Jeff Wells, do Hollywood Elsewhere, publica comentários que tem ouvido. Dois ou três amigos que têm assistido às primeiras exibições de Funny People, de Judd Apatow, e que não cabem em si de contentes. O trailer deixou-nos estranhamente curiosos. Curiosos, por ser um Apatow. Estranhamente, por nos parecer que o filme do cineasta, não só abandona o registo cómico dominante de trabalhos anteriores, como abraça o lacrimejante recessivo. Em Março de 2008, o Rotten Tomatoes conversou com Apatow, e o argumentista e realizador falou dos seus cinco filmes preferidos. Entre eles, Tootsie e Terms of Endearment. Dois expoentes máximos da simbiose entre drama e comédia. Sobre o filme de James L. Brooks, Apatow disse.
“I can never get enough of Terms of Endearment. I find myself watching it over and over again. It does everything that I want a movie to do. I fall in love with the characters. I care about their journeys. It never does anything easy to make me like the characters. It doesn't sell out the characters for likeability. They all do things that are awful to each other. The relationships are very complicated. Yet, you root for all of them when you watch the movie”.
Ora, parte da premissa de Funny People passa pela doença terminal de George Simmons (Adam Sandler). Quer-nos parecer, acima de tudo, que Apatow poderá procurar com este título afastar-se do mero agrado das massas, e ganhar também o afecto dos círculos de críticos e Academia de Hollywood. Jeff Wells diz-nos que, quem já viu, coloca o filme na rota dos prémios.
“Possibly an award-level thing, a director friend said this morning, although he was just passing along the chatter. It's more in the realm of Sandler for Best Actor and Apatow's script for Best Original Screenplay, he speculated, than a Best Picture shot...but you never know.
So I called a non-vested guy who's seen it, and here's what he said: "Really funny, a really sweet movie, a lot of veracity...really a brilliant film. Everybody's game goes up a lot. It's a James L. Brooks-level thing and a great role for Adam. It's a perfect blend of everything Sandler has done in a serious vein. The film could be a bit of a marketing problem because it's about show business but it's so real.. It's about a famous guy, a comedian, having to deal with the fact hat he has no life and nobody to turn to. But he gets better [through a relationship with a younger comic]...it's basically a love letter to having a family”.
Em 2006, com This Film is Not Yet Rated, Kirby Dick mergulhou nos meandros da MPAA, e escrutinou os parâmetros corruptos que regem a classificação de filmes nos Estados Unidos. Daí para cá, passámos a desconfiar duplamente do carimbo atribuído por este colégio de avaliadores. Os critérios, muitas vezes ambíguos, deixam a janela para falcatruas completamente escancaradas Uma só palavra, um simples gesto, e aquilo que era R passa a PG-13 num piscar de olhos. Foi isto que aconteceu a Year One, escrito e realizado por Harold Ramis, e produzido por Judd Apatow. No espaço de três dias, o filme de Ramis passou de um redondo R a um muito mais convidativo PG-13. A meio da semana, a comédia da Columbia viu-se a braços com uma classificação deveras prejudicial. Com um orçamento estimado em 75 milhões de dólares, o estúdio não podia dar-se ao luxo de lançar a obra no mercado com o selo R. Ontem, segundo o Hollywood Reporter, após um corte e costura na sala de montagem, a MPAA reviu a classificação. Agora PG-13, devido a “crude and sexual content throughout, brief strong language and comic violence”. Não será surpresa encontrar o material cortado nas cenas extras do Dvd e Blu-ray. Já agora, aqui fica o trailer que ainda não havia pisado terrenos deuxiemianos.
Ontem, afirmámos neste espaço que a companhia de Judd Apatow seria uma das produtoras de Ghost Busters 3. Em entrevista ao L.A. Times, Doug Belgard, presidente da Columbia Pictures, veio agora refutar a notícia.
“It's not true. We have some great new writers working on a new script, but Judd isn't involved. Judging from the frenzy on the Internet, there still seems to be plenty of interest in the idea of doing another film, so we're certainly taking that as a good sign”.
Recordemos o que Bill Murray teve a dizer, há uns meses atrás, sobre um terceiro capítulo da saga.
Só falta a confirmação pela boca do próprio. No entanto, parece que já é oficial. Judd Apatow será um dos produtores de Ghost Busters 3. O nome do argumentista e realizador vinha sendo associado ao projecto desde que os rumores de uma sequela começaram a ser mais credíveis. Por estes dias, a sua contribuição será já uma certeza. Agora, se a dupla de argumentistas já está escolhida – Lee Eisenberg e Stupnitsky, de The Office –, falta ainda saber quem será o realizador, e os ilustres actores que vestirão a farda outrora usada a rigor por Bill Murray, Dan Akroyd, Harold Raimis e Ernie Hudson. Até hoje, Apatow nunca realizou uma película cujo guião não fosse escrito por si. Não nos parece que a escolha para uma primeira vez resida numa sequela. E, até sabermos quem será o realizador, ainda deverá ir mais um mês. Mais interessante, parece a discussão em torno dos actores. A Apatow Crew, da qual fazem parte Seth Rogen, Jonah Hill, Jason Segel, Paul Rudd e Bill Hader está na linha da frente. Com alguma imaginação, até conseguimos ver alguns destes na pele de caça-fantasmas. Sobretudo, Rudd e Hader. No entanto, com uma dupla de The Office a redigir o argumento, e recordando quem protagonizou a estreia de Apatow na realização (The 40 Year Old Virgin), Steve Carell é o primeiro nome que nos vem à mente. Mas, tomamos a liberdade de atirar aqui outros dois para o ar, que não nos importávamos minimamente de ver neste terceiro capítulo. Depois do que fez em Tropic Thunder, Robert Downey Jr., e pela improvisação que lhe vem atrelada, Vince Vaughn. No entanto, quem gostávamos de ter mesmo de volta era Bill Murray. Num papel secundário, se houver espaço. Num cameo, se não houver. Como que a abençoar o filme.
Num espectáculo com uns quantos números imprevistos e muitas alterações ao que estávamos acostumados, onde colocar o segmento realizado por Judd Apatow, com James Franco e Seth Rogen? À primeira vista, um sketch inofensivo. Contudo, bem mais do que isso. Questões existenciais (Franco: “Who do you think is a better actor, Ronald Reagan or Barack Obama?”); o acondicionamento parcimonioso do espírito Apatoniano, em apenas três minutos; a redefinição de todo um género que pensávamos ser o de The Reader e Doubt; e, por último, o recurso ao mestre Janusz Kaminski, num cruzamento sempre enriquecedor entre diferentes áreas da sétima arte, naquilo que se traduziria, momentos mais tarde, na primeira presença em palco de um director de fotografia para apresentar um troféu.
Durante estes últimos dias, com o rodopio em torno dos Oscar, o maior receio é o de passar ao lado de uma qualquer novidade cinematográfica. Um teaser trailer, um poster, um anúncio de casting, o que seja. E, era isso que quase ia acontecendo com o recente trailer de Funny People. O próximo filme de Judd Apatow (The 40-Year-Old Virgin, Knocked Up), teve direito a alguns segundos no tal segmento que concluiu a cerimónia dos prémios da Academia de Hollywood. Mas, nada melhor do que três minutos dedicados, única e exclusivamente, à obra.
Desde Punch-Drunk Love (Paul Thomas Anderson, 2002), que aguardamos por um novo desempenho convincente de Adam Sandler – por estes lados, ainda não vimos Reign Over Me (Mike Binder, 2007). Depositamos na nova película de Apatow a esperança de um Sandler à altura do desafio, e um actor que não puxe o filme para baixo. Se a obra for má, caneco, que seja por culpa dela própria e mais ninguém. Funny People conta-nos a história de George Simmons (Sandler), um comediante de stand up de sucesso, que descobre ter uma doença terminal, e menos de um ano de vida. Ira Wright (Seth Rogen), é um aspirante a comediante, com motivação e talento, mas que ainda não se encontrou em palco. Quando Ira e George se cruzam num clube de comédia, o principiante chama à atenção do mais velho. George recruta então o novato Ira para seu assistente pessoal.
Para além de Sandler e Rogen, o filme conta com as participações de Leslie Mann, eric Bana, Jason Schwartzman, Jonah Hill e RZA. O trailer parece mostrar uma obra não tão cómica quanto as duas anteriores do cineasta. No entanto, segundo o próprio Apatow, “I'm trying to make a very serious movie that is twice as funny as my other movies. Wish me luck!”. Não seja por isso. Boa sorte!
O encadeamento foi mais ou menos este. Há cerca de uma semana passeava pelos corredores da Fnac, a celebrar o seu 10º aniversário com algumas promoções interessantes, quando encontro o filme Super Baldas (Greg Mottola, 2007), disponível em UMD para a PlayStation Portable. Num ápice dirijo-me à área das novidades para Dvd, mas nada. Pelos vistos, o filme ainda só tinha chegado para a PSP. Por um lado, a estranheza. Por outro, o agastamento. Foi então que decidi vingar-me em Virgem aos 40 Anos (Judd Apatow, 2005), que constituía ainda uma falha gravíssima nas estantes cá de casa. Posto isto, há uns dois dias entro no estaminé do Nuno Markl para deparar-me, precisamente, com um post sobre Super Baldas, e uma edição vinda do estrangeiro. Foi aí que pensei Não, não vais ceder à tentação. Espera pelo raio do filme.
Esta noite, quando a fraqueza atingia valores recordes, foi necessário colocar o Dvd de Virgem aos 40 Anos, e tentar amenizar as consequências. Quando o filme terminou, o objectivo tinha sido atingido. Estava já novamente mais do que mentalizado para esperar o tempo que fosse preciso pelo título de Greg Mottola. Decidi ir ao site da Fnac, só para ver se havia novidades. E, havia: o filme já está disponível em Blu Ray. Caramba, será que anda toda a gente a ver isto, menos aqueles que querem comprar o filme para o introduzir num leitor de Dvd? Amanhã, dê por onde der, irei à loja pelos próprios pés (saindo do carro até entrar no centro comercial), para ver se isto ainda não chegou no mais comum dos formatos. Se não tiver chegado… dou meia volta e venho-me embora.
Numa noite marcada pelo desapontamento, só mesmo esta tradução em Virgem aos 40 Anos para tirar um sorriso:
Mooj: By the way, what date are you on now? Andy: I think it’s around seventeen. It’s hard to tell actually what constitutes a date. Tradução: Mooj: Por falar nisso, em que data estás? Andy: Por volta de 17, acho. É difícil dizer o que faz uma data.
Nestas coisas um tipo pode ser preso por ter cão e preso por não ter. Ou as expectativas estão altas como tudo e, por isso, não gostamos do filme ou, então, gostamos do filme porque já esperávamos gostar. No entanto, a sermos presos, que seja por ter alguma coisa, caramba. Entenda-se, termos cão. O que, neste caso, significa termos as expectativas elevadas e, ainda assim, ou, talvez por isso, gostar do filme.
Um Azar do Caraças acabou por revelar-se tudo aquilo que dele se esperava e, ainda mais que isso. A história duma gravidez indesejada, após uma noite cujo slogan bem poderia ser o da Nike, transforma-se num dos retratos mais inventivos dos últimos tempos sobre a colisão de dois mundos que pouco ou nada têm em comum. Neste particular, Apatow não nos traz nada de novo. Um deles não faz nenhum da vida, o outro tem objectivos profissionais bem definidos. Um deles pensa no futuro, enquanto o outro se preocupa com o dinheiro que tem para comprar substâncias ilícitas para o resto da semana. No fundo, para um, 1+1 são 2. Para o outro, 1+1 depende do que significar o +. Duas pessoas serem tão diferentes quanto estas pode ser particularmente chato, se vierem a descobrir que vão ter um filho. Uma da outra, diga-se E, Alison e Ben descobrem rapidamente que aquela noite em que o álcool falou mais alto se traduzirá nisso mesmo.
Assim como em Super Baldas, perceber-se-á com alguma facilidade se este filme não apelar à maioria. Apesar da universalidade do tema tratado, a forma peculiar com que Apatow o aborda poderá resultar na retracção de muitos espectadores. Ao falar de uma gravidez inesperada, o filme facilmente poderia seguir um tom meloso e delicado, interrompido a espaços por algo mais picante, como que a arriscar a fuga a um certo registo mais abrangente. No entanto, Apatow opta pelo inverso. Um Azar do Caraças só a espaços é que se assume como uma comédia sobre o nascimento de uma criança. Antes, muito mais são as vezes em que isto pretende demonstrar a transição para a idade adulta, muito mais são as vezes em que isto nos fala de casamentos presos por arames, muito mais são as vezes que isto evidencia as complicações que atravessam uma relação, muito mais são as vezes em que isto retrata a velha máxima de que as aparências enganam.
Assim que o filme começa, a personagem de Alison acorda num ambiente totalmente diferente de Ben. A primeira conclusão que nos obrigam logo a tirar é a de que Alison vive bem melhor do que Ben e que este, pobre coitado, tem de contar os tostões todos os dias e, desgraçado, não tem um emprego. Contudo, cedo percebemos que nenhum deles vive num mar de rosas, e que a maior riqueza esconde-se por detrás de um extracto bancário.
A maior vitória deste filme surge como resultado da irreverência de Apatow, da originalidade da sua escrita, e da ousadia que colocou em cada linha deste argumento. Esta até pode não ser a melhor comédia sobre um casal improvável. Até pode não ser a melhor maneira de parodiar uma situação como esta. Mas, diga-se o que se disser, é a primeira vez numa obra sobre uma gravidez indesejada que se fala da significância de Munique de Steven Spielberg, que se discute a existência de cinco tipo de cadeiras nos quartos de hotéis, ou que nos colocamos na pele de um porteiro de discoteca. Apatow terá, pelo menos, este mérito. Ao dissertar desta forma sobre este tema, certamente se demarcou de tudo aquilo que lhe antecedeu, e terá criado um belo sarilho a todos os que agora quiserem fazer algo de diferente. Isto não é o Annie Hall dos nossos tempos, nem tão pouco o Quatro Casamentos e Um Funeral com uma criança no meio. Apatow consegue com este Um Azar do Caraças fazer um filme distinto. E, em abono da verdade, fá-lo de uma forma soberba.
Não sendo uma obra-prima, este é um filme que ganha o seu lugar na história do cinema, relembrando-nos a cada frame uma lapidar frase de John Lennon: “A vida é o que nos acontece enquanto fazemos outros planos”.