
Para melhor se compreender a extensão do impacto provocado pela experiência Avatar – isto é que é recuperação da matéria dada –, será indispensável deitar uma ou duas pitadas de Psicologia à mistura, colher e meia de experiência pessoal, e deixar marinar durante meia hora com o senso comum em lume brando. No final, é retirar a critica quando estiver bem tostadinha por cima, pulverizar com os chavões da praxe, e servir à mesa. Bom apetite. Alguma indisposição, é rever Up como digestivo.
Quando, em finais de Agosto, teve lugar o tão aguardado visionamento de quinze minutos do mais recente título de James Cameron, este que se assina partia de férias para uma mais do que merecida semana – única no último ano, note-se – de dolce fare niente. O significado da data, e o que estava implícito nas duas frentes de lazer, dificultaram a flexibilidade que se impunha para abarcar o melhor de dois mundos. Que, tantas vezes se diz, erradamente, ser impossivel de ter. Veja-se, para não irmos mais longe, o caso de Jake Sully. O melhor deste mundo e do outro na palma da mão. De nada valeram, portanto, os três meses passados a salivar, à espera de tão justa sorte. À mesma hora em que meio milhar de felizardos entrava nas salas para visitar Pandora, antes de todos os outros enteados, Alvy Singer olhava cabisbaixo por uma janela, desejando com todas as ganas à disposição que aquele mega-trailer fosse antes uma mega-banhada. Literalmente. Com detectores de incêndio a funcionar, contribuindo para o espectáculo. Escusado será dizer que a dita semana foi tudo menos de descanso. Pese embora o corpo não tenha sido submetido a grande desgaste físico, psiquicamente, um avatar havia sido criado e transportado a mente para uma qualquer sala de cinema nos antípodas. Seguiram-se cinco penosos meses. A excitação era mais que muita, e as fotografias, trailers e featurettes com que fomos brindados ao longo da espera, em nada ajudaram para combater a ansiedade. Pelo contrário. No fundo, as campanhas de marketing de Hollywood cingem-se à mais simples regra de sedução. Quanto mais se vê, mais se quer ver. Erotismo puro.
Agora, esta angústia conduz-nos a uma outra, e é neste ponto que metemos Carl Rogers ao barulho. Rogers, conceituado psicólogo norte-americano do séc. XX, postulou um dia a existência de dois selves. O self real e o ideal. O ideal será aquele que, como está mesmo a dizer, idealizamos intrinsecamente. O real, aquele que temos na verdade. A distância entre os dois ditará algo pomposo que cognominou de incongruência. Ora, mas porque carga de água é que estamos aqui a falar deste Rogers e fomos buscar estes conceitos à sua bibliografia? Até há bem pouco tempo, Alvy Singer vivia com uma tremenda incongruência cinéfila. Tudo por culpa de George Lucas e Gene Roddenberry. Longe de ser um tipo invejoso – basta ver a parte da banhada para comprová-lo –, confesso sempre ter sentido uma ligeira ponta de ciúmes da geração de 70. Se entendermos a cinéfilia como uma paixão, talvez possamos conceber a ideia de um filme como objecto de amor, sem entendê-la enquanto patologia. Nesse sentido, sempre questionei o porquê de aquela década ter levado com dois fenómenos cinematográficos inter-planetários, e a década de noventa ter ficado a chuchar no dedo. E, quem diz a de noventa, diz também a do duplo zero. A década de oitenta teve The Terminator e Blade Runner, por isso, não se pode queixar muito. No fundo, o que se pedia era o bilhete para um mundo desconhecido. Para uma realidade paralela, estranha ao comum dos mortais, com uma aura única e cativante, que nos fizesse querer comprar um bilhete só de ida, e deixar o T2 do lado de cá a alugar. Alguns poderão indagar, justificadamente, se não tivemos já direito a algo do género neste milénio. E, é bem visto pegar no trabalho de Peter Jackson. Pertinente, mesmo. Contudo, há aqui um aspecto que faz a diferença. Para a mística ser completa, exige-se que a odisseia seja original. Criada de raíz. Ao pegar numa história com mais de meio século, Jackson não atingiu os píncaros da histeria tão habituais nestes casos. Mesmo assim, ainda houve por aí gente a sair de casa para o trabalho apenas com um robe verde, em homenagem a Frodo Baggins. Por esta altura, estarão os detractores a afirmar que Avatar tem tanto de original como a Viva la Vida, e que James Cameron se limitou a recorrer ao Microsoft Paint para dar uma nova tonalidade a Pocahontas. Sempre que um argumento desta natureza vem à baila, recordo o lamento de um guionista pela pro-actividade de outros tempos. Dizia ele – o nome está debaixo da língua, mas uma afta impede a sua remoção – que já não havia histórias boas para contar. Os gregos contaram-nas todas. E, mesmo essas, Shakespeare fez o favor de retocar. É certo que esta contra-argumentação apresenta praticamente as mesmas lacunas da ideia que pretende refutar. Importa então sublinhar que a originalidade, ou falta dela, presente em Avatar, não se assume como critério de avaliação por excelência. Pelo menos, não para este cinéfilo de meia leca. A meio do filme era já perceptível que a incongruência de sempre estava prestes a ser resolvida. E, essa passou a ser a maior preocupação. A certa altura, a dúvida instalou-se. Queres ver que está-se aqui a criar um fenómeno geek como há muito não se via?, disse para com os meus botões. Não responderam. Todas as criticas lidas, todas as achegas dadas aqui pela redacção, todos os artigos que versavam sobre a maluqueira que se havia instalado deixavam antever uma experiência marcante, inovadora e potencialmente agradável. Cambada de mentirosos. O filme é muito mais do que isso. Sabemos que alguma coisa não bate certo quando, já muito depois de termos saído da sala, no recanto do lar, alguém se vira para nós e diz Caramba, é só um filme. Nada mais dilacerante do que uma crua e dura chamada à realidade. Se, pela mão da Disney e Pixar voltamos a ser crianças, com Avatar deixamos de ser quem somos. Na manhã seguinte, pouco minutos depois de ter saído da cama, cedi à tentação de colocar novamente os óculos 3D. A desilusão não podia ter sido maior. Para além de uma tremenda tontura, não se avistaram Na’vis em lado algum. Nem o chão se iluminou à nossa passagem, nem montanhas sobrevoavam as nuvens mais altas. Subscrevo por inteiro a tese que defende nem sempre gostarmos de um filme de que gostamos. Paradoxal? Nem tanto. Há mais de quinze anos que A Lista de Schindler (Steven Spielberg, 1993) se encontra no topo da lista de preferências deste que se assina. Não ocupando o primeiro lugar, está perto. Agora, em década e meia, contam-se pelos dedos de uma mão – e não precisos todos – o número de visionamentos de tão magnífica película. Ao mesmo, todos os dedos do corpo não chegam para contabilizar as vezes que os Dvd’s de O Bom Rebelde ou Casino Royale já entraram no leitor. Um pouco o mesmo que se passa com o cozido à portuguesa. De longe, o prato de eleição de Alvy Singer. Contudo, manjar este mimo da culinária lusa diariamente, não só traria graves consequências estomacais daqui por uns anos, como rapidamente se traduziria numa perda do encanto. O cozido é divinal, mas doseado. Já o bitoque, também sabe sempre bem, e sai com muito mais frequência. No fundo, nem sempre gostamos de rever um filme de que gostámos, e muito. Deste modo, não termos vontade de rever uma determinada obra, não significa necessariamente que não morremos de amor por ela. O contrário, já não é tão verdade. Se, mal o filme termina, a vontade passa por voltar logo ao inicio, então, temos amor para o resto da vida. Não tem nada que saber. A película marcou-nos de tal maneira, que não queremos que se vá embora. Com Avatar, no entanto, aconteceu-me algo que, até hoje, nunca me havia acontecido. E, duvido piamente que algum dia volte a acontecer. Com a voz de Leona Lewis a ecoar das colunas, quando as luzes se acenderam, não só praguejei ruidosamente por o raio do filme ter terminado, como desejei secretamente que o meu mundo não fosse este. Quem é que nunca sonhou viver um romance como o de Rick e Ilsa? Bem, não propriamente como o deles, mas aceita-se a retórica. Quem é que nunca fantasiou em cruzar-se com um Fauno ao fim da tarde? Exacto. Agora, com Avatar, o devaneio não se esgota em conhecer, cruzar, ou viver. O desejo passa por habitar, estar lá, e adoptar outra realidade. O texto já vai mais que longo, e ainda nada que se aproveite foi dito. Contudo, não creio poder ser mais explícito do que isto. Chamem-me avatard, chamem o que quiserem, mas o filme de James Cameron não foi o melhor filme que vi em 2009. Foi a melhor brochura do mundo que desejava coabitar, que alguma vez me foi apresentada. Se há filmes que são mais do que isso, este é um deles. Agora, dizem-me que, tal como em 1977, ano em que Star Wars chegou às salas, talvez o maior êxito cinematográfico da temporada não tenha a pujança suficiente para superar a elegância e simplicidade de um outro título mais pequeno. Parece que anda por aí malta a comparar Jake Sully com Anakin Skywalker, e Woody Allen com George Clooney. Dentro de poucas horas será altura de ver Nas Nuvens. Mais logo falamos.
Alvy Singer
Etiquetas: Avatar, James Cameron, Sam Worthington, Zoe Saldana