Há qualquer coisa de Wes Anderson em Wes Anderson, difícil de explicar. Sendo camaleónico, o cineasta transporta consigo, ao mesmo tempo, singularidades imediatamente identificáveis num par de segundos. A primeira vez que nos deparámos com o videoclip de Cape Cod Kwassa Kwassa, dos Vampire Weekend, dissemos para com os nossos botões, Com a breca, ainda não vimos este do Wes Anderson. Mas, não. Era apenas um videoclip que tinha ido buscar referências a obras do realizador. A revista Blender partilha desta opinião. Isto tudo para dizer que, mesmo que não soubéssemos quem era o realizador de Fantastic Mr. Fox, se nos apresentassem uma lista com cinquenta hipóteses, e lá para o meio estivesse o nome de Anderson, é que nem hesitávamos. A não ser que também colocassem lá o de Brian Robbins.
A USA Today volta a brindar-nos com mais uma extensa galeria, desta feita dedicada a Fantastic Mr. Fox. Novas fotografias do próximo de Wes Anderson, com algumas declarações curiosas dos intervenientes. Como o esclarecimento de Meryl Streep sobre as suas motivações para dar a voz num filme de animação.
“When else am I going to be Mrs. George Clooney?”.
Streep, essa, que parece colocar-se novamente em posição para um bom arremesso à próxima temporada de prémios. Julie & Julia já começou a ser avaliado por alguns críticos norte-americanos e, apesar de os resultados serem maioritariamente favoráveis, existem muitos pontos de discórdia. Incluindo o desempenho de Amy Adams. Contudo, um denominador comum atravessa todas as apreciações. O magnifico trabalho de Streep.
Justin Chang, da Variety, que retrata o filme como “overstuffed and predigested … a slick, presumptuous vanity project”, diz da interpretação da actriz.
“Delivering an elegant approximation of the woman’s distinctly flutelike vocal pitch and endearing mannerisms, Streep abundantly conveys the warmth, rich humor and joie de vivre so evident in Julia’s TV appearances and her writing”.
“Another Streep marvel … Streep delivers yet another uncanny impersonation, getting every shade of the famously hearty voice and extravagant, life-loving personality that was Julia”.
A História está cheia de bons desempenhos que, por pertencerem a filmes menos conseguidos, não chegaram às nomeações, quanto mais ao galardão. Seja para os SAG, Globos de Ouro ou Oscar, a campanha de qualquer actor passa também pelos atributos da obra em que entra. E, para chegar à número dezasseis, Streep sabe que Julie & Julia terá de conquistar uma elevada percentagem da audiência. Contudo, não nos podemos esquecer que é de Meryl Streep de quem estamos em falar aqui. Em si mesma, uma marca. Para este colosso, as regras do jogo são ligeiramente diferentes. Quem sabe se um bom desempenho não é o que basta para chegar ao Kodak Theater?
Quando a imaginação é fértil, tudo serve para passar o tempo. Junte-se um telefonema entediante, uma caneta e um pedaço de papel, e o mundo que se prepare para os rabiscos mais abstractos de que há memória desde Kandinsky. Agora, na ausência de caneta e papel, o cinéfilo arranja uma solução. Imaginar como seria o seu filme de sonho. Colocar-se na pele de um produtor endinheirado, e juntar realizador de eleição, com actores fetiche, ao lado de uma equipa técnica galáctica – termo tão em voga, por estes dias. Isto é coisa para durar uns três quartos de hora. Conceber um plot a+b=c não serve. Convém ser algo mais rebuscado, de modo a conseguirmos visualizar a hipotética química dos actores seleccionados. Sem ir mais longe, presentemente, Alvy Singer continua com esperanças numa Woody Allen joint, num argumento a meias com Cameron Crowe, protagonizada por Tom Cruise e Meg Ryan, com Clint Eastwood, Shirley MacLaine e Paul Rudd em papéis mais secundários, banda sonora de James Horner, fotografia de Roger Deakins, e montagem de Pietro Scalia. Esta seria uma bela Dream Team. No entanto, enquanto este aglomerado de estrelas não for possível, contentemo-nos com Fantastic Mr. Fox.
Realizado por Wes Anderson, o filme reúne os créditos de Noah Baumbach como co-argumentista, do compositor Alexandre Desplat, do guru do design Alex McDowell, e de um elenco vocal que conta nas suas fileiras com gente como George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray ou William Defoe. Estas duas fotografias, disponibilizadas pelo Filmsactu, dão-nos ainda mais alento. São pormenores como aquele quadro na segunda imagem que fazem toda a diferença. Que o senhor Fox do título é fantástico, já nós sabemos. Agora, será fantástico ao ponto de ameaçar a hegemonia Pixar? Parece-nos que este será mais aquele tipo de filme que, daqui por uns meses, nos levará a procurar o dicionário em busca de sinónimos para conservadorismo, se quisermos esganar uns quantos membros Academia.
Wes Anderson está de volta em 2009. Agora, se nos Estados Unidos será preciso esperar até meados de Novembro para ver Fantastic Mr. Fox, a adaptação da obra de Roald Dahl, por cá, o título deverá chegar às salas só em 2010. Sejamos pacientes. É certo que aguardar pela primeira animação de Anderson tem o seu quê de inquietude. No entanto, até lá teremos certamente uns quantos teaser posters, trailers e clips desta história sobre uma raposa (Mr. Fox) que passa a vida a roubar três malditos agricultores, para nos entreter. Aliás, as festividades já começaram. Esta semana, o JoBlo deu a conhecer o logo oficial da obra. E, durante o fim-de-semana decorreram os primeiros test screens em Nova-Iorque. Duas críticas à pressão, na corrida pelas primeiras impressões, só têm a dizer bem. A primeira, do absolutepunk.net.
“Fantastic Mr. Fox - 9/10. Ive seen many test screenings lately, and this by far was the best of them (others being Taking Woodstock & Assasination of High School President). It was a different company doing the test screening so there was no focus group after to talk of the movie…and they made me sign a contract saying that I wouldnt do what Im doing (reviewing the movie). But it was good! To me it was Watership Down + Wallace and Gromit + Wes Anderson = Fantastic Mr. Fox”.
“I’m a big Wes Anderson fan as it is, and Fantastic Mr Fox is such a great story that it would be very hard to screw it up, but from what I’ve seen so far, he’s really done an incredible job. (…) The film was very good. Even on an ungraded film reel, it still looked absolutely fantastic. (…) I can’t wait to see the finished version, and neither should you”.
O filme conta com as vozes de George Clooney, Cate Blanchett, Bill Murray, Jason Schwartzman, Angelica Huston e Meryl Streep.
A iniciar esta semana repleta de boas estreias, começo pelo polémico Nome de Código: Cloverfield. Este filme é um exemplo fantástico da força do marketing do cinema (cultivado pela pouca informação que o site dispunha, o que lançou uma curiosidade insaciável no público e despertou uma procura enorme na Internet), feita, refira-se antes de mais, com uma coerência e qualidade reais (em oposição, por exemplo, ao medíocre O Projecto Blair Witch). Sobre o olhar atento de J.J. Abrams (A Vingadora, Perdidos, M:I:3) que deu a cara pelo filme e se sentou comodamente na cadeira da produção, o realizador Matt Reeves (que veio do mundo da TV, tal como Abrams) concebe uma obra distinta a vários níveis, e que nos dá que pensar sobre o cinema e o seu futuro.
A acção passa-se em Nova Iorque, mais propriamente Manhattan, e mostra-nos uma história de amor com pontas soltas, que se encadeia num grupo de pessoas que festeja alegremente uma despedida de um amigo comum, que vai partir para o Estrangeiro em trabalho. Entre as primeiras impressões dos protagonistas (onde a maioria dos actores são desconhecidos, exceptuando os casos de Jessica Lucas, Lizzy Caplan e Mike Vogel) e um início de construção narrativa coerente, o grupo é apanhado de surpresa numa tragédia que aparenta ser de causas naturais, mas que se vai revelar um verdadeiro pesadelo de natureza surreal, onde todos vão lutar pela sua sobrevivência, em busca de respostas para o que se está a suceder.
Filmado com uma câmara de vídeo (que, surpreendentemente, não cansa visualmente o espectador um único minuto), o filme é-nos mostrado pelas pessoas da festa, que gravam tudo durante o seu infernal percurso pela cidade – e é sobre esse dispositivo de documentário/filme que nos é apresentada esta obra vibrante, que nos dá conta de uma arrojada realização e montagem, bem como uma clara noção dramática e de suspense tão bem medida e perfeitamente distribuída pelos curtos 75 minutos do filme. São vários os géneros incluídos nesta obra, que fazem dela um objecto de cinema original, onde o seu misticismo (e o final), pendurados sobre a questão da problematização do “propósito de tudo ter acontecido”, recordam, inevitavelmente, a obra-prima Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock.
4/5 - Bom
THE DARJEELING LIMITED
Seguimos para outro tipo de drama, com The Darjeeling Limited, a última obra de Wes Anderson. Este fabuloso filme encerra a uma trilogia familiar, iniciada pelo realizador, em 2001, com The Royal Tenembaums – Uma Comédia Genial, seguida, em 2004, com The Life Aquatic with Steve Zissou – Um Peixe Fora d'Água. Se no primeiro caso temos um pai, cuja ausência e descuido deixara marcas irremediáveis nos seus filhos, à procura da sua redenção, no segundo caso vemos um filho tentar conquistar um pai que nunca teve, movido pela paixão comum da exploração da vida debaixo do mar; o pai acaba por encontrar na sua recente função paternal uma via para se auto-descobrir.
Para completar este mosaico, chega-nos agora a inesperada aventura dos irmãos Whitman (Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman) que iniciam uma viagem espiritual para a Índia, em busca de respostas interiores para os seus conflitos pessoais, onde a ausente cumplicidade entre irmãos, a fria independência da mãe e a morte do pai funcionam como os vectores determinantes. Mas, por entre o choque das relações entre eles, alimentadas pela mais variada colecção de comprimidos e outras substâncias que tomam sem controlo, surge um laço que os vai unir numa situação única, e que mudará o curso da viagem, bem como a sua intenção inicialmente prevista.
Com o seu estilo narrativo muito próprio, Wes Anderson cria em Darjeeling um momento de grande cinema, enquanto fiel retrato das emoções humanas inerentes ao conceito familiar e ao contacto com outras culturas, neste caso específico. Uma vez mais, Wes reafirma o fantástico realizador e contador de histórias que é, sobre uma visão estética muito peculiar e específica, a que já nos habitou nos seus títulos anteriores, e dirige três grandes actores no encanto quase musical, repleto das mais absurdas e cómicas situações que se intercalam com momentos de felicidade e tristeza, tal como a própria vida. De notar o feito que a distribuidora Castello Lopes conseguiu, ao incluir antes do filme, a curta-metragem Hotel Chevalier, também de Wes Anderson, com Jason Schwartzman e Natalie Portman (a grande surpresa surge com as suas cenas de nudez, “vestidas” de uma naturalidade incrível); um pequeno doce que nos liga directamente ao início do filme, e que nos acompanha ao longo do mesmo. É imperdível.
5/5 – Magnífico
O COMBOIO DAS 3 E 10
De seguida, damos um saltinho ao Oeste. James Mangold (Copland, Walk the Line) realiza O Comboio das 3 e 10, um delicioso regresso ao género tão nobre que é o Western. Com as bases bem assentes do filme original (realizado por Delmer Davies em 1957, com Glenn Ford e Van Heflin nos principais papéis), este é um exemplo de uma boa conjugação de influências, que nos enche durante duas horas.
Em linhas gerais, O Comboio das 3 e 10 conta a história de Dan Evans, um pobre rancheiro debilitado (Christian Bale) que se vê forçado a integrar numa missão arriscada para salvar a sua família do desespero financeiro e moral: Evans tem de transportar, em segurança, o pistoleiro criminoso Ben Wade (Russel Crowe) até ao comboio das 3 e 10, que o levará para a prisão de Yuma para ser julgado. Para além das suas debilitações e de um grupo cobarde que o acompanha neste perigosa missão, Evans vê-se ainda ameaçado pelo grupo de forasteiros que perseguem o seu rasto para libertar Wade, o seu destemido líder. Durante uma noite inteira e até ao começo da tarde, desenvolve-se entre Evans e Wade uma estranha cumplicidade, que vai ditar as acções de cada um; herói e vilão vêem-se encurralados num futuro já determinado.
Do início ao fim do filme, a acção é garantida e filmada com um pulso seguro, tal como o argumento é competente. À rica visão de Mangold junta-se a sua notória direcção artística, que faz de Christian Bale e de Russel Crowe um par de interpretações de grande nível. Temos aqui um interessante exemplo de Western, ainda que não exista uma dimensão humana de valores maiores, e por isso o filme não é capaz de nos devolver algo outrora proveniente de mestres como Ford, Hawks, Leone ou até Clint Eastwood. E como tal, sente-se que se podia ter feito mais, seja com as personagens, seja com o argumento, seja até a nível visual – falta uma existência de uma visão mais vincada de estética e força da história. No entanto, estão asseguradas emoções fortes e duas horas de excelente entretenimento.
3/5 – Razoável
BANQUETE DO AMOR
De regresso à actualidade, somos brindados com um drama ímpar. Banquete do Amor é o mais recente filme do competente realizador Robert Benton (Kramer contra Kramer, Vidas Simples, Culpa Humana). Neste singular filme dedicado ao amor e às suas mais belas e tristes formas de vida criadas e vividas pelas pessoas, Benton constrói uma obra deliciosa de fantasia e, em simultâneo, com uma carga muito real à qual não se pode fugir.
Na serena comunidade de Oregon surgem inúmeras histórias entre os seus habitantes, onde o amor encarna o papel principal. Sem olhar a idades, formas ou sexos, ele funciona como matriz principal da vida. Tudo isto é testemunhado por Harry Stevenson (o sempre fabuloso Morgan Freeman), um professor que se retirou das suas funções devido a um passado doloroso, que partilha com a sua mulher (Jane Alexander). Harry funciona como uma ferramenta preciosa na vida dos seus amigos e conhecidos, onde se encontra o seu amigo Bradley Thomas (Greg Kinnear) com os seus casamentos falhados, a sua amiga Chloe (Alexa Davalos) e o seu namorado Oscar (Toby Hemingway), jovens recheados de incerteza e fragilidade, a quem se juntam mais pessoas que tomam lugares nas suas vidas e que as vão mudar para sempre.
Há muito que não se via um filme tão simples e complexo na mesma medida, onde o efeito especial é o factor humano. Benton cria um tratado sobre o amor, onde existe espaço para a celebração, a contemplação, a angústia, a tristeza e, ainda, a felicidade. Este é um caso obrigatório de se ver, para se aprender mais sobre o cinema de grande qualidade, sobre a vida e, inevitavelmente, sobre o amor.